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"Tá ligado": o botão que aciona o "garçom divino" no céu para trazer à terra qualquer coisa que se pedir nas reuniões da IURD

Um texto bíblico bastante usado pela Universal em seus propósitos/campanhas para convencer os incautos de que tudo o que eles quiserem pode ser realmente conquistado participando das reuniões da instituição é um trecho de Mt 18. Mas será que a interpretação bíblica que sustenta essa doutrina é válida?

Em uma pesquisa no Google pelo termo “igreja universal mateus 18.18”, verifiquei seis resultados pertinentes publicados em portais oficiais da Igreja Universal do Reino de Deus. Ao fim do artigo, os respectivos links estarão devidamente listados para consulta na íntegra.

Primeiramente, é importante assegurar que muitos nem sabem onde está escrita tal afirmação de Cristo. Esse lema é incutido no subconsciente geral por meio de diversos artifícios. Um deles são os decretos de vitória que os pastores pregam seguidos da expressão: “Tá ligado?”, ao que o povo responde com uma batida das palmas das mãos (é sério!). Outro são os corinhos repetidamente tocados em reuniões de cura, libertação e prosperidade. Vejamos alguns deles:

Se tá ligado aqui na terra / Tá ligado lá / Essa corrente é muito forte / Deus vai responder / Naquele que me fortalece / Pela minha fé / É vencer ou vencer (Tá Ligado, de Beno Cesar)
Tudo que pedires em meu nome / Eu vos darei / Se concordares com certeza / Eu responderei / Você tem a chave que abre a porta da vitória / Está em tuas mãos a chave da oração / Tá ligado / Oh, oh, tá ligado / O que ligares na terra / Tá ligado no céu / Tá ligado (Tá Ligado, de Marcio Pinheiro)
Liga, liga, liga, liga, liga, liga nessa hora / Pede, pede, pede, pede a sua vitória (Desemborca O Vaso, de Cicero de Jesus)
Tudo que ligarmos aqui / Lá no céu ligado será / Deus, eu ligo aqui agora / Minha casa, minha empresa / A fartura em minha mesa / Meu carro importado / Meu salário abençoado / Só pra Te glorificar (Nação dos Vencedores, de Ricardo Leitte)

“Só pra Te glorificar” no final é a cereja do bolo! Depois segue para o refrão na mesma pegada: “Eu vou prosperar / Eu vou arrebentar / Tudo que eu quero eu vou conquistar / O nome de Jesus eu vou glorificar”. Pode até sangrar os olhos de quem está lendo a letra dessa canção ou os ouvidos de quem for ouvi-la para conferir se isso é mesmo verdade. Mas para quem “é” a Universal, cantar isso é tão natural quanto um casal apaixonado fazer mútuas declarações de amor.

Vejamos agora algumas das afirmações presentes nas publicações referenciadas:

Hoje, a manifestação do Poder de Deus, em todos os sentidos, não começa de cima pra baixo, mas sim, de baixo pra cima. O Senhor Jesus disse: [cita Mt 18.18-19] Ou seja, não podemos esperar os céus moverem a terra. Mas devemos nós mesmos, da terra, mover os céus! Fonte: Vamos mover os céus!
No dia 7 de maio último, cerca de 60 mil pessoas estiveram presentes na grande concentração de fé “A minha vida de volta”, no Coliseum Madagascar, em Antananarivo, capital de Madagascar (país que fica em uma ilha, na África). [...] A reunião, que teve como objetivo principal fazer com que as pessoas saíssem da dominação religiosa e começassem a levar a fé viva em Jesus, foi ministrada pelo pastor Miguel Mafumisse, responsável pela Universal no país, que transmitiu uma mensagem de fé baseada na passagem bíblica de Mateus 18.18-20:  [cita Mt 18.18-20]  Com base no versículo acima, o pastor mostrou aos presentes que cada um tinha o poder de desligar de suas vidas o que não queriam. “As pessoas firmes na fé desligam o sofrimento e ligam bênçãos”. Fonte: “A minha vida de volta” reúne 60 mil pessoas em Madagascar
No dia do Trabalhador, 1º de maio, ocorreu a Noite das Maiores Riquezas, durante o Congresso para o Sucesso, no Templo de Salomão, em São Paulo. Conduzido pelo Bispo Renato Cardoso e pelo Bispo Jadson Santos, a reunião, voltada para a restauração financeira, reuniu os 27 Bispos e Pastores que estão à frente da Universal em cada Estado do Brasil. O Bispo Jadson, que realiza os encontros às segundas-feiras no Templo de Salomão, falou do significado do encontro: “o Senhor Jesus disse: “tudo o que vocês ligarem na terra terá sido ligado no céu, e tudo o que vocês desligarem na terra terá sido desligado no céu” (Mateus 18.18-19). Imagine 27 Bispos e Pastores ligando as vitórias. Eu creio que a vida de muitas pessoas será alavancada e toda atuação do mal e o que as atrapalha será desligado”. Fonte: As lições da noite das maiores riquezas

Em suma, percebe-se claramente que a Universal entende a fala de Cristo em Mt 18.18-20 e textos correlatos como um botão conectado ao céu, o qual, ao ser acionado, controla as forças celestiais a fim de dar ao pedinte a benção que ele está ligando em concordância com outras pessoas. Veja a audácia do líder da instituição, Edir Macedo, ao afirmar que hoje a manifestação do poder de Deus não começa do céu, mas, sim, da terra, por meio dos megalomaníacos da fé, conforme ele mesmo já afirmou ser durante uma das suas pregações!

Ao iniciar a análise do texto bíblico em questão, devemos identificar o contexto em que se encontram essas palavras nas Escrituras. Trata-se de uma fala de Cristo localizada especialmente em Mt 18.18-20, mas havendo também outras passagens relacionadas com essa fala. O livro de Mateus, por sua vez, é um dos evangelhos constantes no cânon bíblico, que possui um enfoque muito claro em apresentar Cristo para os judeus como sendo o Rei esperado, o Messias aguardado. Nele, identifica-se uma estrutura de cinco discursos principais de Cristo, que servem como uma espécie de manual discipulador, cada qual tratando sobre um determinado tema. Os capítulos 18 a 20, parte do evangelho em que está situada a passagem em comento, compõem o quarto discurso de Jesus, especialmente com conselhos à comunidade dos crentes, explicando-lhes a natureza dessa comunhão entre os salvos e orientando-lhes sobre como lidar com determinadas dificuldades que se apresentariam nesse convívio. 

Adentrando o discurso de Cristo, vê-se Sua exortação aos discípulos, preocupados com quem seria o maior no Reino dos Céus, aos quais Ele ensinou que deveriam, na verdade, se preocupar em ser humildes como uma criança. Em seguida, Ele trata da gravidade dos escândalos para a comunidade cristã. Escândalo significa, no original grego, pedra de tropeço. Por isso, algumas traduções trazem o termo “tropeços” em lugar de “escândalos”. Escandalizar alguém, no contexto dessas palavras de Cristo, é ofender a pureza da sua fé e induzi-lo a cair em pecado e se afastar do ajuntamento dos crentes por isso. Embora Cristo advirta que os escândalos são inevitáveis, a Sua sentença sobre aqueles por meio de quem eles vêm é severa (talvez aqui os líderes religiosos da IURD devam colocar a mão na consciência e ponderar sobre o tremendo juízo que podem estar atraindo para si mesmos por induzir tantos pequeninos na fé ao erro doutrinário e às distorções bíblicas ensinadas por eles). Segundo o bom conselho do Senhor, é melhor que arranquemos de nós mesmos aquilo que está nos levando a servir de pedra de tropeço do que sofrermos o juízo reservado para os escandalizadores. Cristo, então, alerta os discípulos para que, ao invés de ficarem preocupados em serem os maiores no Reino, estejam vigilantes para não escandalizarem nenhum dos pequeninos que nEle creem, pois Ele veio para salvar os perdidos, não sendo da vontade do Pai que alguém se perca. 

A partir de então, o Senhor Jesus começa a ensinar como deve ser conduzido o procedimento disciplinar da Igreja para com os irmãos faltosos, em Mt 18.15-10. Caso um irmão cometa um pecado, prejudicando outro irmão, deve-se repreendê-lo individualmente. Na hipótese de ele não se arrepender, deve-se repreendê-lo com outras duas ou três testemunhas. Se ainda assim não se arrepender, o assunto deve ser levado à Igreja. Permanecendo, mesmo assim, duro o coração do irmão, ele deve ser excomungado. É nesse exato contexto que Cristo faz as declarações em análise aqui:

Se o seu irmão pecar contra você, vá e, a sós com ele, mostre-lhe o erro. Se ele o ouvir, você ganhou seu irmão. Mas, se ele não o ouvir, leve consigo mais um ou dois outros, de modo que “qualquer acusação seja confirmada pelo depoimento de duas ou três testemunhas”. Se ele se recusar a ouvi-los, conte à igreja; e, se ele se recusar a ouvir também a igreja, trate-o como pagão ou publicano. Digo a verdade: Tudo o que vocês ligarem na terra terá sido ligado no céu, e tudo o que vocês desligarem na terra terá sido desligado no céu. Também digo que, se dois de vocês concordarem na terra em qualquer assunto sobre o qual pedirem, isso será feito a vocês por meu Pai que está nos céus. Pois onde se reunirem dois ou três em meu nome, ali eu estou no meio deles. (Mt 18.15-20)

Tem-se, pois, que “tudo” nessa fala se refere às decisões acerca da disciplina da Igreja a respeito dos irmãos faltosos. Se a Igreja decide manter o irmão em comunhão mediante o seu arrependimento sincero, essa decisão é referendada por Cristo. Se, por outro lado, o irmão insistir no erro e sofrer a excomunhão, isto é, a separação do corpo de Cristo, para que talvez assim se arrependa, já que todas as outras medidas não foram suficientes para tanto, essa decisão também é referendada por Cristo. 

Nesse ponto, é importante destacar que essa “assinatura embaixo” não é à distância ou imaginária. O Senhor Jesus assegura que está no meio dos irmãos nessas ocasiões disciplinares, posto que é dEle a autoridade para perdoar ou rejeitar o perdão (Mt 9.6) e a Igreja pertence a Ele, estando continuamente sob o Seu domínio. E o mais interessante disso é que, embora algumas traduções tragam a expressão “será (des)ligado”, o original grego assume um tempo verbal em que o fato no céu já está consumado quando ocorre na terra. Por isso, o sentido mais fiel ao texto original é “terá sido (des)ligado”. 

Portanto, resta evidenciado que essa fala de Cristo não se aplica em nada aos pedidos de milagres, cura, prosperidade, entre outros, estando restrita ao contexto disciplinar da Igreja. Além disso, cai por terra também a falácia de Edir Macedo de que a manifestação do poder de Deus hoje começa de baixo para cima. Jamais! Ele é soberano sobre toda a criação e não está sujeito aos decretos de homem algum, que é apenas pó. É Ele quem determina quando, como e em que circunstâncias Seu poder há de ser manifesto. Quanta audácia! Que heresia! Veja o que a Bíblia afirma categoricamente sobre isso:

Quem poderá falar e fazer acontecer, se o Senhor não o tiver decretado? Não é da boca do Altíssimo que vêm tanto as desgraças como as bênçãos? (Lm 3.37-38)

Analisemos agora um texto correlato à passagem em discussão, situado dois capítulos antes.

Chegando Jesus à região de Cesareia de Filipe, perguntou aos seus discípulos: “Quem os outros dizem que o Filho do homem é?” Eles responderam: “Alguns dizem que é João Batista; outros, Elias; e, ainda outros, Jeremias ou um dos profetas”. “E vocês?”, perguntou ele. “Quem vocês dizem que eu sou?” Simão respondeu: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Respondeu Jesus: “Feliz é você, Simão, filho de Jonas! Porque isto não foi revelado a você por carne ou sangue, mas por meu Pai que está nos céus. E eu digo que você é Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do Hades não poderão vencê-la. Eu darei a você as chaves do Reino dos céus; o que você ligar na terra terá sido ligado nos céus, e o que você desligar na terra terá sido desligado nos céus”. (Mt 16.13-19)

Na passagem acima, Cristo confere a Pedro, assim como conferiria aos demais apóstolos posteriormente, a autoridade relativa ao Reino dos céus. Pela pregação do evangelho por meio de Pedro e dos demais, as portas do Reino seriam abertas para os que cressem e fechadas para os que não cressem. Além disso, novamente se vê a autoridade de ligar e desligar. Portanto, pode-se interpretar devidamente como sendo uma autoridade disciplinar para aqueles que já estão no Reino, em consonância com o sentido dos textos correlatos. 

Na primeira carta de Paulo aos coríntios, encontramos a aplicação instrumental desse conselho de Jesus à comunidade cristã:

Por toda parte se ouve que há imoralidade entre vocês, imoralidade que não ocorre nem entre os pagãos, a ponto de um de vocês possuir a mulher de seu pai. E vocês estão orgulhosos! Não deviam, porém, estar cheios de tristeza e expulsar da comunhão aquele que fez isso? Apesar de eu não estar presente fisicamente, estou com vocês em espírito. E já condenei aquele que fez isso, como se estivesse presente. Quando vocês estiverem reunidos em nome de nosso Senhor Jesus, estando eu com vocês em espírito, estando presente também o poder de nosso Senhor Jesus Cristo, entreguem esse homem a Satanás, para que o corpo seja destruído, e seu espírito seja salvo no dia do Senhor. (1Co 5.1-5)

A situação da Igreja em Corinto à época dessa primeira carta do apóstolo Paulo era caótica. Muitas divisões internas, muito mundanismo, falta de amor, egoísmo etc. Um dos principais problemas era a imoralidade, a qual, conforme as palavras do próprio apóstolo, estava superando até a dos pagãos. Quanto ao homem que estava tendo relações sexuais com a própria madrasta, a consequência que lhe cabia era a excomunhão. Paulo orientou que a Igreja fizesse exatamente como Cristo ordenou: se reunisse para exercer o ato disciplinar sobre ele. Ele deixa claro que Cristo estaria no meio deles, assim como prometido pelo Senhor aos seus discípulos. Aqui se evidencia a autoridade para desligar na terra o que já havia sido desligado no céu. 

Na segunda carta aos coríntios, vemos outro exemplo nesse sentido.

Se um de vocês tem causado tristeza, não a tem causado apenas a mim, mas também, em parte, para eu não ser demasiadamente severo com todos vocês. A punição que foi imposta pela maioria é suficiente. Agora, ao contrário, vocês devem perdoar-lhe e consolá-lo, para que ele não seja dominado por excessiva tristeza. Portanto, eu recomendo que reafirmem o amor que têm por ele. Eu escrevi com o propósito de saber se vocês seriam aprovados, isto é, se seriam obedientes em tudo. Se vocês perdoam a alguém, eu também perdoo; e aquilo que perdoei, perdoei na presença de Cristo, por amor a vocês, a fim de que Satanás não tivesse vantagem sobre nós; pois não ignoramos as suas intenções. (2Co 2.5-11)

Nessa segunda carta, o motivo da provável excomunhão (ou punição semelhante) desse outro homem não é mencionado, mas os estudiosos sugerem, pelo contexto da introdução da carta até chegar a esse ponto, que se trate de um dos opositores de Paulo em Corinto, o qual se aproveitou da demora do apóstolo em visitar a Igreja de lá para suscitar uma rebelião contra a autoridade apostólica dele. Agora, ao encorajá-los a readmitir o faltante à comunhão dos crentes, ele afirma que o perdoa junto com os demais irmãos de Corinto, e isso na presença de Cristo. Essa é outra evidência de que Cristo está no meio da Igreja nessas questões disciplinares. Nesse caso, usou-se a autoridade para ligar na terra aquilo que já havia sido ligado no céu. 

Agora veja o que Edir Macedo, em suas anotações bíblicas, afirma sobre as palavras de Jesus acerca da autoridade de ligar e desligar (o que dá sentido às publicações e canções da IURD mencionadas no início do capítulo):

[...] Com a autoridade Divina, podemos determinar a vida abundante e a Salvação para aquele que crê, e isso será concordado imediatamente no Céu. De igual modo, com a mesma autoridade, podemos desligar, isto é, proibir a ação do mal na vida das pessoas, e isso será também validado no Céu. Fonte: Bíblia Sagrada com as anotações de Fé do Bispo Edir Macedo [Mt 16.19]

Novamente, ele ignora completamente a soberania de Deus e afirma que pode “determinar” a “vida abundante” (leia-se: $$$), o que fará com que Deus concorde com ele imediatamente no Céu. Segundo ele, pode “determinar” até mesmo a salvação! De semelhante modo, ele afirma poder proibir a ação do mal e que isso também será validado imediatamente no Céu.

À luz do contexto em que essas passagens sobre a autoridade de ligar e desligar estão inseridas, bem como dos exemplos práticos presentes na própria Bíblia, podemos enxergar como é equivocada e presunçosa a aplicação que a Universal tem conferido a essas palavras de Cristo e levado tantos quanto puderem ao mesmo erro, validando assim suas campanhas, propósitos e concentrações sobre essa distorção bíblica, a fim de arrecadar cada vez mais dinheiro, devido à falta de esclarecimento bíblicos dos incautos e desesperados por curas, milagres e prosperidade.


Nota: transcrições bíblicas extraídas da Bíblia Sagrada, Nova Versão Internacional ®, NVI ® Copyright © 1993, 2000, 2011 by Biblica, Inc., exceto aquelas cujas descrições indiquem versão diversa.


REFERÊNCIAS OFICIAIS DA UNIVERSAL:

1. Vamos mover os céus!, publicado em 04/01/2016.

3. Feliz 2019, publicado em 20/10/2019.

4. Qualquer coisa que pedirem…, publicado em 28/03/2022.

6. As lições da noite das maiores riquezas, publicado em 14/05/2023.

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