"Tendo cancelado o escrito de dívida": por que meu banco ainda não foi comunicado disso?
Se a proposta da IURD é de que as pessoas vão parar de sofrer quando participarem das reuniões da instituição, a questão das dívidas não pode ficar de fora desse espectro. No Brasil, segundo os dados mais recentes (2024), cerca de 78,8% das famílias possuem dívidas nas modalidades cartão de crédito, cheque especial, carnê de loja, crédito consignado, empréstimo pessoal, cheque pré-datado e prestações de carro e casa. É o que afirma uma matéria do portal UOL, em que é informado ainda que o nível de consumidores inadimplentes, isto é, que não estão com o pagamento das contas em dia, é de 28,6%.
Segundo a teologia da prosperidade difundida pela Universal, a pobreza, a dívida, o desemprego... tudo isso é ação do diabo. Segundo eles ensinam, o evangelho nos promete riqueza e conforto nessa vida. Se alguém está pobre, precisa lutar contra os demônios que estão agindo na sua vida, impedindo o seu crescimento financeiro. Se alguém está morando de aluguel, precisa se revoltar contra o diabo e determinar que vai ter uma casa própria. Se alguém está endividado... Bom, isso vamos ver a seguir.
O bispo Renato Cardoso, escolhido para suceder Edir Macedo, seu sogro, ao tratar sobre uma recente campanha promovida pela Universal, chamada "Domingo do 'Está Escrito'", afirma o seguinte:
Durante a programação “Inteligência e Fé“, do dia 2 de julho, o Bispo Renato Cardoso disse: “as três vezes que o diabo tentou o Senhor Jesus no deserto, ele foi vencido com o poder do ‘está escrito’, que Jesus usou para confrontar todas as investidas do mal. É isto o que nós vamos fazer na ‘Semana do Está Escrito’. Você tem sido confrontado com uma palavra do mal. Aquele exame médico, que diz ‘você tem essa doença’, é uma palavra a favor da enfermidade. O papel do juiz são palavras que falam do seu caso, da dúvida do que pode ou não pode acontecer. Palavras do seu extrato bancário que mostram a sua dívida crescendo a cada dia. Existem muitas palavras que confrontam a realidade, a fé e o desejo das pessoas. A Palavra de Deus tem promessas que têm que se cumprir na vida dos que creem, não porque merecem, mas porque Deus não falha em Sua Palavra, Ele não mente. E é neste espírito que vamos começar a ‘Semana do Está Escrito’. Traga os escritos que são contrários a você, que testificam o mal em sua vida e nós vamos confrontar isso com a Palavra de Deus (e, se possível, traga a sua Bíblia)”. Fonte: 7 de julho: “Domingo do Está Escrito”
A melhor parte é o final: "e, se possível, traga a sua Bíblia". Só por aí já dá para perceber como a Universal desvaloriza o conhecimento bíblico em detrimento das campanhas de "fé".
Seguem alguns exemplos da aplicação desse texto pela IURD em suas campanhas:
Analisemos, portanto, o contexto da passagem utilizada como base para esse tipo de campanha da Igreja Universal contra as dívidas, a fim de descobrirmos se é válido esse tipo de propósito ou se trata de apenas mais uma distorção bíblica dessa instituição para atrair fiéis.
Acredita-se que Igreja de Colossos surgiu como resultado do ministério de Paulo em Éfeso. Em At 19.10, lemos que "todos os judeus e os gregos que viviam na província da Ásia ouviram a palavra do Senhor". Provavelmente Epafras, o qual ensinou o evangelho aos colossenses (Cl 1.7), foi uma dessas pessoas alcançadas pelo ministério de Paulo em Éfeso.
O apóstolo, após a introdução da epístola, diz o seguinte aos cristãos da Igreja de Colossos:
Quero que vocês saibam quanto estou lutando por vocês, pelos que estão em Laodiceia e por todos os que ainda não me conhecem pessoalmente. Esforço-me para que eles sejam fortalecidos em seu coração, estejam unidos em amor e alcancem toda a riqueza do pleno entendimento, a fim de conhecerem plenamente o mistério de Deus, a saber, Cristo. Nele estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento. Eu digo isso para que ninguém os engane com argumentos que só parecem convincentes. Porque, embora esteja fisicamente longe de vocês, em espírito estou presente e me alegro em ver como estão vivendo em ordem e como está firme a fé que vocês têm em Cristo. (Cl 2.1-5)
Paulo elogia os colossenses pela evolução que estão demonstrando na graça e no conhecimento do Senhor e afirma que se esforça para que todos cheguem ao pleno entendimento do evangelho da cruz de Cristo. Contudo, apesar desse progresso, a Igreja de Colossos estava sendo atacada por falsos ensinos contrários à sã doutrina. Isso não é uma exclusividade da nossa geração. Não há consenso sobre qual era exatamente essa heresia que estavam tentando infiltrar na Igreja, mas é com o intuito de combatê-la que o apóstolo escreve essa carta àqueles irmãos, razão pela qual podemos ao menos presumir quais eram os elementos principais dessa falsa doutrina.
Portanto, assim como vocês receberam Cristo Jesus, o Senhor, continuem a viver nele, enraizados e edificados nele, firmados na fé, como foram ensinados, transbordando de gratidão. Tenham cuidado para que ninguém os escravize a filosofias vãs e enganosas, que se fundamentam nas tradições humanas e nos princípios elementares deste mundo, e não em Cristo. (Cl 2.6-8)
O apóstolo adverte os colossenses para que eles permaneçam enraizados na verdade em que foram ensinado, a saber, Jesus Cristo, o único e absoluto Senhor. Para que isso aconteça, aqueles cristãos deveriam se acautelar dos falsos mestres, o que ecoa o ensino do próprio Messias (Mt 7.15). Estes intentavam enredar os seus ouvintes com filosofias vãs e enganosas, seduzindo-os com a proposta de que evoluiriam espiritualmente por meio do conhecimento que eles tinham a transmitir. Contudo, tudo isso não passava de ledo engano, uma vez que as filosofias dos falsos mestres infiltrados na Igreja de Colossos estavam fundamentadas em tradições humanas e nos princípios elementares deste mundo. Eram simplesmente ideias concebidas pela mente humana, que não eram capazes de aperfeiçoar verdadeiramente homem algum. Além disso, o termo utilizado para princípios elementares muito provavelmente se refere a seres espirituais, conforme o significado usual do termo no original grego naquela época e o contexto geral da epístola, os quais eram comumente associados aos astros do céu e aos elementos da natureza.
Nenhuma dessas filosofias, portanto, estava fundamentada em Cristo. Aí reside o problema, conforme a explicação em sequência:
Pois em Cristo habita corporalmente toda a plenitude da divindade, e, por estarem nele, que é o Cabeça de todo poder e autoridade, vocês receberam a plenitude. Nele também vocês foram circuncidados, não com uma circuncisão feita por mãos humanas, mas com a circuncisão feita por Cristo, que é o despojar do corpo da carne. Isso aconteceu quando vocês foram sepultados com ele no batismo e com ele foram ressuscitados mediante a fé no poder de Deus que o ressuscitou dentre os mortos. (Cl 2.9-12)
A verdade é que (i) Cristo é a expressão exata e visível de Deus, (ii) possui todo poder e autoridade e (iii) a compartilha com os que nEle creem. Por essa declaração, os cristãos de Colossos foram encorajados a não se submeterem a um falso ensino por medo de não serem aperfeiçoados para Deus apenas por meio do evangelho e estarem vulneráveis às forças espirituais do mal. E isso é tão verdade que Paulo prossegue tratando da verdadeira circuncisão que Cristo opera em nós. Isto porque é muito provável, de acordo com o contexto geral da epístola, que esses falsos mestres que perturbavam os colossenses fossem do grupo dos judaizantes, os quais se preocupavam com genealogias e fábulas judaicas (1Tm 1.4; Tt 1.14), fazendo um verdadeiro caldo religioso, mesclando judaísmo com paganismo. A verdadeira circuncisão, portanto, é o novo nascimento, por meio do qual morremos com Cristo para o pecado e ressuscitamos com Ele para uma vida agradável a Deus, e isso é somente por meio da fé.
Quando vocês estavam mortos em pecados e na incircuncisão da sua carne, Deus os vivificou com Cristo. Ele nos perdoou todas as transgressões e cancelou a escrita de dívida, que consistia em ordenanças e que nos era contrária. Ele a removeu, pregando-a na cruz, e, tendo despojado os poderes e as autoridades, fez deles um espetáculo público, triunfando sobre eles na cruz. (Cl 2.13-15)
Nesse ponto, esclarece-se como foi realizada essa circuncisão, ou seja, como foi possível que recebêssemos vida eterna com Cristo, embora estivéssemos mortos em nossos pecados. Em primeiro lugar, Deus nos perdoou todas as transgressões. Isso é maravilhoso! Vemos nisto a manifestação da sua misericórdia. Contudo, Ele é justo e não poderia deixar impune a nossa injustiça contra a Sua santa Lei. É por isso que Ele cancelou a escrita de dívida que nos era contrária. Não tem nada a ver com o seu financiamento bancário, com a fatura do seu cartão de crédito ou com o limite do seu cheque especial. Infelizmente, mais uma vez, a Universal distorceu a Bíblia para você.
A escrita de dívida era uma espécie de nota promissória, na qual o próprio devedor escrevia à mão a sua confissão de débito com o credor. Paulo, nessa metáfora, afirma que esse documento consistia em ordenanças. Agora, pare e reflita: em um contexto de perdão de pecados ligado à morte e ressureição com Cristo, o que essa ilustração do apóstolo poderia significar? Ora, nossos pecados são transgressões da Lei (1Jo 3.4), a qual, por sua vez, conjuga as ordenanças divinas que promovem a justiça do homem. A Lei exige perfeição. Todo ser humano, contudo, é pecador e carece da glória de Deus (Rm 3.23). Essa é a nossa escrita de dívida. Quando pecamos, é como se estivéssemos assinando a nossa dívida com as ordenanças da Lei. O problema é que não temos condições de pagar essa dívida, pois um simples tropeço em um único ponto da Lei já nos torna culpados de quebrá-la por inteiro (Tg 2.10) e, portanto, dignos de morte.
A maravilhosa notícia é que Jesus, o Filho de Deus, nasceu debaixo da Lei (Gl 4.4) e cumpriu toda a Lei (Mt 5.17). Quando foi crucificado, sem pecado, levou sobre si as nossas iniquidades (Is 53.5-6), o Justo pelos injustos (1Pe 3.18). Assim, Cristo pagou a dívida que era nossa. Ele sofreu a condenação que nos era devida ao ser derramada sobre Ele a ira divina que satisfaz a justiça. E isso não é qualquer coisa. Muitas pessoas não têm a menor ideia do que isso significa. A profecia de Isaías ajuda a ilustrar essa cena em nossa mente:
[...] Um homem de dores e experimentado no sofrimento [...] ele tomou sobre si as nossas enfermidades e sobre si levou as nossas doenças [...] ele foi traspassado por causa das nossas transgressões, foi esmagado por causa de nossas iniquidades [...] o SENHOR fez cair sobre ele a iniquidade de todos nós. Ele foi oprimido e afligido [...] como um cordeiro, foi levado para o matadouro [...] Com julgamento opressivo ele foi levado [...] ele foi eliminado da terra dos viventes; por causa da transgressão do meu povo ele foi golpeado [...] foi da vontade do SENHOR esmagá-lo e fazê-lo sofrer [...] ele derramou sua vida até a morte [...]. (Is 53.3-8,10,12)
Em Seu corpo, Jesus Cristo, o Senhor, fez morrer os nossos pecados (1Pe 2.24). Portanto, o nosso débito com a Lei divina foi consumado quando o Filho de Deus expirou pela última vez na cruz (Jo 19.30). É válido destacar que, naquela época, quando um decreto era cancelado, a solenidade usada para publicar isso era a sua fixação em uma tábua com um cravo. Não é curioso que o corpo que carregou nossos pecados para o morte tenha sido cravado em uma cruz? É por essa razão que Paulo usa a figura da cravação da escrita de dívida para materializar a sua remoção por Deus.
Essa verdade é fundamental para compreender tantas declarações dos apóstolos, especialmente de Paulo, a respeito da anulação da Lei, por mais paradoxal que isso possa parecer. Não significa que o que era errado agora pode ser considerado certo e que, por estarmos debaixo da graça, podemos viver uma vida de pecados. Simplesmente significa que não é a observância da Lei que nos salva, mas apenas a nossa fé no sacrifício vicário de Cristo. O resultado dessa justificação, contudo, é a santificação. Lembremo-nos da fala anterior de Paulo de que a circuncisão de Cristo é o despojar do corpo da carne para nossa vivificação por meio do Espírito. Isso é o novo nascimento e, segundo João, alguém que nasceu de Deus "não pratica o pecado, porque a semente de Deus permanece nele; ele não pode estar no pecado, porque é nascido de Deus" (1Jo 3.9).
Com o cancelamento da escrita de dívida, Cristo triunfou sobre todos os poderes e autoridades. Como prova disso, no momento em que aparentemente as trevas O estavam vencendo, crucificando-o, o véu do santuário se rasga e ao terceiro dia Ele ressuscita, ascendendo ao céu após 40 dias com grande poder e glória. Jesus Cristo é Senhor absoluto sobre todas as coisas! Ele é o Rei dos reis! Ele vindicou toda autoridade que Lhe foi dada nos céus e na terra, conforme Sua declaração aos discípulos após ter ressuscitado (Mt 28.18). Foi, portanto, uma vitória completa e total! Por isso Paulo usa a metáfora do triunfo, uma cerimônia civil de homenagem máxima a um comandante militar e sua tropa vitoriosa. Consistia em um cortejo em que os guerreiros vitoriosos eram honrados e adiante deles ia o exército derrotado em exibição pública de vergonha. A vitória final e definitiva é do nosso Senhor Jesus Cristo!
Trazendo à memória a finalidade da carta, entende-se que o apóstolo estava doutrinando os colossenses no sentido de que, uma vez sendo Cristo a expressão exata de Deus, supremo Senhor, Cabeça de todo poder e autoridade, os cristãos não precisam aderir a falsos ensinos por receio de estarem vulneráveis diante dos poderes e autoridades desse mundo, posto que todos eles já foram despojados por Jesus, que nos dá a plenitude. Não há o que temer. Não há razão para se submeter a falsos mestres. Não há motivo para se amedrontar com o "poder" dos falsos deuses, dos espíritos, dos demônios, dos homens dominadores, dos feiticeiros ou de quem quer que seja. Cristo é suficiente e apenas por estarmos nEle já recebemos a plenitude. Isso ecoa bastante o que ele disse aos efésios:
Esse poder ele exerceu em Cristo, ressuscitando-o dos mortos e fazendo-o assentar-se à sua direita, nas regiões celestiais, muito acima de todo governo e autoridade, poder e domínio, e de todo nome que se possa mencionar, não apenas nesta era, mas também na que há de vir. Deus colocou todas as coisas debaixo de seus pés e o designou cabeça de todas as coisas para a igreja, que é o seu corpo, a plenitude daquele que enche todas as coisas, em toda e qualquer circunstância. (Ef 1.20-23)
Resta mais do que evidenciado que a Universal arma um circo em cima desse versículo ao descontextualizá-lo a fim de atrair os endividados para suas campanhas contra as dívidas. E reflita: qual é a solução que os pastores oferecem após o clamor? Fidelidade nos dízimos e uma oferta de desafio, que mostre a confiança da pessoa em Deus. Só sai de lá mais endividado ainda... É questão de lógica: a pessoa usufruiu do produto ou serviço que teve custo para quem está na outra ponta da relação de consumo? Não é justo que ela pague? Se ela consumiu além das suas condições financeiras, não é justo que ela se aperte para arcar com a sua dívida e aprender a se tornar mais responsável no seu consumo? É Deus que deve se responsabilizar pela dívida da pessoa e fazer mágica para a dívida sumir? Da parte de Deus o que um endividado deve pedir é misericórdia, saúde para trabalhar e sabedoria para fazer as escolhas certas na sua vida financeira e enxergar possibilidades de mudança dessa situação. Contudo, é do próprio devedor a responsabilidade de se esforçar em trabalhar, gerar renda extra e fazer investimentos financeiros para conseguir honrar seus compromissos com os credores. E mais: ser menos impulsivo e mais prudente quanto aos seus gastos e despesas.
Nota: transcrições bíblicas extraídas da Bíblia Sagrada, Nova Versão Internacional ®, NVI ® Copyright © 1993, 2000, 2011 by Biblica, Inc., exceto aquelas cujas descrições indiquem versão diversa.
REFERÊNCIAS OFICIAIS DA UNIVERSAL:
1. ENDIVIDADOS, publicado em 19/02/2022.
2. Clamor Nacional pelos Endividados, publicado em 29/04/2024.
3. 7 de julho: “Domingo do Está Escrito”, publicado em 02/07/2024.
4. Exemplo de convite para clamor contra as dívidas, sem data de publicação informada.






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