Dai, e ser-vos-á dado: a aplicação financeira com o maior rendimento do mercado
- universalheresias
- 29 de out. de 2024
- 9 min de leitura
A Igreja Universal do Reino de Deus atua em uma lógica de mercado. Na sociedade de consumo em que vivemos há uma demanda por riquezas, bens, status e conforto. A IURD utiliza o método da Teologia da Prosperidade para angariar clientes no segmento evangélico, bem como entre os que possuem alguma simpatia pelo cristianismo. Com isso, ela consegue arrecadar muitas contribuições financeiras que servem para expandir sua influência e atender aos desejos e caprichos da sua liderança. O tema do presente artigo é um dos que nos escancara essa verdade de forma bastante explícita.
Deixemos a Universal falar por si mesma. Renato Cardoso, genro e futuro sucessor de Edir Macedo, diz:
Em Lucas 6:38 disse: “Dai e ser-vos-á dado.” [...] [...] A Rua do Dar é onde nossos pedidos viajam secretamente, envoltos em presentes ou dádivas. É como uma limusine com vidros escurecidos; você não pode ver quem está dentro, mas você sabe que é alguém importante. Nossos presentes e dádivas carregam em si nossos pedidos não pronunciados, e anunciam a importância deles. Por isso, dar é uma forma poderosa de pedir. [...] Jesus estava nos ensinando que, se quisermos receber, nós não devemos ter nem medo de dar. [...] E precisamos superar nossa mesquinhez no dar. Se formos corajosos o suficiente para [...] dar com generosidade, o único problema que teremos será encontrar espaço para colocar tudo o que vamos receber… Fonte: Duas formas de receber
No blog dos obreiros, encontramos a seguinte matéria:
O texto sagrado diz que para receber é preciso dar: “Dai, e ser-vos-á dado; boa medida, recalcada, sacudida e transbordando” (Lucas 6:38). Resumidamente, o toma lá, dá cá. E o dar a Deus tem conotação espiritual e material. Devolver os dízimos e as ofertas são formas de dar. Mediante essa fidelidade, Deus também dá Sua contrapartida conferindo-nos a promessa de bênçãos sem medidas, pela obediência. [cita Ml 3.10] Fonte: Relação de Consumo x Relação com Deus
E, claro, não poderia faltar referências do próprio Edir Macedo, autoridade máxima da instituição:
Não há como negar o poder de ofertar. Vitórias e derrotas dependem da fé de cada um, isto é, da entrega de cada um. As disputas esportivas, por exemplo, são ganhas no esforço, desempenho e dedicação dos seus participantes. Qualquer um que entrar numa disputa, se não acreditar em si 100%, vai perder. [...] A oferta representa a vida do ofertante no Altar. Ela sempre foi, é e sempre será a materialização da fé, da crença ou da dependência de Deus. É impossível manifestar essa fé sem se ofertar. A oferta também testemunha se a fé do ofertante é sincera ou não. Como saber se o ofertante é sincero ou não? Deus sabe, porém, Sua justiça exige testemunha para o Dia do Juízo Final. [...] Creio ter sido essa a razão pela qual o Senhor Jesus ensinou: "Dai, e ser-vos-á dado; boa medida, recalcada, sacudida e transbordando, vos deitarão no vosso regaço; porque com a mesma medida com que medirdes também vos medirão de novo." Lucas 6.38 Fonte: Testemunha diante do Trono de Justiça
"Dai, e ser-vos-á dado; boa medida, recalcada, sacudida e transbordando, vos deitarão no vosso regaço; porque com a mesma medida com que medirdes também vos medirão de novo." Lucas 6.38 Dar para receber, essa é a lei fixa da vida. [...] Quanto mais você der, mais você vai receber. Quanto menos você der, menos você vai receber. Esse tem sido o segredo da Universal, o nosso segredo. [...] Por isso, a sua vida só depende de você! Você tem a liberdade de dar ou não, plantar ou não; a escolha é sua, não é de Deus, não é do mundo, é exclusivamente sua. Fonte: O nosso segredo
Como de praxe, devemos analisar o contexto em que essa mensagem se nos apresenta nas Escrituras Sagradas.
Em Lc 6.20, inicia-se um texto paralelo ao famoso Sermão do Monte de Mt 5-7, que vai até o versículo 49, no fim do capítulo. Lc 6.20-26 corresponde a Mt 5.2-12. Lc 6.27-36 corresponde a Mt 5.38-48. Lc 6.37-42, texto em exame aqui, corresponde a Mt 7.1-5. Lc 6.43-49 corresponde a Mt 7.15-27.
Transcreva-se o contexto em que Cristo afirma a máxima utilizada pela Universal, em paralelo ao texto do Evangelho de Mateus:
LUCAS 6.37-42 | MATEUS 7.1-5 |
"Não julguem e vocês não serão julgados. Não condenem e não serão condenados. Perdoem e serão perdoados. Deem e será dado a vocês: uma boa medida, calcada, sacudida e transbordante será dada a vocês. Pois a medida que usarem também será usada para medir vocês". Jesus também fez a seguinte comparação: "Pode um cego guiar outro cego? Não cairão os dois no buraco? O discípulo não está acima do seu mestre, mas todo aquele que for bem preparado será como o seu mestre. Por que você repara no cisco que está no olho do seu irmão e não se dá conta da viga que está em seu próprio olho? Como você pode dizer ao seu irmão: 'Irmão, deixe-me tirar o cisco do seu olho', se você mesmo não consegue ver a viga que está em seu próprio olho? Hipócrita, tire primeiro a viga do seu olho e então você verá claramente para tirar o cisco do olho do seu irmão". | "Não julguem, para que vocês não sejam julgados. Pois da mesma forma que julgarem, vocês serão julgados; e a medida que usarem, também será usada para medir vocês. Porque você repara no cisco que está no olho do seu irmão e não se dá conta da viga que está em seu próprio olho? Como você pode dizer ao seu irmão: 'Deixe-me tirar o cisco do seu olho', quando há uma viga no seu? Hipócrita, tire primeiro a viga do seu olho, e então você verá claramente para tirar o cisco do olho do seu irmão". |
O contexto em que essa fala de Cristo está inserida é a proibição do julgamento temerário, ou seja, o ato de julgar o irmão de maneira imprudente, quando você mesmo não tem uma justa causa para tal, uma vez que comete um erro tão maior que o do seu próximo e não é capaz de enxergar a sua própria miséria. Esse é um maravilhoso exemplo para ilustrar a importância do contexto de uma passagem bíblica. Mateus e Lucas narram esse ensino de Cristo com algumas expressões diferentes, mas o contexto dá o significado equivalente em ambos, ou seja, há uma harmonia, uma coerência, uma concordância entre eles.
Embora Mateus seja mais sucinto ao tratar do princípio da reciprocidade do julgamento precipitado, Lucas é mais detalhista. Na primeira sentença, eles falam a mesma coisa: não devemos julgar temerariamente a fim de que nós não sejam também julgados da mesma maneira. Contudo, Lucas explora melhor essa dinâmica.
No universo do julgamento, temos a figura da condenação e do perdão. Se insistirmos em prosseguir com o julgamento precipitado de alguém, levaremos esse alguém à condenação por seu erro. Essa pessoa será criticada, mal vista, discriminada, em razão de a termos condenado. Contudo, abrimos com isso um precedente para que façam o mesmo conosco, uma vez que, comparado à viga que há em nosso olho, o cisco no olho da pessoa condenada é praticamente insignificante. Todavia, há também a figura do perdão, quando, ao invés de condenar o nosso irmão, tratamo-lo com amor e misericórdia, buscando o seu bem, e não o seu mal, e reconhecendo que também temos nossas fraquezas e dependemos da continuamente da misericórdia de Deus.
Portanto, à luz do contexto da proibição do juízo temerário, pode-se perfeitamente compreender que o que Cristo está nos ensinando não é a dar dinheiro para uma instituição religiosa e bancar o luxo de um mercenário da fé. O Senhor está nos ensinando a exercer misericórdia, liberar perdão, se compadecer do nosso irmão em suas fraquezas, amá-lo e ajudá-lo ao invés de execrá-lo por isso. Se procedermos assim, também alcançaremos a mesma misericórdia no dia da nossa fraqueza. De semelhante modo, se insistirmos em julgar temerariamente nosso irmão, seremos julgados com a mesma medida.
Essa verdade está revelada também em outras porções da Bíblia:
Bem-aventurados os misericordiosos, pois obterão misericórdia. (Mt 5.7)
Meus irmãos, como crentes em nosso glorioso Senhor Jesus Cristo, não façam diferença entre as pessoas, tratando-as com parcialidade. Suponham que, na reunião de vocês, entre um homem com anel de ouro e roupas finas e também entre um pobre com roupas velhas e sujas. Se vocês derem atenção especial ao homem que está vestido com roupas finas e disserem: "Aqui está um lugar para o senhor", mas disserem ao pobre: "Você, fique em pé ali", ou: "Sente-se no chão, junto ao estrado onde ponho os meus pés", não estarão fazendo discriminação, fazendo julgamentos com critérios errados? [...] Se vocês de fato obedecerem à lei do Reino encontrada na Escritura que diz: "Ame o seu próximo como a si mesmo", estarão agindo corretamente. Mas, se tratarem os outros com parcialidade, estarão cometendo pecado e serão condenados pela Lei como transgressores. Pois quem obedece toda a Lei, mas tropeça em apenas um ponto, torna-se culpado de quebrá-la inteiramente. [...] Falem e ajam como quem vai ser julgado pela lei da liberdade; porque será exercido juízo sem misericórdia sobre quem não foi misericordioso. A misericórdia triunfa sobre o juízo! [...] Irmãos, não falem mal uns dos outros. Quem fala contra o seu irmão ou julga o seu irmão fala contra a Lei e a julga. Quando você julga a Lei, não a está cumprindo, mas está agindo como juiz. Há apenas um Legislador e Juiz, aquele que pode salvar e destruir. Mas quem é você para julgar o seu próximo? (Tg 2.1-4,8-10,12-13; 4.11-12)
Vale a observação de que a proibição não é de todo e qualquer julgamento, mas apenas o hipócrita, que não visa à edificação do irmão. Cristo, por exemplo, ensinou que devemos fazer julgamentos de maneira justa (Jo 7.24). Ele também ordenou que repreendêssemos nosso irmão em particular quando pecasse (Mt 18.15) e, caso ele não se arrependesse, a escala de envolvimento de mais irmãos nesse julgamento deveria aumentar gradativamente até, em último caso, a sua excomunhão da Igreja (Mt 18.16-17), deixando bem claro que Ele próprio estaria no meio dela durante essa decisão (Mt 18.18-20). Em 1Co 5, vemos uma aplicação prática dessa disciplina eclesiástica sobre um irmão imoral que tinha relações sexuais com a sua madrasta, quando Paulo censura duramente os crentes de Corinto, dizendo: "Não devem vocês julgar os que estão dentro [da Igreja]? [...] 'Expulsem esse perverso do meio de vocês.'" (1Co 5.12-13). Para combater as heresias dos falsos mestres em Éfeso, o apóstolo exortou a Timóteo a repreender, corrigir e exortar com toda a paciência e doutrina (2Tm 4.2). Para Tito, em Creta, ele afirmou ser necessário silenciar os insubordinados que estavam pervertendo a sã doutrina por ganância e repreender severamente os cretenses para que fossem sadios na fé e não seguissem esses falsos ensinos (Tt 1.11-12). João também alertou a Igreja, dizendo: "não creiam em qualquer espírito, mas examinem os espíritos para ver se eles procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo" (1Jo 4.1). Ainda, há um provérbio que afirma que "Quem repreende o próximo obterá por fim mais favor do que aquele que só sabe bajular" (Pv 28.23).
Por fim, diante do real significado dessa fala de Cristo, finalizo com a seguinte reflexão para aqueles que dão grandes quantidades de dinheiro para um falso profeta com a intenção gananciosa de obter bênçãos materiais do Senhor, achando que vão agradá-lo com gordas ofertas e sacrifícios, a fim de que se arrependam de seguirem as heresias da Igreja Universal do Reino de Deus e se voltem ao que as Escrituras realmente ensinam:
Israelitas, ouçam a palavra do SENHOR, porque o SENHOR tem uma acusação contra vocês que vivem nesta terra: "A fidelidade e o amor desapareceram desta terra, como também o conhecimento de Deus. [...] Vocês tropeçam dia e noite, e os profetas tropeçam com vocês. [...] Meu povo foi destruído por falta de conhecimento. [...] Quanto mais aumentaram os sacerdotes, mais eles pecaram contra mim; trocaram a Glória deles por algo vergonhoso. Eles se alimentam dos pecados do meu povo e têm prazer em sua iniquidade. Portanto, castigarei tanto o povo quanto os sacerdotes por causa dos seus caminhos, e lhes retribuirei seus atos. Eles comerão, mas não terão o suficiente; eles se prostituirão, mas não aumentarão a prole, porque abandonaram o SENHOR para se entregarem à prostituição, ao vinho velho e ao novo, prejudicando o discernimento do meu povo. [...] Mesmo quando acaba bebida, eles continuam em sua prostituição; seus governantes amam profundamente os caminhos vergonhosos. [...] A arrogância de Israel testifica contra eles; Israel e Efraim tropeçam em seu pecado; Judá também tropeça com eles. Quando eles forem buscar o SENHOR com todos os seus rebanhos e com todo o seu gado, não o encontrarão, ele se afastou deles. [...] Os líderes de Judá são como os que mudam os marcos dos limites. Derramarei sobre eles a minha ira como uma inundação. [...] Que posso fazer com você, Efraim? Que posso fazer com você, Judá? Seu amor é como a neblina da manhã, como o primeiro orvalho que logo evapora. Por isso eu os despedacei por meio dos meus profetas, eu os matei com as palavras da minha boca; os meus juízos reluziram como relâmpagos sobre vocês. Pois desejo misericórdia e não sacrifícios; conhecimento de Deus em vez de holocaustos. (Os 4.1,5-11,18; 5.5-6,10; 6.4-6)
Nota: transcrições bíblicas extraídas da Bíblia Sagrada, Nova Versão Internacional ®, NVI ® Copyright © 1993, 2000, 2011 by Biblica, Inc., exceto aquelas cujas descrições indiquem versão diversa.
REFERÊNCIAS OFICIAIS DA UNIVERSAL:
1. Duas formas de receber, publicado em 06/10/2010.
2. Relação de Consumo x Relação com Deus, publicado em 06/05/2016.
3. Você sabe qual é o segredo para uma vida de sucesso?, publicado em 28/08/2017.
4. Testemunha diante do Trono de Justiça, publicado em 04/10/2018.
5. O nosso segredo, publicado em 19/08/2019.




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