Tudo é puro para os puros?
- universalheresias
- 27 de ago. de 2024
- 19 min de leitura
Atualizado: 23 de dez. de 2024
Malícia. Um dos termos mais recorrentes nas reuniões da Igreja Universal do Reino de Deus. Um dos pecados mais denunciados pelos líderes da instituição. Na visão deles, uma pessoa maliciosa é aquela que tende a desconfiar de tudo, ver maldade em tudo, questionar tudo, só notar os erros, e não os acertos.
Uma das bases bíblicas em que a IURD se apoia para minar qualquer desconfiança de seus membros acerca das falcatruas dos seus líderes é um trecho da carta de Paulo a Tito:
Para os puros, todas as coisas são puras; mas, para os impuros e descrentes, nada é puro. De fato, tanto a mente como a consciência deles estão corrompidas. Eles afirmam que conhecem a Deus, mas por seus atos o negam; são detestáveis, desobedientes e desqualificados para qualquer boa obra. (Tt 1.15-16)
Se o leitor está com medo de continuar a sua leitura deste e dos demais artigos por isso, tenha calma. Você vai entender que, mais uma vez, a Universal tirou o versículo de contexto para dar a entender uma coisa que não corresponde ao significado original. Dessa forma, os fiéis da instituição se sentirão culpados toda vez que desconfiarem de alguma coisa ou perceberem algo de errado no sistema religioso de Edir Macedo, achando que estão em pecado por isso e que o problema está na malícia deles, e não na santa e imaculada IURD.
Vejamos a aplicação desse texto feita pelo faraó da Universal, sr. Edir Macedo, no seu livro “O Pão Nosso para 365 dias”:
Para os puros, tudo é puro. O puro não julga com malícia, não olha com maus olhos, não critica com base na aparência. Deus espera que sejamos puros, como Ele é puro. No entanto, muitos que se dizem cristãos agem de maneira contrária. Suas obras mostram que eles não conhecem a Deus. Estão dentro das igrejas, mas já se corromperam. A mente corrompida vê sujeira em tudo, porque olha tudo através de seus olhos sujos, de sua mente suja. Cuidado para não se contaminar com essas pessoas. Fonte: Vença o mal com o bem
Vejamos a aplicação desse texto feita pelo bispo Guaracy Santos, que também atua como ogã para os orixás de vez em quando (veja o vídeo aqui), como defesa ao criticar quem não dava o dízimo na instituição:
Ele teve desgosto quando viu pessoas que tinham o pleno conhecimento da verdade e, no poder de praticá-la, preferiram fazer a própria vontade, desprezando, com isso, o cumprimento de todas as promessas de Deus, sendo infiéis a Ele. Naturalmente, os impuros deste mundo, e em especial os que estão em nosso meio, devem estar raciocinando assim: ‘Quer dizer que eles sentem desgosto quando, pela infidelidade das pessoas, faltam recursos para a igreja e eles não conseguem pagar seus compromissos?’ [...] O que entristecia Davi, e nos entristece hoje, é que homens de Deus têm o poder de enxergar a consequência das coisas. Ou seja, nós sabemos exatamente onde você irá chegar – sendo fiel ou infiel a Deus. Assim sendo, para o bem da sua alma e pela garantia de uma vida honrada aqui, seja fiel a Deus em tudo, inclusive nos dízimos. Fonte: O desgosto de Davi
Vejamos a aplicação desse texto feita pela filha do dono, Cristiane Cardoso, em uma das tarefas do seu programa de adestramento feminino:
Aqui você entende o porquê de muita coisa. O porquê de uma pessoa não conseguir entender certas coisas, o porquê de uma pessoa olhar as coisas de uma certa maneira, o porquê do preconceito, o porquê do racismo, o porquê da inimizade, o porquê das pessoas interpretarem tudo que você diz e faz de forma errada, enfim… veja como tantas respostas se resumem no versículo acima. A Tarefa como Oferta 18 é para você pensar em si mesma e achar em que a sua mente e consciência tem se contaminado. Talvez um pensamento contra alguém, uma ideia errada do que era para ser santo, uma vontade contra a de Deus, uma rebeldia contra a Palavra de Deus, uma imagem errada das pessoas… Veja que eu não estou dizendo para você ver QUEM tem lhe levado a se contaminar e sim O QUÊ. Você vai olhar para si mesma e deixar as outras pessoas para fazerem isso por si mesmas. Você só pode mudar a si mesmo e enquanto tiver algo corrompido dentro de si, não conseguirá tirar proveito dessa tarefa que lhe faz tão bem. Fonte: Autoajuda 2018: Tarefa como Oferta 18
Vejamos agora uma matéria redigida pela colaboradora do portal Universal.org, Nubia Onara, sobre o assunto:
Porém, muitos estão sendo contaminado pela malícia. Ela tem sujado os olhos, os pensamentos e a alma dos que se deixam enveredar por ela. Geralmente, surge depois que uma pessoa dá ouvidos àqueles que trabalham a serviço do mal, para contaminarem a fé. E por darem ouvidos ao que é ruim, o que antes era algo santo, passou a ser algo impuro, afinal: [cita Tt 1.15]. Fonte: Malícia: um verme espiritual
Vejamos agora o texto de um obreiro da instituição sobre sacrifício na Fogueira "Santa" de Israel publicado no blog do bispo Macedo:
A igreja do Senhor Jesus, infelizmente, está rachada ao meio. De um lado, um povo fraco e, do outro, um povo forte; de um lado, um povo vencedor e, do outro, um povo vencido. E isso porque de um lado temos um povo puro, mas covarde ao sacrifício e, do outro, um povo impuro, cheio de disposição para sacrificar. Quem dera tivéssemos um povo puro e cheio de disposição para sacrificar. Os testemunhos seriam inevitáveis. Fonte: O Sentido do Sacrifício
Espero que esteja claro para o leitor qual é a visão da empresa de Edir Macedo e cia. acerca desse texto bíblico. Agora, faremos aquele mesmo trabalho: interpretar o texto dentro do seu contexto, em concordância com toda a Escritura.
Paulo realizou uma viagem à ilha de Creta, durante a qual provavelmente fundou algumas igrejas na região. No entanto, por serem igrejas muito jovens, ainda havia coisas a serem organizadas por lá, responsabilidade que ele deixou nas mãos de Tito.
A razão de tê-lo deixado em Creta foi para que você pusesse em ordem o que ainda faltava e constituísse presbíteros em cada cidade, como eu o instruí. É preciso que o presbítero seja irrepreensível, marido de uma só mulher e tenha filhos crentes que não sejam acusados de libertinagem ou de insubmissão. Por ser encarregado da obra de Deus, é necessário que o bispo seja irrepreensível: não orgulhoso, não briguento, não apegado ao vinho, não violento, nem ávido por lucro desonesto. Ao contrário, é preciso que ele seja hospitaleiro, amigo do bem, sensato, justo, consagrado, tenha domínio próprio e apegue-se firmemente à mensagem fiel, da maneira pela qual foi ensinada, para que seja capaz de encorajar outros pela sã doutrina e de refutar os que se opõem a ela. (Tt 1.5-9)
Sobre as qualificações de um presbítero segundo a Bíblia, teremos muito que falar nos artigos da categoria Falsos Profetas. Mas se você refletir um pouco desde os líderes da Universal até os pastores que já passaram pela sua igreja, garanto que você não encontrará absolutamente nenhum com todas essas qualificações. Na melhor das hipóteses, vai esbarrar na doutrina, pois, se é pastor da Universal, tem que se submeter à direções heréticas da instituição, que contrariam frontalmente a sã doutrina dos apóstolos de Cristo.
Por ora, importa-nos que o contexto que se nos apresenta é referente à necessidade de Tito colocar em ordem coisas importantes para o funcionamento saudável das igrejas em Creta e que, para isso, ele precisava constituir presbíteros. Contudo, não servia qualquer homem. Havia uma série de requisitos que os "candidatos" ao cargo deveriam preencher. Mas qual a razão da preocupação e do rigor de Paulo com esses presbíteros? O texto explica a seguir.
Pois há muitos insubordinados, que não passam de faladores e enganadores, especialmente os do grupo da circuncisão. É necessário que eles sejam silenciados, pois estão arruinando famílias inteiras, ensinando coisas que não devem, e tudo por ganância. Um dos seus próprios profetas chegou a dizer: "Cretenses, sempre mentirosos, feras malignas, glutões preguiçosos". Tal testemunho é verdadeiro. Portanto, repreenda-os severamente, para que sejam sadios na fé e não deem atenção a lendas judaicas nem a mandamentos de homens que rejeitam a verdade. Para os puros, todas as coisas são puras; mas, para os impuros e descrentes, nada é puro. De fato, tanto a mente como a consciência deles estão corrompidas. Eles afirmam que conhecem a Deus, mas por seus atos o negam; são detestáveis, desobedientes e desqualificados para qualquer boa obra. Você, porém, fale o que está de acordo com a sã doutrina. (Tt 1.10-16; 2.1)
O motivo da preocupação de Paulo com a organização das igrejas de Creta e os critérios pelos quais Tito deveria constituir presbíteros é a ameaça dos falsos mestres infiltrados no meio dos cristãos daquela ilha, uma situação nada atípica para a Igreja Primitiva, assim como ao longo de todos os séculos seguintes. Nesse caso de Creta, ao que tudo indica, esses falsos mestres eram originalmente judeus que aparentemente haviam se convertido a Cristo. No entanto, não se desprendiam das tradições da Lei, que eram apenas figura do que veio a ser cumprido plenamente em Jesus, e queriam obrigar os demais cristãos a cumprirem esses mandamentos. Tudo isso por uma única razão: ganância. E essa cultura geral de ganância entre os cidadãos de Creta era tão intensa que até os escritores famosos daquela época a mencionavam em suas obras, assim como a frase que Paulo citou, atribuída a Epimênides de Creta por alguns estudiosos. Quem não havia sido verdadeiramente regenerado por Deus, por óbvio manteria essa mesma natureza gananciosa, apesar de estar infiltrado na Igreja visível.
Paulo é contundente: os falsos profetas deveriam ser calados. Não deve haver espaço na verdadeira Igreja de Cristo para esses enganadores que só queriam levar vantagem em cima daqueles que estavam se dedicando a viver mediante a fé em Jesus. Por essa razão, Tito deveria repreender os irmãos de Creta, a fim de que eles ignorassem completamente as fábulas judaicas, que consistiam em histórias míticas forjadas sobre fatos do Antigo Testamento, bastante presentes, por exemplo, nos livros apócrifos, comumente ligados aos gnósticos da época, e também ignorassem os mandamentos de quem rejeita a verdade, que, nesse contexto, está significando a sã doutrina dos apóstolos, qual seja, a doutrina da justificação pela fé em Jesus Cristo.
O evangelho da cruz de Cristo, a autêntica boa notícia, ensina-nos que é por meio da fé em Jesus que somos justificados diante de Deus (Rm 3.22-26) e purificados de todo pecado (1Jo 1.9). No entanto, os falsos profetas judaizantes afirmavam que ninguém poderia ser puro se não observasse as leis cerimoniais mosaicas, que incluíam muitas restrições de alimentos "impuros". Para um judeu que já estivesse acostumado com essa dieta, até que poderia não ser muito problemático. Contudo, para os cristãos gentios, isto é, não judeus, que constituíam provavelmente a maior parte da Igreja de Creta, isso era algo muito difícil de se observar. Paulo orienta Tito a repreendê-los para que ignorem categoricamente esses mandamentos dos homens que rejeitavam a verdade de que era apenas a fé em Cristo que nos justifica e purifica, não tendo os alimentos que comemos qualquer influência nisso.
Por essa razão, Paulo conclui dizendo que "Para os puros, todas as coisas são puras; mas, para os impuros e descrentes, nada é puro" (Tt 1.15). Cristo já havia tratado sobre algo semelhante com os fariseus, líderes religiosos extremamente legalistas:
Tendo terminado de falar, um fariseu o convidou para comer com ele. Então Jesus foi e reclinou-se à mesa; mas o fariseu, notando que Jesus não se lavara cerimonialmente antes da refeição, ficou surpreso. Então o Senhor lhe disse: "Vocês, fariseus, limpam o exterior do copo e do prato, mas interiormente estão cheios de ganância e de maldade. Insensatos! Quem fez o exterior não fez também o interior? Mas deem o que está dentro do prato como esmola e verão que tudo ficará limpo em vocês. (Lc 11.37-41)
O Filho de Deus deixou de observar o rito cerimonial de purificação antes da refeição, causando espanto no fariseu, que era um grande defensor da observação minuciosa da Lei, inclusive adicionando detalhes ao modo como os mandamentos deveriam ser obedecidos que nem mesmo Moisés instruiu. A resposta de Cristo, por sua vez, evidencia que o que purifica o homem não é a observação desses rituais, pois os fariseus, embora os praticassem rigorosamente à vista dos outros, eram cheios de ganância e maldade em seus corações. É isso o que contamina o homem: o que está em seu interior. Um ritual ou um alimento não fazem a menor diferença para Deus. O que realmente faz com que uma pessoa seja pura ou não aos olhos do Eterno é o que está em seu coração. Foi o que Jesus também ensinou aos seus discípulos quando questionado pelos legalistas em outra oportunidade a respeito do mesmo assunto:
Os fariseus e alguns dos mestres da lei, vindos de Jerusalém, reuniram-se a Jesus e viram alguns dos seus discípulos comerem com as mãos impuras, isto é, por lavar. (Os fariseus e todos os judeus não comem sem lavar as mãos cerimonialmente, apegando-se, assim, à tradição dos líderes religiosos. Quando chegam da rua, não comem sem antes se lavarem. E observam muitas outras tradições, tais como o lavar de copos, jarros e vasilhas de metal.) Então os fariseus e os metres da lei perguntaram a Jesus: "Por que os seus discípulos não vivem de acordo com a tradição dos líderes religiosos, em vez de comerem o alimento com as mãos impuras?" Ele respondeu: "Bem profetizou Isaías acerca de vocês, hipócritas; como está escrito: 'Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. Em vão me adoram; seus ensinamentos não passam de regras ensinadas por homens'. Vocês negligenciam os mandamentos de Deus e se apegam às tradições dos homens". [...] Jesus chamou novamente a multidão para junto de si e disse: "Ouçam-me todos e entendam isto: Não há nada fora do homem que, nele entrando, possa torná-lo impuro. Ao contrário, o que sai do homem é que o torna impuro. Se alguém tem ouvidos para ouvir, ouça!" Depois de deixar a multidão e entrar em casa, os discípulos lhe pediram explicação da parábola. "Será que vocês também não conseguem entender?", perguntou-lhes Jesus. "Não percebem que nada que entre no homem pode torná-lo impuro? Porque não entra em seu coração, mas em seu estômago, sendo depois eliminado". Ao dizer isso, Jesus declarou puros todos os alimentos. E continuou: "O que sai do homem é que o torna impuro. Pois do interior do coração dos homens vêm os maus pensamentos, as imoralidades sexuais, os roubos, os homicídios, os adultérios, as cobiças, as maldades, o engano, a devassidão, a inveja, a calúnia, a arrogância e a insensatez. Todos esses males vêm de dentro e tornam o homem impuro". (Mc 7.1-8,14-23)
A doutrina apostólica, que inclui os ensinos de Paulo, é a explicação e aplicação para a Igreja de tudo o que Cristo ensinou aos seus discípulos durante o Seu ministério terreno. À luz desse trecho do evangelho de Marcos, pode-se perfeitamente compreender o que Paulo estava orientando que Tito ensinasse aos crentes cretenses. Aqueles falsos mestres judaizante infiltrados na Igreja de Creta rejeitaram a verdade. Eles até afirmavam conhecer a Deus, estavam disfarçados de ovelhas, mas na verdade eram lobos gananciosos. Pelo próprio fato de se apegarem às tradições humanas relacionadas à pureza alimentar, negavam a suficiência de Jesus Cristo para justificação e purificação do homem diante de Deus.
Segundo a lição de Cristo com que Paulo desejava que Tito doutrinasse os cristãos da ilha de Creta, todos os alimentos são puros para quem já foi purificado pelo sangue do Senhor Jesus, pois o alimento entra somente no estômago, e logo é expelido, mas não no coração (Mc 7.18-19). Por outro lado, quanto aos impuros e descrentes, ou seja, aqueles que ainda não haviam sido lavados no sangue purificador de Cristo por não crerem na Sua suficiência para purificá-los, de nada adiantaria a observação de uma alimentação pura segundo as tradições humanas que seguiam, pois os seus corações permaneciam corrompidos pelo pecado.
É válido, nesse ponto, citar a visão de Pedro em Jope:
No dia seguinte, por volta do meio-dia, enquanto eles viajavam e se aproximavam da cidade, Pedro subiu ao terraço para orar. Tendo fome, queria comer; enquanto a refeição estava sendo preparada, caiu em êxtase. Viu o céu aberto e algo semelhante a um grande lençol que descia à terra, preso pelas quatro pontas, contendo toda espécie de quadrúpedes, bem como de répteis da terra e aves do céu. Então uma voz lhe disse: "Levante-se, Pedro; mate e coma". Mas Pedro respondeu: "De modo nenhum, Senhor" Jamais comi algo impuro ou imundo!" A voz lhe falou segunda vez: "Não chame impuro ao que Deus purificou". Isso aconteceu três vezes, e em seguida o lençol foi recolhido ao céu. (At 10.9-15)
Pedro teve essa visão da parte de Deus instantes antes de ter sido convidado a pregar na casa de Cornélio, um gentio, centurião romano, temente a Deus (At 10.1-2). Ao ver a piedade daquele homem, o Senhor enviou-lhe um anjo para instruí-lo a chamar Pedro a ir à sua casa para poder ouvir o que o apóstolo tinha a dizer (At 10.5-6). Lá chegando, Pedro, relutante por três vezes durante a visão, ainda precisou ser convencido pelo Espírito Santo para se reunir com Cornélio (At 10.19). Conforme já exposto, havia muitas tradições cerimoniais judaicas distinguindo o puro do impuro com base em preceitos humanos e alimentares, especialmente em se tratando de comunhão entre judeus e gentios. Apesar de tudo o que viu o Senhor Jesus fazer contra esses muros entre as pessoas, Pedro, como um bom judeu e novo convertido, ainda tinha muitas reservas quanto a essas rupturas com a tradição. Ao chegar na casa de Cornélio, Pedro foi muito sincero e enfático sobre isso, ao dizer: "Vocês sabem muito bem que é contra a nossa lei um judeu associar-se a um gentio ou mesmo visitá-lo. Mas Deus me mostrou que eu não deveria chamar impuro ou imundo a homem nenhum" (At 10.28). Em seguida, enquanto Pedro estava anunciando o evangelho à casa de Cornélio, "o Espírito Santo desceu sobre todos os que ouviam a mensagem" (At 10.44), o que levou os judeus convertidos a ficarem "admirados de que o dom do Espírito Santo fosse derramado até sobre os gentios" (At 10.45). Este foi o Pentecostes dos gentios, pois até então o Espírito Santo só havia sido derramado sobre os cristãos de origem judaica, aos quais o evangelho começou primeiramente a ser anunciado antes da expansão da missão evangelística pelas demais nações.
Como era de se esperar, os "cristãos" judaizantes, da mesma categoria dos que estavam perturbando a Igreja de Creta, "o criticavam, dizendo: 'Você entrou na casa de homens incircuncisos e comeu com eles'" (At 11.2-3). Repare se não é a mesma confusão relatada na carta de Paulo a Tito, envolvendo tradições de pureza alimentar. Pedro, então, ao final de sua defesa, deixa bem claro que o que importa é a pureza interior por meio da fé em Jesus, e não a observações de tradições humanas:
"Quando comecei a falar, o Espírito Santo desceu sobre eles como sobre nós no princípio. Então me lembrei do que o Senhor tinha dito: 'João batizou com água, mas vocês serão batizados com o Espírito Santo'. Se, pois, Deus lhes deu o mesmo dom que nos tinha dado quando cremos no Senhor Jesus Cristo, quem era eu para pensar em opor-me a Deus?" Ouvindo isso, não apresentaram mais objeções e louvaram a Deus, dizendo: "Então, Deus concedeu arrependimento para a vida até mesmo aos gentios!" (At 11.15-18)
É somente por meio da fé em Cristo que o homem é santificado para Deus. Portanto, graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador! Paulo, chamado pelo Senhor para ser apóstolo dos gentios, sabia muito bem a importância dessa doutrina face às ameaças dos judaizantes no meio da Igreja. Isso já foi até motivo de repreensão de Pedro por Paulo (Gl 2.11-14), pois, ao invés de combater essa heresia, Pedro estava se acovardando diante dessa situação e deixando de fazer as refeições junto com os gentios para evitar o conflito com os judaizantes. Paulo, acerca dessa controvérsia das tradições de pureza alimentar, "como alguém que está no Senhor Jesus", tinha "plena convicção de que nenhum alimento é por si mesmo impuro" (Rm 14.14) "Pois o Reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, paz e alegria no Espírito Santo" (Rm 14.17). Em contraposição aos falsos mestres judaizantes de Creta, que, observando tradições de pureza alimentar, rejeitavam a sã doutrina dos apóstolos e perturbavam a Igreja de Cristo, sendo, por isso, considerados "detestáveis, desobedientes e desqualificados para qualquer boa obra" (Tt 1.16), o verdadeiro cristão, que, ao invés de se preocupar com comida e bebida, vive pela fé em Cristo na justiça, paz e alegria no Espírito Santo "é agradável a Deus e aprovado pelos homens" (Rm 14.18).
Diante de todo o exposto, resta mais do que evidenciado que essa passagem bíblica em nada se refere a "maus olhos". Não é pecado questionar as doutrinas e práticas da sua denominação. Não é pecado duvidar do que o seu pastor está ensinando quando você não foi convencido plenamente pelas Escrituras. Não é pecado ser criterioso quanto à conduta dos seus líderes denominacionais e confrontá-los quando estão agindo contrariamente à Palavra de Deus. Não é pecado avaliar a fundo quais são as reais intenções que o seu pastor demonstra ter com relação aos membros da congregação. Isso não tem nada a ver com "maus olhos". Falaremos especificamente sobre esse tema em outro artigo. Isso, na verdade, é simplesmente obedecer a ordem do Senhor Jesus. Sim! Foi Jesus que ordenou que fizéssemos isso:
Cuidado com os falsos profetas. Eles vêm a vocês vestidos de peles de ovelhas, mas por dentro são lobos devoradores. Vocês os reconhecerão por seus frutos. [...] Nem todo aquele que me diz: "Senhor, Senhor", entrará no Reino dos céus, mas apenas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: "Senhor, Senhor, não profetizamos em teu nome? Em teu nome não expulsamos demônios e não realizamos muitos milagres?" Então eu lhes direi claramente: Nunca os conheci. Afastem-se de mim vocês que praticam o mal! (Mt 7.15-16,21-23)
Veja bem: é ordem de Jesus que tomemos cuidado. Ele não disse que nós deveríamos engolir tudo sem questionar, sem pesar na balança, sem conferir a fundo na Escritura. Ele, sendo onisciente, já sabia que os falsos profetas tentariam convencer as pessoas pelas profetadas, exorcismos e operação de milagres, e que os insensatos, diante dessas experiências miraculosas, acreditariam piamente que esses mercenários eram homens de Deus e aceitariam tudo o que eles falassem sem consultar as Sagradas Escrituras. Esses enganadores não são burros. Eles também usam textos bíblicos. Se eles não usassem a Palavra de Deus eles não seriam confundidos com os profetas verdadeiros. O apóstolo Paulo já havia anunciado aos presbíteros de Éfeso que esses lobos ferozes "torcerão a verdade, a fim de atrair os discípulos" (At 20.30). Ler a Bíblia e usar versículos para os propósitos e campanhas não significa ser fiel à sã doutrina. Foi justamente por esse cuidado de estudarem a fundo as Escrituras todos os dias para conferir se o que Paulo e Silas pregavam era realmente condizente com a Palavra de Deus que os bereanos foram considerados mais nobres (At 17.11).
Na Igreja Universal do Reino de Deus tem cura, milagres, expulsão de demônios para dar e vender? Isso não é prova alguma de que são verdadeiros homens de Deus. Os pastores leem a Bíblia e todos os propósitos tem um versículo como base? Também não é prova alguma de que são verdadeiros homens de Deus. O ministério só cresce cada vez mais no Brasil e no mundo? Ainda não é prova alguma de que são verdadeiros homens de Deus. O que prova se são ou não homens de Deus são os seus frutos: (i) o caráter; (ii) o cuidado genuíno com as ovelhas do Senhor; (iii) a fidelidade à sã doutrina dos apóstolos; (iv) o compromisso com o ensino profundo e sistemático das Escrituras; (v) a humildade de reconhecer os erros da denominação, expô-los a todos, sem exceção, restituir os que foram lesados e mudar definitivamente a direção; (vi) o governo plural das igrejas em cada localidade ao invés da concentração de poder em um único bispo/pastor; e (vii) a centralidade de Cristo em tudo o que for feito na igreja. Estes são apenas alguns dos principais frutos que podem ser observados. Há ainda muitos outros que poderiam ser citados. É ordem do Senhor Jesus que reconheçamos os falsos mestres pelos seus frutos. Se assim não fosse, o apóstolo João não teria ensinado: "não creiam em qualquer espírito, mas examinem os espíritos para ver se eles procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo" (1Jo 4.1).
Essa máxima de que "tudo é puro para os que são puros" tem sido distorcida por Satanás para que os membros das igrejas ignorem os pecados dos falsos mestres e as heresias que eles propagam aos quatro ventos, sob a justificativa de que, se o fiel da instituição for puro, ele vai olhar para Jesus e não vai se preocupar com o erro da liderança. Se a pessoa, ao contrário, desconfiar da maneira como a instituição se conduz nas suas áreas de atuação, questionar a liderança acerca de algo que não parece estar de acordo com a Bíblia ou denunciar o erro dos pastores/bispos, imediatamente vai ser taxada como maliciosa, até mesmo de maneira áspera, pois "a obra é santa" e os líderes são "homens de Deus" que sacrificam suas vidas no "altar" para pregar a Palavra. Quem ousa se levantar contra eles?
Ocorre que essa é uma ideia completamente inconcebível! Quer dizer que, só porque sou puro, vou aceitar de bom grado que o meu pastor se divorcie sem que seja a hipótese de adultério para se casar com outra mulher? Só porque sou puro, vou aceitar de bom grado que a minha denominação uma hora demonize a esquerda, dizendo que um cristão não pode votar nessa ala, me manipulando para votar nos seus candidatos sob esse pretexto da ameaça esquerdista, e logo depois aja em sentido contrário, apoiando uma ditadura de esquerda na Venezuela e fazendo aliança com os esquerdistas eleitos no Brasil? Só porque sou puro, vou aceitar de bom grado que o líder da minha instituição minta para o povo, afirmando não possuir muitos bens e que todos os bens que utiliza são da igreja, enquanto, na verdade, ele vive uma vida de luxo às custas dos dízimos e ofertas dos fiéis da instituição, constando todos os bens em seu próprio nome? Só porque sou puro, vou aceitar de bom grado que o meu pastor seja grosseiro, estúpido e não tenha quase nenhum conhecimento bíblico, quando a Palavra estabelece uma série de critérios, tais como mansidão, conhecimento das Escrituras, humildade etc., para que alguém possa ser pastor, os quais ele não possui?
Se fosse assim, os apóstolos não falariam o tempo todo da necessidade de fidelidade à sã doutrina em contraposição às heresias dos falsos mestres. Só se fala em um doutrina sã porque existe também uma doutrina doentia. Só se fala um evangelho puro porque existe um evangelho impuro, contaminado pelas distorções, pela deturpação e pelo engano. Nesse sentido, Paulo admoestou Timóteo a pregar a sã doutrina fielmente, pois viria o tempo em que ela não seria mais suportada pelos falsos cristãos.
Na presença de Deus e de Cristo Jesus, que há de julgar os vivos e os mortos por sua manifestação e por seu Reino, eu o exorto solenemente: Pregue a palavra, esteja preparado a tempo e fora de tempo, repreenda, corrija, exorte com toda a paciência e doutrina. Pois virá o tempo em que não suportarão a sã doutrina; ao contrário, sentindo coceira nos ouvidos, juntarão mestres para si mesmos, segundo os seus próprios desejos. Eles se recusarão a dar ouvidos à verdade, voltando-se para os mitos. Você, porém, seja moderado em tudo, suporte os sofrimentos, faça a obra de um evangelista, cumpra plenamente o seu ministério.
Por essa razão, ao finalizar seus apontamentos sobre os falsos mestres de Creta, Paulo ordenou que Tito falasse somente o que estava de acordo com a sã doutrina (Tt 2.1). Ao final da carta, após já ter dito inicialmente que esses hereges deveriam ser silenciados (Tt 1.11), agora reitera de modo ainda mais enfático a orientação:
Fiel é esta palavra, e quero que você afirme categoricamente essas coisas, para que os que creem em Deus se empenhem na prática de boas obras. Tais coisas são excelentes e úteis aos homens. Evite, porém, controvérsias tolas, genealogias, discussões e contendas a respeito da Lei, porque essas coisas são inúteis e sem valor. Quanto àquele que provoca divisões, advirta-o uma primeira e uma segunda vez. Depois disso, rejeite-o. Você sabe que tal pessoa se perverteu e está em pecado; por si mesma está condenada. (Tt 3.8-11)
Tito é orientado a sequer discutir com esses homens perversos, pois isso não teria utilidade alguma para a Igreja de Cristo. O que ele deveria fazer era adverti-los. Se quisessem permanecer no erro doutrinário, que fossem excomungados, pois estavam deliberadamente em pecado e condenados pela sua própria incredulidade e dureza de coração. E você? Diante de tudo isso, permanecerá seguindo os falsos mestres da Universal e praticando suas heresias, ou os rejeitará para viver segundo a sã doutrina dos apóstolos de Cristo? Por aí você descobre realmente se é puro ou impuro, não segundo um versículo isolado para acobertar as falcatruas dos líderes da IURD, mas conforme a sã doutrina, o verdadeiro evangelho de Jesus Cristo.
Nota: transcrições bíblicas extraídas da Bíblia Sagrada, Nova Versão Internacional ®, NVI ® Copyright © 1993, 2000, 2011 by Biblica, Inc., exceto aquelas cujas descrições indiquem versão diversa.
REFERÊNCIAS OFICIAIS DA UNIVERSAL:
1. O Sentido do Sacrifício, publicado em 30/11/2009.
2. O desgosto de Davi, publicado em 18/05/2012.
3. Vença o mal com o bem, publicado em 02/10/2016.
4. Autoajuda 2018: Tarefa como Oferta 18, publicado em 12/03/2018.
5. Roubar minha pureza? Nada disso…, publicado em 07/05/2018.
6. Malícia: um verme espiritual, publicado em 07/01/2020.
7. Mentes corrompidas, publicado em 04/10/2020.
8. Casei na Universal: Pastor Yuri e Luanna, publicado em 22/12/2021.
9. A diferença entre os puros e os impuros, publicado em 14/05/2022.




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