"A letra mata": a falácia que tem permitido a sobrevivência de uma multidão de analfabetos da fé
Atualizado: 15 de ago. de 2024
Dentro do universo religioso, um grupo cada vez maior tem defendido que a busca pelo conhecimento bíblico não é importante. Pelo contrário, afirmam que isso esfria, ou até mesmo mata, a fé do cristão. Aduzem que não importa o quanto você conhece da Bíblia, mas se você obedece a direção de Deus ou não. A Universal, como é bem sabido, não escapa dessa realidade. Cabe-nos, portanto, a missão de impugnar essa grande falácia.
O jargão “a letra mata” é tão difundido na IURD, que, por vezes, carece de referência específica e detalhada. Essa é uma das bases sobre as quais está assentada a cultura da instituição e, desse modo, permeia praticamente todo o pano de fundo das suas práticas. No entanto, vale a citação de um artigo da Núbia Siqueira, esposa do bispo Domingos Siqueira, a qual possui muitas publicações e reflexões influentes, especialmente entre as mulheres adeptas à Universal:
O problema não é o que você não entende da Bíblia, mas o que você entende e não obedece. Então, num mundo de tantas perguntas, será que realmente as pessoas estão buscando praticar a vontade de Deus, ou querem simplesmente o status de conhecedoras da letra? Atentemos ao que está escrito: “a letra mata, mas o Espírito vivifica”. Absorver boas informações sobre Deus, afinco no estudo da teologia, imitar referências de fé ou gratidão pelos milagres recebidos não são suficientes para a salvação. Porque, a Palavra de Deus só gera vida quando sai da teoria para a prática. Do contrário, ela mata, gera a morte, e ainda condenará na eternidade. Sem o “Espírito que vivifica” podemos nos tornar mestres como Nicodemos e permanecer na ignorância. Ou seja, lemos, ouvimos, estudamos e não entendemos nada de forma espiritual e correta. Fonte: Sede de conhecimento ou sede de Deus?
Algo curiosíssimo que existe nos “pensadores” dessa instituição é a sutileza. Todos sabem dos vários pastores completamente ignorantes e desprovidos de qualquer partícula de conhecimento bíblico verdadeiro, que são apenas reprodutores dos discursos e práticas encomendados pelos seus superiores. Contudo, há muitas pessoas altamente capazes intelectualmente e com um nível considerável de conhecimento da Bíblia. E, acredite: são elas que validam as doutrinas e as práticas da IURD.
Veja, por exemplo, a sutileza do discurso da Núbia Siqueira nessa publicação. Ela parte da premissa de que há estudiosos da Bíblia que não obedecem a Palavra de Deus e que, por isso, o problema não é entender pouco dela, mas entender e não obedecer. Ela, de maneira bem sorrateira, desloca o foco do perigo da desobediência para o conhecimento profundo. Para a Universal, o conhecimento profundo é sempre uma ameaça.
É necessário entender que o sistema dessa instituição é baseado em uma lógica de mercado. Muitas pessoas têm necessidade de resolverem seus problemas da maneira mais breve possível, pois a nossa sociedade decadente já perdeu as rédeas da situação e assume a sua impotência diante desses dilemas. Isso representa a demanda. As denominações que preservam a tradição protestante, embora atuem em missões sociais, têm como alvo o anúncio do evangelho da cruz de Cristo, que consiste em doutrinas sobre o pecado original como fonte de todas as mazelas humanas (responsabilidade do homem pela sua própria desgraça), a salvação pela graça (indignidade absoluta do homem para a salvação), contentamento no Senhor (estar sempre satisfeito em Cristo, apesar de quaisquer privações), crescimento na graça e no conhecimento de Deus (estudo das Escrituras, santificação, aperfeiçoamento) e comunhão dos santos (exercício do amor fraternal entre os crentes), por exemplo. A grande maioria da massa de demandantes não está preocupada com essas coisas, mas apenas procura solucionar seus problemas de forma urgente.
A Universal tem um método para suprir essa demanda, por meio da alegoria de eventos do Antigo Testamento, transposição das promessas da Velha Aliança ou mesmo descontextualização das promessas do Novo Testamento. Soma-se a isso a apropriação do ideário místico do brasileiro médio (superstição, misticismo, feitiçaria, idolatria), “cristianizando-se” muitos elementos dessa cultura pagã (sincretismo), atribuindo-se a Satanás a responsabilidade que caberia ao próprio pecador, associando-se à sua ação tudo aquilo que incomode o homem (pobreza, doença, tristeza, tragédia, perda) e promovendo as cenas de exorcismo mediante a autoridade dos seus “oficiais”, com declarações exclusivas dos demônios, sempre expulsos de forma catártica. A partir daí, a instituição impõe uma disciplina sobre seus adeptos, mediante o esforço pessoal deles, e a espiritualiza. À medida que alguns comportamentos graves vão sendo mudados, as consequências negativas são amenizadas e o subconsciente absorve a ideia de que é a ação de Deus. Milagres também são recorrentes e reafirmam ainda mais para os membros que são manifestações do poder de Deus. O senso de gratidão, as experiências nas reuniões e as mudanças que vão acontecendo rapidamente fidelizam os novos frequentadores e os transpõem para uma posição de submissão à autoridade hierárquica institucional (confundida com a própria autoridade divina, pois os pastores são os “anjos” da igreja, que têm a “unção” de Deus, que “ensinam” o povo a exercitar a “fé” para conquistar a “vitória”) e, consequentemente, de contribuição cada vez mais assídua, sob a lógica do “dar para receber”, “plantar para colher”, mesmo que inconscientemente.
Com o método necessário para suprir a demanda, a instituição se utiliza das mesmas estratégias de marketing das grandes empresas. Praticamente tudo na Universal é padronizado, independentemente de qual templo seja, tal qual as unidades do Mc Donald’s. Toda a evangelização, quer seja por meio dos membros, quer seja por meio de seus veículos de comunicação, também possuem o mesmo padrão: convite para uma determinada reunião/concentração para solucionar rápida e eficazmente determinado problema que é comum à grande parte da massa de demandantes. Os argumentos dessa tese são dois: um trecho bíblico descontextualizado e o testemunho das pessoas que obtiveram os resultados que pretendiam participando dessas reuniões da Universal (e são muitos!).
O leitor pode até estar imaginando que fugi ao tema, mas, na verdade, é absolutamente fundamental ter em vista a lógica iurdiana para compreender o assunto. Diante do exposto, fica evidente não haver centralidade na Palavra de Deus. A exposição das Escrituras não é a finalidade da Igreja Universal do Reino de Deus. A Bíblia é uma mera ferramenta de legitimação do seu serviço mercadológico. Ela está presente em tudo, mas ela não regulamenta nada. Por isso, não há preocupação alguma com a teologia sistemática e, portanto, com a coerência do discurso bíblico dos líderes da instituição. Eles não têm qualquer constrangimento com as suas contradições e com o vai-e-vem das regras institucionais em curtos lapsos temporais. A teologia sistemática, na verdade, é uma ameaça e tanto para as bases dessa corporação.
Nas palavras da Núbia Siqueira, ressoa a desconfiança sobre o desejo de estudar as Escrituras com afinco. Segundo a esposa do bispo Domingos, isso não é suficiente para a salvação. É preciso ir além da teoria, é preciso praticar. A teoria sem a prática leva à morte e à condenação. Nisso reside o perigo: estudar a Palavra e não a entender de forma espiritual e correta.
A primeira indagação a ser feita na análise do discurso dela é a seguinte: o que é entender a Palavra de forma espiritual e correta? Aqui vale uma consulta no capítulo “A importância do exame das Sagradas Escrituras”, em que discorro em determinado ponto sobre a forma correta de interpretação bíblica. Com base especialmente em Jo 5.39-40 e 2Tm 3.15, conclui-se que a hermenêutica bíblica correta é aquela que aponta única e exclusivamente para Cristo, pois é dEle que as Escrituras dão testemunho.
Para entender, em seguida, como alguém pode conhecer a Palavra teoricamente e não ser salvo, mas, ao contrário, ser condenado, observemos o testemunho de Paulo acerca dos judeus que não creram em Jesus:
Posso testemunhar que eles têm zelo por Deus, mas o seu zelo não se baseia no conhecimento. Porquanto, ignorando a justiça que vem de Deus e procurando estabelecer a sua própria, não se submeteram à justiça de Deus. Porque o fim da Lei é Cristo, para a justificação de todo o que crê. [...] “A palavra está perto de você; está em sua boca e em seu coração”, isto é, a palavra da fé que estamos proclamando: Se você confessar com a sua boca que Jesus é Senhor e crer em seu coração que Deus o ressuscitou dentre os mortos, será salvo. Pois com o coração se crê para justiça, e com a boca se confessa para salvação. [...] porque “todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo”. (Rm 10.2-4,8-10,13)
Vê-se, pois, que o perigo não está no muito conhecer a Palavra de Deus, mas em buscar estabelecer a sua própria justiça ao invés de reconhecer que nada pode fazer para salvar-se a si mesmo, sendo a fé em Cristo a única possibilidade de sermos justificados diante de Deus, pois Jesus é a justiça que veio da parte do Pai para nossa salvação. Se crermos nessa palavra da fé que os apóstolos tanto proclamaram, seremos salvos, pois o evangelho “é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê [...] Porque no evangelho é revelada a justiça de Deus, uma justiça que do princípio ao fim é pela fé, como está escrito: ‘O justo viverá pela fé’” (Rm 1.16-17).
Paulo prossegue:
Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem não ouviram falar? E como ouvirão, se não houver quem pregue? [...] a fé vem por se ouvir a mensagem, e mensagem é ouvida mediante a palavra de Cristo. (Rm 10.14,17)
Propõe-se uma reflexão nesse ponto. Segundo Cristo, todo o Velho Testamento dá testemunho dEle (até então não havia Novo Testamento). Portanto, é necessário interpretá-lo de forma que aponte para o Senhor Jesus, Sua doutrina e Seu reino. Os evangelhos relatam a vida, ministério e ensino de Cristo. Atos narra os primórdios da Igreja, como ela se organizou e iniciou sua expansão missionária. As cartas apostólicas fornecem instruções de ordem prática, para o correto funcionamento da Igreja, e de ordem doutrinária, para a sua correta edificação no ensino de Cristo, ambas por meio daqueles que receberam autoridade direta do Senhor para isso. Por fim, o Apocalipse transmite a revelação de Cristo a João para fortalecer a esperança da Igreja enquanto aguarda a segunda vinda de Cristo. Como, então, alguém poderia desprezar o estudo minucioso e sistematizado de todos esses livros, de Gênesis a Apocalipse, se todos, sem nenhuma exceção, “são capazes de torná-lo sábio para a salvação mediante a fé em Cristo Jesus” (2Tm 3.15) e se “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça, para que o homem de Deus seja apto e plenamente preparado para toda boa obra” (2Tm 3.16-17)? Como alguém pode crer para a salvação se não ouvir a mensagem mediante a palavra de Cristo?
É por isso que precisamos compreender o contexto em que Paulo afirmou que a letra mata.
Vocês demonstram que são uma carta de Cristo, resultado do nosso ministério, escrita não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo; não em tábuas de pedra, mas em tábuas de corações humanos. [...] Ele nos capacitou para sermos ministros de uma nova aliança, não da letra, mas do Espírito; pois a letra mata, mas o Espírito vivifica. O ministério que trouxe a morte foi gravado com letras em pedras; mas esse ministério veio com tal glória que os israelitas não podiam fixar os olhos na face de Moisés, por causa do resplendor do seu rosto, ainda que desvanecente. Não será o ministério do Espírito ainda muito mais glorioso? Se era glorioso o ministério que trouxe condenação, quanto mais glorioso será o ministério que produz justificação! [...] Na verdade a mente deles se fechou, pois até hoje o mesmo véu permanece quando é lida a antiga aliança. Não foi retirado, porque é somente em Cristo que ele é removido. De fato, até o dia de hoje, quando Moisés é lido, um véu cobre os seus corações. Mas, quando alguém se converte ao Senhor, o véu é retirado. Ora, o Senhor é o Espírito e onde está o Espírito do Senhor ali há liberdade. E todos nós, que com a face descoberta contemplamos a glória do Senhor, segundo a sua imagem estamos sendo transformados com glória cada vez maior, a qual vem do Senhor, que é o Espírito. Portanto, visto que temos este ministério pela misericórdia que nos foi dada, não desanimamos. Antes, renunciamos aos procedimentos secretos e vergonhosos; não usamos de engano nem torcemos a palavra de Deus. Ao contrário, mediante a clara exposição da verdade, recomendamo-nos à consciência de todos, diante de Deus. (2Co 3.3,6-9,14-18; 4.1-2)
Na introdução da sua segunda carta aos coríntios, o apóstolo Paulo defende a sua autoridade apostólica e, portanto, a legitimidade do seu ministério com base nas muitas dificuldades e sofrimentos que ele enfrenta para que os cristãos possam ser confortados ao mesmo tempo em que o evangelho de Cristo é anunciado a cada vez mais pessoas ao redor do mundo. No fim do segundo capítulo, ele, com gratidão, apresenta os frutos do seu ministério, em contraste com os que estavam mercadejando a Palavra de Deus, pois somente um ministro verdadeiramente habilitado pelo Senhor poderia exercê-lo.
A partir do capítulo 3, Paulo está a defender sua legitimidade como apóstolo de Cristo com base no conteúdo do seu ministério, isto é, no que ele consiste. Ele inicia afirmando que aqueles coríntios que aceitaram a pregação dele e de seus pares e creram em Cristo são a sua própria carta de recomendação. Não é necessário que alguém recomende Paulo como um enviado da parte do Senhor. A própria Igreja de Corinto era a evidência do seu apostolado e da sua fidelidade, pois Paulo a fundou e ela é um dos resultados do seu ministério apostólico. Ainda na metáfora de uma carta, ele afirma que esta não foi escrita com tinta, como os muitos pergaminhos que os religiosos liam, mas eram incapazes de reconhecer o Cristo, de Quem esses escritos tanto testemunhavam. Era uma carta escrita com o Espírito do Deus Vivo, Aquele cujo derramamento sobre toda carne fora prometido por intermédio do profeta Joel (Jl 2.28-29), tendo-se cumprido a profecia no dia de Pentecostes (At 2). Não era uma carta escrita em tábuas de pedra, mas em tábuas de corações humanos. Aqui há uma alusão a profecia de Jeremias sobre a obsolescência da Antiga Aliança da Lei e a instituição da Nova Aliança da Graça (Jr 31.31-34), de acordo com a qual as leis do Senhor seriam impressas nas mentes e corações, isto é, interiorizadas no homem, cujos pecados seriam perdoados, e não mais seriam exteriores, como os Mandamentos de Deus, escritos em tábuas de pedra.
Em seguida, Paulo diz exatamente a mesma coisa, mas com um raciocínio mais detalhado. Ele afirma que foi capacitado para ser ministro dessa Nova Aliança, não mais da letra, ou seja, da Lei Mosaica, mas do Espírito, o qual santifica os crentes, capacitando-os a viver verdadeiramente a vontade de Deus. No Velho Testamento, o “código de conduta” foi inscrito com letras em pedras, mas o coração do homem permanecia corrompido, razão pela qual ele não podia contemplar a glória de Deus, pois somente os limpos de coração verão a Deus (Mt 5.8). A Lei trouxe condenação, uma vez que apresentou aos israelitas o padrão da justiça de Deus, o qual ninguém é capaz de alcançar por seus próprios méritos e boas obras. Portanto, se o pecado é a transgressão da lei (1Jo 3.4) e homem algum pode ser perfeitamente justo e não transgredir a lei, esse é o ministério da morte, pois o salário do pecado é a morte (Rm 6.23). A letra, ou seja, o ministério da Antiga Aliança de Lei de Moisés mata.
Nesse contexto, Cristo Jesus, sendo Deus, Se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e verdade, por meio de Quem pudemos ver a glória do Pai (Jo 1.14). Sua concepção não se deu, contudo, por meio de uma relação sexual entre Seus pais, o que O tornaria apenas mais um homem como qualquer outro, herdeiro do pecado original. Pelo contrário, Ele foi gerado no ventre de Maria, ainda virgem, pelo Espírito Santo (Mt 1.18-25; Lc 1.26-38). A Sua natureza era divina, e não pecaminosa. A Lei foi dada por Moisés, mas Cristo veio nos trazer a graça e a verdade (Jo 1.17). Não que Ele a tenha abolido; pelo contrário, ela é eterna e Jesus veio cumpri-la integralmente (Mt 5.17-18). Sendo absolutamente justo, ofereceu-Se em sacrifício pelos injustos, para conduzi-los a Deus (1Pe 3.18). Como não havia nEle pecado algum (1Pe 2.22), a morte não poderia vencê-Lo, tendo Ele ressuscitado ao terceiro dia, validando-se, assim, Seu sacrifício por nós, que serviu para nossa justificação (Rm 4.24-25).
Por essa razão, o apóstolo Paulo anuncia aos coríntios, se referindo à Antiga Aliança, que somente em Cristo o véu é removido e temos, portanto, liberdade no ministério do Espírito. Quando cremos no evangelho da morte e ressureição de Jesus Cristo, morremos com Ele para a carne, para a natureza decaída, para o coração corrompido, e ressuscitamos com Ele pelo Seu Espírito para, somente assim, ser possível praticarmos obras de justiça aceitáveis ao Senhor (Ef 2.1-10). Não precisamos mais estar presos ao legalismo religioso, que se apega à letra da Lei externalizada na vã tentativa de promover a sua própria justiça, mas temos uma nova mente (Rm 12.2) e um novo coração, em que o Espírito Santo internaliza a Lei do Senhor, habilitando-nos a andar em Sua justiça (Ez 36.25-27), em um processo de santificação que nos aperfeiçoa cada vez mais conforme a imagem de Cristo.
Essa é a breve síntese do ministério da Nova Aliança do Espírito. O uso do termo “letra” é apenas uma figura de linguagem para se referir à Lei Mosaica, a qual era escrita externamente ao homem, mas que não era capaz de habilitá-lo a cumpri-la. O “Espírito”, por sua vez, é o Espírito Santo, que internaliza a Lei do Senhor no coração de todos que creem no sacrifício e ressureição de Jesus, tornando-os capazes de viver na Sua justiça.
Note-se que, embora Paulo chame o Velho Testamento de ministério da morte e da condenação, não traz nessa afirmação qualquer tom pejorativo contra a “letra”. O que Moisés recebeu da parte do Senhor foi a Sua Lei, e a Lei do Senhor é perfeita (Sl 19.7). Vejamos o que o próprio Paulo afirma a respeito da “letra”, quando tratava sobre esse dilema em sua carta aos romanos:
Que diremos então? A Lei é pecado? De maneira nenhuma! De fato, eu não saberia o que é pecado, a não ser por meio da Lei. Pois, na realidade, eu não saberia o que é cobiça, se a Lei não dissesse: “Não cobiçarás”. Mas o pecado, aproveitando a oportunidade dada pelo mandamento, produziu em mim todo tipo de desejo cobiçoso. Pois, sem a Lei, o pecado está morto. Antes eu vivia sem a Lei, mas, quando o mandamento veio, o pecado reviveu, e eu morri. Descobri que o próprio mandamento, destinado a produzir vida, na verdade produziu morte. Pois o pecado, aproveitando a oportunidade dada pelo mandamento, enganou-me e por meio do mandamento me matou. De fato a Lei é santa, e o mandamento é santo, justo e bom. E então, o que é bom se tornou em morte para mim? De maneira nenhuma! Mas, para que o pecado se mostrasse como pecado, ele produziu morte em mim por meio do que era bom, de modo que por meio do mandamento ele se mostrasse extremamente pecaminoso. Sabemos que a Lei é espiritual; eu, contudo, não o sou, pois fui vendido como escravo ao pecado. Não entendo o que faço. Pois não faço o que desejo, mas o que odeio. E, se faço o que não desejo, admito que a Lei é boa. (Rm 7.7-16)
A lição do apóstolo é muito clara e lógica: a “letra” mata não porque ela é ruim, mas porque eu sou ruim, escravo do pecado, o qual se aproveita da proibição divina para mostrar o quão profano é. Por isso a necessidade do ministério do Espírito, o qual não anula a Lei, mas, sim, o pecado, ao fazer morrer nossa carne e nos dar uma nova vida em Cristo, pela qual andamos, agora, segundo o Espírito. Assim, estamos livres da condenação, a qual Cristo já sofreu em nosso lugar. Por isso que ninguém pode entrar no reino de Deus sem que tenha nascido da água e do Espírito (Jo 3.3-6).
Portanto, agora já não há condenação para os que estão em Cristo Jesus, porque por meio de Cristo Jesus a lei do Espírito de vida me libertou da lei do pecado e da morte. Porque, aquilo que a Lei fora incapaz de fazer por estar enfraquecida pela carne, Deus o fez, enviando seu próprio Filho, à semelhança do homem pecado, como oferta pelo pecado. E assim condenou o pecado na carne, a fim de que as justas exigências da Lei fossem plenamente satisfeitas em nós, que não vivemos segundo a carne, mas segundo o Espírito. Quem vive segundo a carne tem a mente voltada para o que a carne deseja; mas quem vive de acordo com o Espírito tem a mente voltada para o que o Espírito deseja. A mentalidade da carne é morte, mas a mentalidade do Espírito é vida e paz; a mentalidade da carne é inimiga de Deus porque não se submete à Lei de Deus, nem pode fazê-lo. Quem é dominado pela carne não pode agradar a Deus. [...] se Cristo está em vocês, o corpo está morto por causa do pecado, mas o espírito está vivo por causa da justiça. (Rm 8.1-8, 10)
Conforme o texto acima, novamente resta evidenciado que o contraste não é das experiências místicas sobre o conhecimento teológico, mas, na verdade, entre o pecado, exposto pela “letra” (Lei), e a obra do Espírito Santo por meio do ministério do Filho, que cumpriu toda a Lei, sofreu a condenação pelas nossas transgressões e nos creditou a Sua justiça, libertando-nos das amarras do pecado.
Uma vez que a tese de que a letra se referiria ao estudo teológico já foi derrubada, cumpre-nos, agora, avaliar se, de algum modo, o estudo aprofundado das Escrituras apresenta risco ao cristão. Aqui também vale uma consulta no artigo A importância do exame das Sagradas Escrituras, cujo tema central é justamente esse, conforme o próprio título sugere. A fim de não tornar a leitura repetitiva, vamos apenas passar por alto em alguns exemplos bíblicos no presente texto.
Em Dt 6.5-9, apresenta-se o grande mandamento do amor a Deus de todo o coração, alma e forças. Atrelado a isso, logicamente em seguida, consta a ordenança de guardar TODAS as palavras do Senhor no coração, ensiná-las (referindo-se a “TODAS as palavras do Senhor”) com persistência aos filhos, conversar sobre elas (referindo-se também a “TODAS as palavras do Senhor”) em todas as circunstâncias, amarrá-las (referindo-se novamente a “TODAS as palavras do Senhor”) nos braços, prendê-las (referindo-se outra vez a “TODAS as palavras do Senhor”) na testa e escrevê-las (referindo-se uma vez mais a “TODAS as palavras do Senhor”) nos batentes das portas e nos portões. A orientação é clara: TODAS as palavras do Senhor, sem exceção, devem ser ensinadas com persistência e devem estar junto de cada um em todas as situações, a fim de que elas possam ser memorizadas, compreendidas e praticadas. TODAS as palavras do Senhor devem ser profundamente conhecidas, não sendo admitido o contento com um conhecimento superficial, de modo que as pessoas medissem seu relacionamento com Deus com base em experiências autônomas em detrimento da Palavra.
Em Os 4.1-9, vê-se uma situação de calamidade espiritual no reino do Norte gerada por nada mais nada menos do que a falta de conhecimento da Palavra de Deus. Naquele contexto, a responsabilidade de ensinar as Escrituras ao povo em geral era dos sacerdotes. Ocorre que eles estavam rejeitando esse conhecimento e ignorando a lei do Senhor. Na verdade, era até benéfico para eles que o povo continuasse na ignorância, pois assim seriam necessárias cada vez mais ofertas pelos pecados e eles se fartariam com a carne desses animais. Há uma clara relação, portanto, entre falta de conhecimento e aumento da iniquidade. E aqui fica evidente qual é a intenção de alguém que desestimula o estudo da Bíblia com afinco e profundida: ganância.
Nessa altura, retomo a abordagem da lógica de mercado em que o sistema da Universal está estruturado. O que os líderes dessa instituição querem é lucro. Para tanto, à semelhança dos sacerdotes da época do profeta Oseias, eles tentam de toda forma limitar o conhecimento dos seus fiéis. O fundamento da oferta pelos pecados estava na Lei. Os sacerdotes se apropriavam disso, mas monopolizavam o ensino dela, a fim de que o povo não tivesse acesso ao pleno conhecimento e permanecesse na ignorância, pecando cada vez mais e, consequentemente, aumentando o número de ofertas. Os fundamentos das doutrinas e práticas da Universal também estão na Bíblia, mas sempre de forma torcida e descontextualizada. Assim, as infindáveis campanhas de arrecadação financeira são legitimadas à vista do povo. Para que esse rebanho esteja sempre nas rédeas da IURD, esta limita o seu conhecimento bíblico, mantendo-o sempre na ignorância. Até é permitido (e “incentivado”, por vezes) ler a Bíblia toda, mas não há quem ensine com compromisso, verdade e profundidade. Até é permitido consultar literatura cristã e comentários bíblicos, desde que sejam dos líderes da própria instituição. Até é permitido não entender determinadas coisas, desde que se pergunte sem desconfiança ao pastor/bispo e se dê por satisfeito com a sua resposta evasiva (ou mesmo com a ausência dela). O importante é obedecer a direção que vem do “Altar” sem questionar, uma vez que foi assim que se obteve a cura, a libertação, a mudança de vida etc. Caso contrário, é pura malícia e maus olhos. E, se criticar, está tocando no “ungido” do Senhor. “Sim ou não?” (leia-se na voz de Edir Macedo).
Uma última observação valiosa na profecia de Oseias é que o castigo viria não só sobre os sacerdotes, mas também sobre o povo, por causa dos seus caminhos e atos. Cada qual, independentemente de sua condição, tem a responsabilidade de buscar o conhecimento do Senhor, por meio da Sua Palavra. Se no contexto da Velha Aliança, da letra, em que os sacerdotes é que tinham o dever de ensinar o povo, este não foi poupado do castigo, muito mais sério será o castigo para os “cristãos” que têm se permitido ser limitados no conhecimento da Palavra do Senhor, quando não há mais intermediador entre nós e o Pai, a não ser Cristo, que deixou o Seu próprio Espírito Santo para nos ensinar todas as coisas e nos fazer lembrar de tudo o que Ele disse (Jo 14.26). É dever de todo crente se aplicar no exame da Palavra de Deus, a fim de que tenha seu entendimento iluminado pelo Espírito de Cristo. Sujeitar-se a um ensino herético como o da Igreja Universal do Reino de Deus não torna seus adeptos inocentes, mas, pelo contrário, culpados, de modo que, se não se arrependerem e abandonarem as falsas doutrinas, serão seriamente castigados juntamente com os falsos profetas que comandam essa instituição.
Em Js 1.8, por exemplo, vê-se Deus ordenando algo similar ao que está em Dt 6.5-9: a presença da palavra em todo tempo e circunstância. O fim disso é que Josué cumprisse fielmente TUDO o que estava nas Escrituras. Em Ed 7.6,10, vemos que o ministério fiel daquele sacerdote em restabelecer a Lei no início do período do Segundo Templo, pós-exílio, era marcado por seu profundo conhecimento da Palavra de Deus, devido ao seu estudo da Lei do Senhor com afinco e prática dos mandamentos, a fim de estivesse, assim, apto a ensinar adequadamente os judeus sob sua liderança.
O salmista Davi, inspirado pelo Espírito Santo, declara a respeito da Lei:
A lei do SENHOR é perfeita e revigora a alma. Os testemunhos do SENHOR são dignos de confiança e tornam sábios os inexperientes. Os preceitos do SENHOR são justos e dão alegria ao coração. Os mandamentos do SENHOR são límpidos e trazem luz os olhos. O temor do SENHOR é puro e dura para sempre. As ordenanças do SENHOR são verdadeiras, são todas elas justas. São mais desejáveis do que o ouro, do que muito ouro puro; são mais doces do que o mel, do que as gotas do favo. Por elas o teu servo é advertido; há grande recompensa em obedecer-lhes. Quem pode discernir os próprios erros? Absolve-me dos que desconheço! Também guarda o teu servo dos pecados intencionais; que eles não me dominem! Então serei íntegro, inocente de grande transgressão. (Sl 19.7-13)
Muitos chamam a Cristo de Senhor, mas não buscam a perfeição. Observe que, ao instituir Sua aliança com Abraão e sua descendência, a exigência de Deus era que ele andasse na Sua presença e fosse perfeito (Gn 17.1-2). Quando deu a Lei a Moisés, o Senhor ordenou que o povo seja santo porque Ele é santo (Lv 19.2). Jesus, ao dar a correta interpretação da Lei no Sermão da Montanha, ratifica a ordem do Pai, ao afirmar que seus discípulos deveriam ser perfeitos como o Pai era perfeito (Mt 5.48). Ainda, o apóstolo Pedro exorta a Igreja para que viva em santidade assim como é santo Aquele que a chamou (1Pe 1.15-16). Se a Lei é perfeita e Cristo nos enviou Seu Espírito para nos habilitar a andar na justiça, nos aperfeiçoando conforme a Sua imagem, como se poderia desprezar o conhecimento das Escrituras, se é somente por meio delas que conhecemos a santidade do Senhor, a fim de imitarmos o exemplo de nosso Cristo?
Nesse sentido, Davi afirma que a Palavra de Deus torna sábios os inexperientes. Como pode um cristão negligenciar o conhecimento das Escrituras e achar que se tornará sábio por meio de experiências místicas, de resultados de campanhas, de provocação de milagres? Somente as Escrituras nos tornam sábios para viver uma vida que agrade a Deus. É por essa razão que a instrução de Paulo a Timóteo, conforme mencionado anteriormente, não era outra senão que ele permanecesse no caminho do conhecimento das Sagradas Letras, as quais ele conhecia desde criança, pois somente elas poderiam torná-lo sábio para a salvação mediante a fé em Cristo, uma vez que TODA a Escritura é inspirada por Deus e útil para que o homem seja apto e plenamente preparado para toda boa obra (2Tm 3.14-17).
Davi continua dizendo que os preceitos do Senhor alegram o coração. Como pode o estudo desses preceitos ser desencorajado, sob desconfiança, por uma instituição que se diz Igreja? O conhecimento das Escrituras nos esclarece cada vez mais acerca da santidade e do amor de Deus, o que alegra o nosso coração. Esse foi o resultado, por exemplo, de quando Esdras leu as Escrituras para o povo no momento de restauração de Jerusalém, após o exílio. A passagem é tão bela e contagiante, que suponho que não devamos nos limitar a mencioná-la, mas lê-la na íntegra:
Quando chegou o sétimo mês e os israelitas tinham se instalado em suas cidades, todo o povo juntou-se como se fosse um só homem na praça, em frente da porta das Águas. Pediram ao escriba Esdras que trouxesse o Livro da Lei de Moisés, que o SENHOR dera a Israel. Assim, no primeiro dia do sétimo mês, o sacerdote Esdras trouxe a Lei diante da assembleia, que era constituída de homens e mulheres e de todos os que podiam entender. Ele a leu em alta voz desde o raiar da manhã até o meio-dia, de frente para a praça, em frente da porta das Águas, na presença dos homens, mulheres e de outros que podiam entender. E todo o povo ouvia com atenção a leitura do Livro da Lei. [...] Esdras abriu o Livro diante de todo o povo, e este podia vê-lo, pois ele estava num lugar mais alto. E, quando abriu o Livro, o povo todo se levantou. Esdras louvou o SENHOR, o grande Deus, e todo o povo ergueu as mãos e respondeu: “Amém! Amém!” Então eles adoraram o SENHOR, prostrados com o rosto em terra. Os levitas [...] instruíram o povo na Lei, e todos permaneciam ali. Leram o Livro da Lei de Deus, interpretando-o e explicando-o, a fim de que o povo entendesse o que estava sendo lido. Então Neemias, o governador, Esdras, o sacerdote e escriba, e os levitas que estavam instruindo o povo disseram a todos: “Este dia é consagrado ao SENHOR, o nosso Deus. Nada de tristeza e de choro!” Pois todo o povo estava chorando enquanto ouvia as palavras da Lei. E Neemias acrescentou: “Podem sair, e comam e bebam do melhor que tiverem, e repartam com os que nada têm preparado. Este dia é consagrado ao nosso Senhor. Não se entristeçam, porque a alegria do SENHOR os fortalecerá”. Os levitas tranquilizaram todo o povo, dizendo: “Acalmem-se, porque este é um dia santo. Não fiquem tristes!” Então todo o povo saiu para comer, beber, repartir com os que nada tinham preparado e para celebrar com grande alegria, pois agora compreendiam as palavras que lhes foram explicadas. (Ne 8.1-3, 5-12)
Essa passagem é uma maravilhosa representação, guardadas as devidas proporções, da “Igreja no Antigo Testamento”. Digo isto por encontrar nela tantos princípios aplicáveis à assembleia dos crentes em Jesus no contexto da Nova Aliança. Ali há a reunião de um povo que acabou de regressar do exílio, o qual consistiu na sua punição por haver se afastado da Lei do Senhor. O coração desse povo é unânime, são como um só, verdadeiros irmãos. É um povo que deseja (re)aprender os mandamentos de Deus, que deseja uma vez mais poder conhecer o Senhor que, apesar das suas muitas transgressões, teve misericórdia dele e o resgatou do exílio, devolvendo-o à terra de Jerusalém. Quando esse povo ouve a leitura da Lei, reconhece a santidade do seu Deus e se humilha diante dEle. O povo se entristece ao perceber quão longe estava dos mandamentos divinos, que são perfeitos e para o seu próprio bem, e sua responsabilidade sobre sua própria desgraça, apesar das inúmeras advertências de Deus. Mas, quando os levitas interpretam e explicam a Lei, o povo consegue enxergar a misericórdia de Deus sobre eles e a Sua providência ao ajuntá-los outra vez e mostrar-Se fiel à aliança que fizera com eles. Isso é motivo de alegria, de festa e de comunhão do povo de Deus! Conhecer e aprender a Sua Palavra nos revela Sua graça salvadora, nos alegra o coração e fortalece a comunhão dos crentes, pois é em torno dessa Verdade que nos ajuntamos. Como desprezar o estudo e ensino das Escrituras, diante dessa realidade?
De volta ao salmo, Davi prossegue afirmando que os mandamentos do Senhor trazem luz aos olhos. Há uma afirmação semelhante em Sl 119.105: “A tua palavra é lâmpada que ilumina os meus passos e luz que clareia o meu caminho”. Isso faz todo sentido, pois sabemos que Cristo é a luz do mundo (Jo 1.4-5; 8-12; 9.5; 12.46) e que é dEle que as Escrituras testemunham (Jo 5.39-40). Cristo é o Verbo (do latim “Verbum” = “Palavra”) encarnado, por meio de Quem a justiça de Deus se manifestou aos homens. Jesus é a Verdade. Não há como fazer distinção entre o Messias e a Palavra de Deus. Somente assim o homem sai das trevas para a luz (Cl 1.13, 19-23; 1Pe 2.9-10).
O salmista, em seguida, exclama que essa Lei perfeita é mais desejável do que muito ouro. Ouro é símbolo de riquezas, honra e glória humana. É símbolo de domínio, poder e autoridade. Contudo, a Palavra do Senhor é muito mais desejável do que qualquer outra coisa, inclusive muito ouro, por mais puro que seja. Como alguém que crê na Palavra encarnada poderia deixar de nutrir o desejo de conhecer cada vez mais as Escrituras? Isso não é nada razoável. É, na verdade, inconcebível! É esse conhecimento da Palavra que lapida os filhos de Deus, mesmo quanto aos pecados por ignorância, a fim de que não sejam dominados pela iniquidade. Ao conhecer e obedecer aos mandamentos do Senhor, o seu servo é grandemente recompensado, pois, desse modo, ele é continuamente aperfeiçoado, sendo evidenciado, então, que fora verdadeiramente justificado pelo sangue de Cristo.
Há, também, a seguinte declaração no salmo 119, que versa sobre o mesmo assunto:
Como são felizes o que andam em caminhos irrepreensíveis, que vivem conforme a lei do SENHOR! Como são felizes os que obedecem aos seus estatutos e de todo o coração o buscam! Não praticam o mal e andam nos caminhos do SENHOR. Tu mesmo ordenaste os teus preceitos para que sejam fielmente obedecidos. Quem dera fossem firmados os meus caminhos na obediência aos teus decretos. Então não ficaria decepcionado ao considerar todos os teus mandamentos. Eu te louvarei de coração sincero quando eu aprender as tuas justas ordenanças. Obedecerei aos teus decretos; nunca me abandones. (Sl 119.1-8)
Novamente, a Lei do Senhor está sendo relacionada à alegria. Essa alegria têm aqueles que O buscam de todo o coração. É difícil imaginar que alguém realmente busque a Deus de todo o coração se negligencia o conhecimento da Palavra por meio da qual Ele se revela a humanidade. Até porque Ele nos deu Seus mandamentos para que sejam fielmente obedecidos. Como obedecer fielmente àquilo que se conhece tão mal? Seria como tentar desempenhar com excelência um serviço para o qual não se tenha sido ensinado a realizar. Não faz sentido! O salmista, ao contrário, por realmente desejar estar firmado na obediência plena a Deus, se dispõe a considerar TODOS os Seus mandamentos. Ele não se decepcionaria com isso; muito pelo contrário, aprender as justas ordenanças de Deus seria para ele motivo de louvor sincero. Ele tanto ama a Lei do Senhor, a ponto de meditar nela o dia inteiro (Sl 119.97). Por meditar constantemente nos Seus testemunhos e obedecê-los, ele adquire muito discernimento, mais até do que as pessoas que se presumiriam ser mestres (vs. 99-100). É pela Palavra de Deus que esse homem ganha entendimento (v. 104).
O livro de Atos nos fornece um exemplo muito enfático sobre a importância das Escrituras no ministério da Nova Aliança do Espírito, evidenciando-se ainda mais que não é o conhecimento delas que mata:
Tendo passado por Anfípolis e Apolônia, chegaram a Tessalônica, onde havia uma sinagoga judaica. Segundo o seu costume, Paulo foi à sinagoga e por três sábados discutiu com eles com base nas Escrituras, explicando e provando que o Cristo deveria sofrer e ressuscitar dentre os mortos. E dizia: “Este Jesus que proclamo é o Cristo”. Alguns dos judeus foram persuadidos e se uniram a Paulo e Silas, bem como muitos gregos tementes a Deus e não poucas mulheres de alta posição. (At 17.1-4)
O apóstolo Paulo não pegou versículos soltos para fazer uma campanha de cura e libertação dos judeus, “plantando” um envelope para trazer uma oferta na “semana que vem”. Ele não pegou uma réplica da Arca da Aliança para fazer uma entrada “triunfal” na sinagoga. Também não ficou orando “forte” para a “pomba-gira” Diana ou o “exu” Baco manifestar e conceder uma entrevista exclusiva sobre os significados das oferendas que recebiam e como destruíam a vida das pessoas com “corpo aberto”, para depois mandá-los embora enquanto estavam de joelhos diante da sua autoridade de “pastor”. Tampouco se limitou a discursar simploriamente que Jesus morreu pelos nossos pecados e que, se não se arrependessem, queimariam no inferno pela eternidade. Paulo discutia com eles com base nas Escrituras. Paulo lia o texto, interpretava-o e provava com base nas próprias Escrituras que Jesus era o Messias. O seu profundo conhecimento da Palavra de Deus era um instrumento poderoso nas mãos do Espírito Santo, que o capacitava a testemunhar de Cristo inclusive entre os mestres e doutores da Lei.
Logo após sua estadia em Tessalônica, Paulo se dirigiu a Bereia. Lucas, inspirado pelo Espírito, destaca que “Os bereanos eram mais nobres do que os tessalonicenses, pois receberam a mensagem com grande interesse, examinando todos os dias as Escrituras, para ver se tudo era assim mesmo” (At 17.11). As pessoas que se converteram nessa viagem missionária de Paulo a Bereia não se contentavam somente com as menções dele às Escrituras. Elas estavam realmente interessadas em sua pregação e, por isso, examinavam todos os dias as Sagradas Letras para conhecerem a fundo o que diziam as Escrituras e se o que Paulo estava pregando era realmente coerente com a Palavra de Deus ou apenas um discurso distorcido.
Pela terceira vez, trago à tona a reflexão acerca do modus operandi da Igreja Universal. Definitivamente, o método dessa instituição não é o método bíblico. Repito: não há centralidade nas Escrituras e compromisso com o ensino da Verdade. A Bíblia, na lógica de mercado em que esse sistema religioso atua, é um mero instrumento de legitimação das suas doutrinas e práticas diante dos seus adeptos. Inventa-se qualquer coisa mirabolante para fidelizar sua “clientela” e seduzi-la a contribuir financeiramente e usa-se um trecho bíblico descontextualizado para fazer parecer que ele diz algo que não diz e convencer os incautos. Muito conhecimento bíblico e exigência de fundamentação sólida na Palavra é uma ameaça para esse sistema. A persuasão não é com base nas verdades sagradas, mas se dá pela capacidade humana de convencimento por meio de seu discurso. E isso não sou eu que digo, mas a própria Cristiane Cardoso, filha de Edir Macedo e esposa de Renato Cardoso:
Da mesma forma, passar espírito para alguém exige convicção e que você viva aquilo que prega. “Quando se fala na carne, até dá para compreender o assunto, mas isso é tudo que se conquista: teoria, informação. Você ouve e diz: ‘Muito interessante.’ Mas quando se fala no espírito, se bebe do espírito daquela pessoa. Você diz: ‘Fui abençoada hoje’”, explica a escritora e apresentadora Cristiane Cardoso. Ela acrescenta que essa é a principal diferença entre reunião e reunião. Evangelização e evangelização. Livro e livro. Atendimento e atendimento. “Passar espírito é falar de algo que se crê com tanta convicção que você parece estar dando algo que vem de dentro de você, como se tirasse um pedaço de si e desse para as pessoas. Mas, para que isso aconteça, deve-se viver o que se quer passar primeiro. Aí sim, terá o que dar”. Fonte: Como transmitir espírito e vida para os que lhe ouvem?
Passar espírito, para a Igreja Universal, é simplesmente falar de algo de que você esteja convicto. Teoria? Informação? Teologia? Isso é falar na carne, não fede nem cheira. Mas se você falar algo com convicção, você passará espírito. Para que se aprofundar no conhecimento teológico? Para que entender a Bíblia a fundo? Você não foi curado com o uso da água do tratamento? Você não foi liberto da depressão na corrente do meio-dia na sexta-feira? Seu marido não voltou para você através da Terapia do Amor? Você não prosperou mais depois que passou a ser dizimista fiel na Nação? A causa presa na Justiça não saiu quando você começou a pegar firme no Jejum? Você não conquistou sua benção depois de sacrificar na Fogueira Santa? Deus não mudou! O que Ele fez no passado, Ele continua a fazer no presente! Basta você crer e materializar a sua fé por meio das ofertas de campanha! E, sobre a salvação, não tem mistério: arrependa-se, batize-se nas águas, pare de pecar, liberte-se dos demônios às sextas, busque o Espírito Santo às quartas e domingos e, uma vez batizado com Ele, continue obedecendo a direção do “Altar” para não ficar com maus olhos e cair. É o que a Bíblia diz, pode crer!
Diante de todo o exposto, finalizo com as palavras do apóstolo Pedro, encorajando a Igreja do Senhor a crescer no conhecimento, recordando-se sempre da Palavra de Deus pela boca dos autores bíblicos, divinamente inspirados, para que não sejam enredados pelo engano, principalmente daqueles que usam assuntos difíceis de entender nas epístolas de Paulo (como, por exemplo, “a letra mata”) para distorcê-los e enganar os incautos:
Amados, esta é agora a segunda carta que escrevo a vocês. Em ambas quero despertar com estas lembranças a sua mente sincera para que vocês se recordem das palavras proferidas no passado pelos santos profetas e do mandamento de nosso Senhor e Salvador que os apóstolos ensinaram a vocês. [...] Vivam de maneira santa e piedosa, esperando o dia de Deus e apressando a sua vinda. [...] Portanto, amados, enquanto esperam estas coisas, empenhem-se para serem encontrados por ele em paz, imaculados e inculpáveis. Tenham em mente que a paciência de nosso Senhor significa salvação, como também o nosso amado irmão Paulo escreveu a vocês, com a sabedoria que Deus lhe deu. Ele escreve da mesma forma em todas as suas cartas, falando nelas destes assuntos. Suas cartas contêm algumas coisas difíceis de entender, as quais os ignorantes e instáveis torcem, como também o fazem com as demais Escrituras, para a própria destruição deles. Portanto, amados, sabendo disso, guardem-se para que não sejam levados pelo erro dos que não têm princípios morais, nem percam a sua firmeza e caiam. Cresçam, porém, na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. (2Pe 3.1-2,11-12,14-18)
Nota: transcrições bíblicas extraídas da Bíblia Sagrada, Nova Versão Internacional ®, NVI ® Copyright © 1993, 2000, 2011 by Biblica, Inc., exceto aquelas cujas descrições indiquem versão diversa.
REFERÊNCIAS OFICIAIS DA UNIVERSAL:
1. Como transmitir espírito e vida para os que lhe ouvem?, publicado em 16/04/2017.
2. Quem tem guiado sua vida espiritual?, publicado em 27/01/2019.
3. Sede de conhecimento ou sede de Deus?, publicado em 03/05/2021.
4. Muito além da teoria, publicado em 19/02/2023.




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