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Maus olhos: o melhor método da IURD para aprisionar os fiéis na seita

Atualizado: 23 de dez. de 2024

Antes de prosseguir com a leitura deste artigo, vá até o fim da página e veja a quantidade de referências listadas. Sem dúvidas é a maior quantidade para um mesmo tema específico dentre todas as análises que já fizemos até aqui. Saiba ainda que descartei MUITAS outras referências; caso contrário, seria uma lista interminável.

Como alguém que "nasceu e foi criado" na Universal, desde o berçário até a FJU, tendo sido obreiro por 10 anos, participado do Iburd e quase tendo sido pastor, caso não tivesse desistido aos 45" do segundo tempo, sei perfeitamente o peso que essa expressão tem no subconsciente dos fiéis da IURD. É difícil haver uma única reunião em que esse termo não seja pronunciado ao menos uma vez. A "teologia dos maus olhos" tão bem explorada pela seita de Edir Macedo é o método de manipulação perfeito para cauterizar seus fiéis contra os escândalos, crimes e abusos religiosos que fazem parte do cotidiano da instituição. É o antídoto poderoso que a Igreja Universal do Reino de Deus injeta na mentalidade de seus adeptos contra o senso crítico, as feridas internas e a emancipação espiritual.

Sem a menor sombra de dúvidas, esta é a maior arma da IURD. Embora ela possua um poderoso arsenal de defesa contra os ataques externos (veículos de comunicação em massa, representantes políticos, empresas sob seu controle, bolhas nas redes sociais, várias ações de assistência social etc.), o que realmente sustenta a Igreja Universal diante de tamanha catástrofe promovida por ela é a alienação voluntária de seus fiéis por meio da manipulação psicológica exercida com base especialmente no espantalho dos maus olhos.

Mas, afinal, o que são os maus olhos, segundo a Universal, e por que isso seria uma arma de controle sobre os membros? Deixemos os representantes da instituição falarem por si mesmos.

Renato Cardoso, genro e futuro sucessor de Edir Macedo, declara o seguinte a respeito dos maus olhos:

A pessoa que pensa o mal em seu coração está sempre olhando a situação e deduzindo o pior. Ela não pensa no melhor das pessoas nem acredita no bem, mas tem facilidade de acreditar no mal. É por isso que as fake news se espalham tão facilmente: porque as pessoas têm essa tendência de pensar mal em seus corações. Podemos falar a verdade com provas, mas elas não acreditam. O Senhor Jesus alertou que “se seus olhos forem maus, todo o seu corpo estará em trevas” (Mateus 6.23). É por isso que muita gente está doente e não se cura nunca: porque os maus olhos trazem o mal-estar para dentro dela. Temos de treinar para ter bons olhos, como Jesus nos ensinou, e temos que acreditar no melhor das pessoas, até que se prove o contrário. Fonte: Maus pensamentos não deixam você avançar: o que fazer?

É importante compreender a sutileza: a ilustração dele são as fake news. Contudo, é necessário pontuar que ele não está falando a respeito das mentiras que ele e os seus bispos/pastores espalham durante o período eleitoral para convencerem seus fiéis de que devem votar nos candidatos da Universal para agradar a Deus. Ele também não está falando das mentiras acerca de doenças, como foi o caso da declaração de Edir Macedo a respeito da pandemia do coronavírus. Toda mentira que for útil à Universal é aprovada. Na concepção do Renato Cardoso, fake news é só quando falam mal da IURD. Há até um quadro de testemunhos chamado "Eu Fui Vítima de Fake News" para mostrar a história de pessoas que não gostavam da Universal por alguma informação, segundo eles, falsa, e que supostamente mudaram de vida quando resolveram acreditar na instituição.

Um artigo do portal Universal.org afirma:

Porém, muitos estão sendo contaminado pela malícia. Ela tem sujado os olhos, os pensamentos e a alma dos que se deixam enveredar por ela. Geralmente, surge depois que uma pessoa dá ouvidos àqueles que trabalham a serviço do mal, para contaminarem a fé. Fonte: Malícia: um verme espiritual

Renato Cardoso novamente, nessa mesma linha, alerta:

[...] Então, como os olhos são a lâmpada do corpo, cuide bem [deles]… Tenha bons olhos. Cuidado com as palavras do mal que trabalham para colocar a malícia em você com respeito às coisas sagradas, às coisas de Deus. Não é só com respeito à oferta, ao dízimo, à igreja, mas com respeito a tudo. [...] Fonte: “De Volta ao Paraíso”: a unção da santificação sobre os olhos

Guaracy Santos, sempre sutilmente preciso em suas defesas da instituição, diz:

Portanto, não nos precipitemos, nem com os erros, nem com as virtudes e muito menos com as informações! Vamos deixar o tempo mostrar quem são, verdadeiramente, as pessoas que estão ao nosso redor. Devemos ter bons olhos para com todos e deixar que Deus trabalhe, pois, como alguém enganará Aquele que não pode ser enganado? Fonte: E os bons olhos?

No portal Universal.org, encontra-se outra matéria tratando sobre o assunto:

Há ainda pessoas que olham para as circunstâncias e para tudo que faz parte da vida sempre com maus olhos: o trabalho, o casamento, a faculdade, a Igreja, a Obra de Deus, etc. A forma como você olha é decisão sua. Por exemplo, se alguém na igreja tratá-lo mal, você pode escolher virar as costas para ela – há até quem deixe de ir à igreja em situações desse tipo – ou você pode olhar com bons olhos e orar por essa pessoa, que possivelmente não está bem, e, quem sabe, até lhe oferecer ajuda. Os bons olhos impedem que situações ruins contaminem seu corpo (a sua mente e pensamentos) e deixem você em trevas. Fonte: Qual o estado da lâmpada do seu corpo?

Edir Macedo, discorrendo sobre a possibilidade de Satanás cegar o entendimento dos crentes, ao tratar sobre 2Co 4.4, afirma:

Em princípio não, por causa do Espírito Santo. Mas quando os mesmos abraçam qualquer tipo de malícia, especialmente o sentimento de desconfiança em outras pessoas da mesma fé, então a tendência de descrença ou disposição de ver tudo com maus olhos, por medo de serem enganados, acaba anulando a capacidade de entender a Palavra de Deus. Isso pode ser natural no reino deste mundo, mas jamais no Reino de Deus, onde todos creem na mesma Palavra. Por conta disso, muitas pessoas boas que não cometem pecados grosseiros acabam sendo contaminadas com o vírus da malícia (desconfiança) e não conseguem desenvolver mais a fé para a salvação da própria alma. Fonte: Malícia

Em síntese, se alguém é criterioso quanto às coisas pregadas e promovidas na Universal, tentando se resguardar de ser enganado, perde a salvação, segundo o seu líder. E ele esclarece com bastante objetividade o que é ter maus olhos:

Como uma pessoa pode ter olhos maus? Ela enxerga as demais de maneira maldosa, seja o pastor, o obreiro ou qualquer outro. Só vê o lado negativo das coisas, as falhas e fraquezas das pessoas. [...] Fonte: Os olhos são como luz para nosso corpo

Em outra matéria do portal Universal.org, define-se que ter maus olhos contra o pastor e as ofertas é um dos maiores entraves na vida de muitos:

Esse tem sido um dos maiores ENTRAVES na vida de muita gente religiosa; veem tudo com maus olhos… Veem o pastor com malícia, veem as ofertas com malícia, veem as demais pessoas com malícia… Fonte: Acenda a luz

Cristiane Cardoso, ao postar uma foto com uma menina que conhecia ela e o Renato pela TV e lhes pediu um abraço, desenvolve:

#tbt de uma criança que só nos conhecia pela TV, mas que nos amava mesmo assim e quando nos viu pela primeira vez, pediu um abraço. Eu pergunto como eram os olhos desta linda menina para com a gente? Bons! E sabe por quê? Porque ela creu no que falávamos… não havia dúvida, questionamentos, desconfiança Os bons olhos estão ligados à fé. Quem sofre com maus olhos é porque não crê, não está na fé, e, portanto, todo seu corpo está em trevas. [...] Os bons olhos realmente iluminam o corpo… é só olhar esse sorriso lindo dela. Fonte: Bons olhos

Essa aprendeu direitinho com o papai. Se duvidar do que eles falam, se questionar, se desconfiar, não está na fé; ao contrário, está em trevas. E isso não fica só no discurso. O que não falta são testemunhos sobre isso sendo continuamente divulgados:

Uma desavença dentro da igreja a fez ter maus olhos da obra de Deus, dos obreiros envolvidos e do pastor. Nesse momento ela desistiu de seguir o Senhor Jesus, rasgou seu uniforme de obreira e se lançou no mundo. Fonte: “Eu rasguei meu uniforme de obreira”

Se você nunca fez parte da Igreja Universal do Reino de Deus, coloque-se no lugar de alguém que, buscando a solução para os problemas da sua vida, foi enredado pela propaganda da Universal e começou a ser ensinado conforme a doutrina doentia dessa instituição, contudo com a aparência de Palavra de Deus. Praticamente todos os dias essa pessoa é bombardeada de falas e pregações dos líderes da IURD acerca do enorme perigo de ter malícia contra eles, que isso são maus olhos, que o problema está nos olhos de quem critica (subjetivamente eximindo quem erra da sua culpa), que isso é pecado e pode levar a alma da pessoa ao inferno mesmo que esteja dentro da igreja fazendo tudo certo.

A maioria dessas pessoas jamais conheceu o evangelho genuíno e, devido a alguma experiência mística ou de mudança básica de comportamento, tiveram alguns de seus problemas resolvidos de pronto e são gratas à Universal. É difícil para essas pessoas dissociarem sua experiência da instituição. Além disso, a Palavra não é ensinada com afinco na IURD, mas apenas usada de forma descontextualizada conforme o interesse da cúpula. E o mais curioso: quando a contextualização lhes interessa, como no caso das suas alegorias do Antigo Testamento para a Fogueira Santa, eles o fazem com excelência, por meio de vídeos explicativos, evidências arqueológicas, referências bíblicas cruzadas e tudo o que tiver direito. Portanto, os fiéis da Universal entendem que se criticarem um erro que estão vendo, estarão indo contra a obra de Deus, contra os homens de Deus e atraindo juízo para si. Além disso, são vários os testemunhos divulgados pela instituição de pessoas que saíram da igreja por causa de "maus olhos" e quebraram a cara no mundo. São pessoas que, infelizmente, estão com as suas mentes e entendimento cativos. Em sua maioria, não são pessoas cegas, como é costumeiro se afirmar. Elas estão vendo os erros, elas estão sentido o coração doer, elas estão sofrendo decepções, elas estão sendo injustiçadas. Todavia, elas se sentem impotentes para se posicionar, quer seja por medo de perder um cargo de grupo/obreiro no qual acham que estão servindo melhor a Deus e ganhando almas, quer seja por temor de serem castigadas pelo Senhor devido aos seus "maus olhos".

Entrando propriamente na análise bíblica, superada a trágica introdução, temos esse texto em dois dos evangelhos sinópticos (Mateus e Lucas) e cada um aparece em um contexto diferente. Isso será maravilhoso, uma vez que analisaremos ambos os contextos e o sentido do texto será, portanto, bastante enriquecido.

O Sermão do Monte é o primeiro dos cinco principais discursos de Cristo registrados no Evangelho de Mateus, o qual se trata de um livro que traz uma perspectiva judaica acerca do cumprimento das profecias sobre o Messias na pessoa de Jesus. Nesse sermão, encontra-se um "resumão" da doutrina cristã. Em Mt 5.3-12, o Senhor trata sobre a natureza do Seu Reino, que se constitui uma absoluta contraposição às características desse mundo corrompido pelo pecado. Em Mt 5.13-16, Ele trata dos impactos que seus discípulos causariam no mundo ao seguirem a doutrina do Reino. Em Mt 5.17-48, Ele apresenta a correta interpretação da Lei, a qual Cristo cumpriu perfeitamente. Em Mt 6.1-18, Ele discorre sobre as práticas religiosas, as quais não devem ser contaminadas pela hipocrisia.

A parir de Mt 6.19, o Senhor trata sobre um assunto extremamente importante para o ser humano: riquezas. Vejamos:

Não acumulem para vocês tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem destroem, e onde os ladrões arrombam e furtam. Mas acumulem para vocês tesouros no céu, onde a traça e a ferrugem não destroem, onde os ladrões não arrombam nem furtam. Pois onde estiver o seu tesouro, aí também estará o seu coração. (Mt 6.19-21)

Mais adiante, há o seguinte texto:

Ninguém pode servir a dois senhores; pois odiará a um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro. (Mt 6.24)

É surpreendente para muitos essa afirmação, mas a verdade tem que ser dita: isso é bastante pregado na Igreja Universal do Reino de Deus. Depois de clamar por conquistas materiais, tocar trombeta, ungir com o "óleo das grandes riquezas", fazer entrada triunfal da arca da aliança, oferta de desafio, colocar farinha na carteira e toda sorte de baboseiras ridículas, o pastor fala que as pessoas não podem se apegar às conquistas delas e que os seus corações devem estar somente em Deus. Parece contraditório? Não é. Quando chegar a Fogueira Santa, outras grandes campanhas, consagração dos dizimistas e o que mais eles inventarem, é em cima disso também que eles vão constranger as pessoas a darem tudo pra instituição.

Voltando ao tema, o que Cristo está afirmando claramente nessas passagens é que os seus discípulos não devem acumular tesouros na terra. Aqueles que não receberam o evangelho em seus corações vivem e morrem atrás de riquezas. Se isso já era verdadeiro naquela época, quão mais gravemente o é na sociedade consumista em que estamos situados atualmente. Não devemos perseguir riquezas. Trabalhamos, lutamos para prover o alimento e a roupa, nos esforçamos para comprar um imóvel para morarmos e um carro para nos locomovermos com mais facilidade, economizamos para fazer uma viagem... Não há problema nisso. Contudo, quando cobiçamos acumular riquezas e esbanjar além do que necessitamos sem nos preocuparmos a necessidade dos menos favorecidos, é sinal de que o nosso coração está nesse mundo. Quando não nos contentamos com o que temos, por mínimo que seja, e ao invés de darmos graças, murmuramos contra o Senhor, é sinal de que o nosso coração está nesse mundo.

Ter o coração nas riquezas desse mundo terreno é uma grande futilidade porque tudo sobre a terra é corruptível e finito. Contudo, quando investimos nossa vida e nosso tempo nas coisas espirituais, acumulamos tesouros no céu. Quanto a isso, não temos com o que nos preocuparmos, uma vez que nossa riqueza celestial estará segura. Ela é incorruptível, como bem disse o apóstolo Paulo (1Co 9.25).

Cristo também fala sobre a impossibilidade de servir a dois senhores. Isso traz à memória a repreensão de Elias ao povo de Israel no Monte Carmelo: "Até quando vocês vão oscilar entre duas opiniões? Se o Senhor é Deus, sigam-no; mas, se Baal é Deus, sigam-no" (1Rs 18.21). Não há como servir a Deus e ao mesmo tempo viver perseguindo riquezas terrenas. O Altíssimo requer dedicação exclusiva. Conforme o profeta Hanani falou ao rei Asa: "os olhos do Senhor estão atentos sobre toda a terra para fortalecer aqueles que lhe dedicam totalmente o coração" (2Cr 16.9). Quem busca acumular tesouros terrenos para si nunca será capaz de dedicar o coração totalmente a Deus, pois a cobiçosa ganância nunca se satisfaz. Sempre há mais para comprar, sempre há mais para conquistar, sempre há mais para usufruir. Alguém que não está satisfeito no Senhor, que não vive com contentamento, sempre terá preocupações enchendo o seu coração, o qual deveria ser dedicado totalmente ao Senhor. É por isso que Cristo continua o seu ensino, com o conectivo "portanto", dizendo:

Portanto, eu lhes digo: não se preocupem com suas próprias vidas, quanto ao que comer ou beber; nem com seus próprio corpos, quanto ao que vestir. Não é a vida mais importante do que a comida, e o corpo mais importante do que a roupa? [...] Quem de vocês, por mais que se preocupe, pode acrescentar uma hora que seja à sua vida? [...] Portanto, não se preocupem, dizendo: "Que vamos comer?" ou "que vamos beber?" ou "que vamos vestir?" Pois os pagãos é que correm atrás dessas coisas, mas o Pai celestial sabe que vocês precisam delas. Busquem, pois, em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas lhes serão acrescentadas. Portanto, não se preocupem com o amanhã, pois o amanhã se preocupará consigo mesmo. Basta a cada dia o seu próprio mal. (Mt 6.25,27,31-34)

Os pagãos, ou seja, aqueles que não conhecem o Eterno e vão adianta outros deuses, incluindo as riquezas, correm atrás dessas coisas terrenas. Nós, ao contrário, trabalhamos, dedicamo-nos profissionalmente, mas sabemos que é o Pai que sabe do que nós realmente precisamos e podemos com segurança nos empenharmos em buscar o Reino de Deus e a sua justiça acima de tudo, inclusive do trabalho e das tentativas de comprar nossas coisas, sabendo que a nossa provisão virá do Senhor.

É no meio de todo esse contexto que encontramos o texto dos maus olhos no Evangelho de Mateus. Após falar dos tesouros na terra e antes de falar sobre os dois senhores, Cristo disse o seguinte:

Os olhos são a candeia do corpo. Se os seus olhos forem bons, todo o seu corpo será cheio de luz. Mas se os seus olhos forem maus, todo o seu corpo será cheio de trevas. Portanto, se a luz que está dentro de você são trevas, que tremendas trevas são! (Mt 6.22-23)

Há um ditado que diz que os olhos são a janela da alma e a vitrine do coração. De fato, Cristo corrobora essa afirmação. A pessoa que está buscando acumular tesouros na terra tem seus olhos fixos no dinheiro. Toda a sua atenção e dedicação estão voltadas para as riquezas. É esse o norte da sua vida e aí está o seu coração. Portanto, seu corpo, isto é, toda a sua vida, está em trevas, pois não seus olhos não receberam a luz do Filho de Deus, que é a Palavra encarnada (Jo 1.14), e, conforme disse o salmista Davi: "A tua palavra é lâmpada que ilumina os meus passos e luz que clareia o meu caminho" (Sl 119.105). Quem ainda não foi iluminado pelo evangelho de Jesus Cristo não viu a luz e está em trevas. Contudo, aqueles que têm os olhos fixos no Senhor, receberam da Sua luz e têm o direcionamento correto para suas vidas.

O apóstolo João ensinou algo relacionado a isso:

Não amem o mundo nem o que nele há. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele. Pois tudo o que há no mundo - a cobiça da carne, a cobiça dos olhos e a ostentação dos bens - não provém do Pai, mas do mundo. O mundo e a sua cobiça passam, mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre. (1Jo 2.15-17)

João ensinou a Igreja em sua primeira epístola exatamente aquilo que ele recebeu diretamente do Senhor durante o Seu ministério terreno. Quando fala sobre o amor ao mundo em contraposição ao amor do Pai, ele está remetendo ao ensino dos dois senhores. Quando fala sobre a cobiça dos olhos e a ostentação dos bens, está falando sobre os maus olhos. Quando fala sobre a brevidade do mundo e da sua cobiça em contraposição à permanência eterna de quem faz a vontade de Deus, está falando sobre acumular tesouros no céu ao invés de terrenos.

Nesse ponto, não poderíamos deixar de refletir na última frase da fala de Jesus: "Portanto, se a luz que está dentro de você são trevas, que tremendas trevas são!" (Mt 6.23). Oportuno, portanto, transcrever as palavras do Dr. Martyn Lloyd-Jones, extraídas de seu livro Estudos no Sermão do Monte:

Essa é uma questão envolta em sutilezas tão grandes que muitos dentre nós perdem-na totalmente de vista, nestes nossos dias. Alguns de nós se opõem violentamente àquilo que temos intitulado de "materialismo ateu". Porém, a fim de não nos sentirmos demasiadamente felizes conosco, somente porque nos opomos a tal ideia, cumpre-nos entender aquilo que a Bíblia nos ensina, isto é, que todo e qualquer materialismo é ateu. Não podemos servir a Deus e às riquezas; isso é uma impossibilidade. Por conseguinte, se alguma atitude materialista estiver verdadeiramente nos controlando, então é que somos indivíduos ímpios, sem importar o que viermos a dizer. Há muitos indivíduos ateus, mas que falam usando vocábulos da linguagem religiosa; mas nosso Senhor ensina-nos aqui que ainda pior do que o materialismo ateu é aquele materialismo que se julga piedoso - "... caso a luz que em ti há sejam trevas, que grandes trevas serão!" O homem que pensa que é piedoso somente porque fala a respeito de Deus, somente porque afirma acreditar em Deus, que frequenta algum lugar de adoração ocasionalmente, mas que, na realidade, está vivendo para determinadas coisas terrenas - quão espessas são as trevas em que esse homem está vivendo! [...] Que terrível é essa situação. Ela me deixa alarmado. Não é o que dizemos que realmente importa. No último dia, muitos haverão de dizer: "Senhor, Senhor, não fizemos isto, aquilo e mais aquilo?" Mas Jesus responderá aos tais: "Eu nunca conheci a vocês". "Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus" (Mateus 7:21). A quem você está servindo? Essa é a pergunta que se impõe. Pois você terá de estar servindo a Deus ou às riquezas. Em última análise, nada existe de tão insultuoso a Deus do que tomarmos o seu nome, e, não obstante, mostrarmos claramente que estamos servindo às riquezas, de uma maneira ou de outra. Essa é a mais terrível coisa que existe. Esse é o pior dos insultos contra Deus; e quão fácil e inconscientemente podemos todos tornar-nos culpados desse erro. Fonte: Estudos no Sermão do Monte [4ª ed. 1999], págs. 378-379

No quarto dentre os principais discursos de Jesus no Evangelho de Mateus, Cristo apresenta as qualidades que deveriam estar presentes na comunidade dos seus seguidores, que viria a ficar conhecida como Igreja. Em Mt 18.1-5, Ele destaca a humildade. Em Mt 18.6-14, Ele trata da responsabilidade para com os pequeninos na fé. Em Mt 18.15-20, Ele fala acerca da disciplina quando alguém pecar. Em Mt 18.21-34, Ele enfatiza a abundância do perdão. Em Mt 19.1-12, Ele afirma a irrevogabilidade do voto matrimonial. Em Mt 19.13-15, Ele repreende seus discípulos por tentarem impedir as crianças de chegarem a Ele.

Nesse ponto, um jovem rico surge questionando-O sobre o que fazer para herdar a vida eterna (Mt 19.16-22). Cristo intencionalmente cita os mandamentos da Lei, os quais o jovem afirma que observava integralmente. Contudo, quando Jesus diz para ele se desfazer das suas riquezas para segui-Lo, aquele jovem se retira entristecido, provando-se, assim, que ele servia às riquezas, e não a Deus, conforme ele pensava fazer.

Nesse momento, Pedro questiona o que seria dos discípulos que largaram tudo para seguir o Senhor, ao passo em que Cristo responde que eles receberiam muito mais do que abandonaram e herdariam a vida eterna, mas que deveriam estar cientes de que muitos primeiros seriam últimos e muitos últimos, primeiros (Mt 19.27-30). Então, Jeus conta a seguinte parábola relacionada a esse contexto, a qual será transcrita na versão ACF, que traduz literalmente uma expressão original importante para essa análise, enquanto outras versões costumas parafraseá-la para serem mais claras:

Porque o reino dos céus é semelhante a um homem, pai de família, que saiu de madrugada a assalariar trabalhadores para a sua vinha. E, ajustando com os trabalhadores a um dinheiro por dia, mandou-os para a sua vinha. E, saindo perto da hora terceira, viu outros que estavam ociosos na praça, e disse-lhes: Ide vós também para a vinha, e dar-vos-ei o que for justo. E eles foram. Saindo outra vez, perto da hora sexta e nona, fez o mesmo. E, saindo perto da hora undécima, encontrou outros que estavam ociosos, e perguntou-lhes: Por que estais ociosos todo o dia? Disseram-lhe eles: Porque ninguém nos assalariou. Disse-lhes ele: Ide vós também para a vinha, e recebereis o que for justo. E, aproximando-se a noite, disse o senhor da vinha ao seu mordomo: Chama os trabalhadores, e paga-lhes o salário, começando pelos derradeiros, até aos primeiros. E, chegando os que tinham ido perto da hora undécima, receberam um dinheiro cada um. Vindo, porém, os primeiros, cuidaram que haviam de receber mais; mas do mesmo modo receberam um dinheiro cada um. E, recebendo-o, murmuravam contra o pai de família, dizendo: Estes derradeiros trabalharam só uma hora, e tu os igualaste conosco, que suportamos a fadiga e a calma do dia. Mas ele, respondendo, disse a um deles: Amigo, não te faço agravo; não ajustaste tu comigo um dinheiro? Toma o que é teu, e retira-te; eu quero dar a este derradeiro tanto como a ti. Ou não me é lícito fazer o que quiser do que é meu? Ou é mau o teu olho porque eu sou bom? (Mt 20.1-15)

Como dito anteriormente, em muitas traduções bíblicas essa expressão original é parafraseada, conforme demonstra o teólogo John Piper (tradução livre):

Infelizmente, a última cláusula é uma paráfrase total, não uma tradução. “Ou você inveja minha generosidade” é uma paráfrase muito solta de “Ou seu olho é mau porque eu sou bom (ë ho ophthalmos sou ponëros estin hoti egö agathos eimi?)” O “olho mau” aqui é paralelo ao “olho mau” em Mateus 6:23. Fonte: What Is the "Bad Eye" in Matthew 6:23?

Os olhos daqueles primeiros trabalhadores, por serem maus, isto é, estarem em trevas, só conseguiam enxergar o dinheiro, o salário, a quantidade de riquezas que poderiam acumular. Eles não conseguiam enxergar a bondade daquele pai de família ao ser generoso com todos os trabalhadores indistintamente. Eles não conseguiam enxergar que ele não estava sendo injusto com eles, mas cumprindo o que prometeu. Eles não conseguiam enxergar que, se não fosse aquele pai de família, eles estariam provavelmente sem trabalho naquele dia e, portanto, não receberiam nada. Por servirem ao dinheiro, seus olhos eram maus e, assim, todo o seu corpo estava em trevas. A luz da bondade, da generosidade, da graça e da gratidão não estava em seu olhar para iluminar suas vidas.

Essa mesma lição aparece também no Evangelho de Lucas. Apesar de todos os milagres que Cristo já havia realizado, os principais dos escribas e fariseus O estavam tentando a realizar um sinal cósmico, a fim de usarem isso como acusação contra Ele, ao passo em que o Senhor respondeu:

Aumentando a multidão, Jesus começou a dizer: "Esta é uma geração perversa. Ela pede um sinal miraculoso, mas nenhum sinal lhe será dado, exceto o sinal de Jonas. Pois assim como Jonas foi um sinal para os ninivitas, o Filho do homem também o será para esta geração. A rainha do Sul se levantará no juízo com os homens desta geração e os condenará, pois ela veio dos confins da terra para ouvir a sabedoria de Salomão, e agora está aqui o que é maior do que Salomão. Os homens de Nínive se levantarão no juízo com esta geração e a condenarão; pois eles se arrependeram com a pregação de Jonas, e agora está aqui o que é maior do que Jonas". (Lc 11.29-32)

Aqueles líderes religiosos viram Jesus em forma humana, face a face. Eles puderam ouvir o Seu ensino diretamente da Sua boca. Eles puderam conversar com Ele presencialmente. Eles puderam contemplar todos os sinais e prodígios realizados pelo Messias. Eles puderam verificar cada profecia sendo cumprida em Cristo. Contudo, não creram. Eles não foram iluminados pelo evangelho do Senhor Jesus, embora a Palavra estivesse tão perto deles, na boca do próprio Emanuel. Por isso, afirmou o Salvador:

Ninguém acende uma candeia e a coloca em lugar onde fique escondida ou debaixo de uma vasilha. Pelo contrário, coloca-a no lugar apropriado, para que os que entram possam ver a luz. Os olhos são a candeia do corpo. Quando os seus olhos forem bons, igualmente todo o seu corpo estará cheio de luz. Mas quando forem maus, igualmente o seu corpo estará cheio de trevas. Portanto, cuidado para que a luz que está em seu interior não sejam trevas. Logo, se todo o seu corpo estiver cheio de luz, e nenhuma parte dele estiver em trevas, estará completamente iluminado, como quando a luz de uma candeia brilha sobre você. (Lc 11.33-36)

O comentarista Matthew Henry faz uma brilhante exposição desse texto, a qual é transcrita a seguir:

[...] A candeia do corpo é o olho (v. 34), que recebe a luz da candeia quando ela é trazida para a sala. Assim a luz da alma é o entendimento e o julgamento, e seu poder de discernir entre o bem e o mal, a verdade e a falsidade. Agora, assim como é a candeia, também a luz da revelação divina é para nós, e somos beneficiados por ela; é um aroma de vida para a vida, ou de morte para a morte. (1) Se este olho da alma for simples, se ele vir claramente, vir as coisas como elas são, e julgar imparcialmente a respeito delas, se ele mirar somente a verdade, e buscá-la por amor a ela, e não tiver nada tenebroso - aparências e intenções - todo o corpo, isto é, toda a alma, será luminosa, receberá e abrigará o Evangelho. Este precioso Evangelho levará para dentro da alma o conhecimento e a alegria. Isto denota a mesma coisa que a parábola da boa terra, recebendo a palavra e entendendo-a. Se nosso entendimento aceitar o Evangelho em sua plena luz, ela encherá a alma, e tem o bastante para enchê-la. E, se a alma for assim cheia com a luz do Evangelho, não tendo nenhuma parte em trevas - se todas as suas forças e capacidades forem sujeitas ao governo e à influência do Evangelho, e nada for deixado impuro - então toda a alma será luminosa, cheia de santidade e consolação. Ela era apenas trevas, mas agora é luz no Senhor, como quando o brilho forte de uma candeia ilumina com seu esplendor; v.36. Note que o Evangelho entrará nas almas cujas portas e janelas estiverem completamente abertas para recebê-lo; e onde ele for, levará a luz consigo. Mas: (2) Se o olho da alma for mau - se o julgamento for subornado e predisposto por disposições corruptas e maldosas da mente, pelo orgulho e pela inveja, pelo amor ao mundo e aos prazeres sensuais - se o entendimento for prejulgado contra as verdades divinas, e decidido a não aceitá-las, embora trazidas com evidências tão convincentes - não é de se admirar que todo o corpo, toda a alma, esteja em trevas; v. 34. Como eles podem ter instrução, informação, direção e conforto, do Evangelho, contra o qual intencionalmente fecham os seus olhos? E que esperança há nisso? Que remédio há para eles? A consequente inferência, portanto, é: Vê, pois, que a luz que em ti há não sejam trevas; v. 35. Veja que o olho da mente não seja cegado pela parcialidade, pelo prejulgamento, e por objetivos pecaminosos. Seja sincero em sua busca da verdade, e pronto para recebê-la na luz, no amor, e no poder da Palavra de Deus; e não seja como os homens desta geração a quem Cristo pregou, que nunca desejarem sinceramente conhecer a vontade de Deus, nem tiveram o propósito de fazê-lo. Portanto, não é de admirar que eles andem em trevas, vaguem infinitamente, e estejam eternamente perdidos. Fonte: Comentário Bíblico de Matthew Henry - Volume V - Mateus a João [1ª ed. 2008], págs. 614-615

Diante de todo o exposto, resta evidenciado que os maus olhos de que Jesus falou não têm absolutamente nada a ver com perceber os erros dos líderes de uma instituição religiosa e se posicionar cobrando mudanças, adequação às Escrituras ou mesmo rompendo com essa comunidade em virtude da sua obstinação e ausência de arrependimento. Conforme temos demonstrado exaustivamente em vários artigos deste site, há inúmeros ensinos bíblicos acerca do julgamento da conduta e do ensino dos líderes na Igreja de acordo com a Bíblia Sagrada e do combate aos falsos mestres que corrompem a sã doutrina dos apóstolos.

Posteriormente, trataremos especificamente de um post do bispo Sérgio Correa que relaciona os "maus olhos" com o episódio de Miriã e Arão contra Moisés. Trataremos, portanto, exclusivamente da argumentação dele sobre essa outra passagem bíblica.


Nota: transcrições bíblicas extraídas da Bíblia Sagrada, Nova Versão Internacional ®, NVI ® Copyright © 1993, 2000, 2011 by Biblica, Inc., exceto aquelas cujas descrições indiquem versão diversa.


REFERÊNCIAS OFICIAIS DA UNIVERSAL:

1. Duas formas de receber, publicado em 06/09/20.

2. Que tipo de olhos você tem?, publicado em 06/09/2011.

3. E os bons olhos?, publicado em 26/10/2012.

4. O mal que entra pelos olhos, publicado em 19/08/2013.

5. Malícia, publicado em 20/09/2019.

6. Malícia: um verme espiritual, publicado em 07/01/2020.

7. Qual o estado da lâmpada do seu corpo?, publicado em 09/02/2020.

8. Os olhos são como luz para nosso corpo, publicado em 14/06/2020.

10. Bons olhos, publicado em 06/05/2021.

12. O que fazer para evitar os maus olhos?, publicado em 16/02/2022.

13. Bons olhos: corpo iluminado, publicado em 27/03/2022.

15. “Eu rasguei meu uniforme de obreira”, publicado em 13/07/2023.

16. A malícia dos olhos, publicado em 20/08/2023.

17. O problema pode estar nos seus olhos, publicado em 27/09/2023.

19. Como pesar a sua alma, publicado em 08/05/2024.

21. O sucesso começa com o olhar, publicado em 13/08/2024.

22. Acenda a luz, sem data de publicação informada.

23. Maus olhos e palavras negativas, sem data de publicação informada.


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