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Texto fora de contexto é pretexto para heresia

Deus se comunica com a humanidade por meios que o homem possa entender a Sua mensagem. A maior prova disso foi Cristo: o Verbo (Palavra, do latim “Verbum”) encarnado (Jo 1.1-18). Para que o Pai fosse plenamente revelado às suas criaturas, foi necessário que Cristo se despisse de sua glória e ensinasse aos homens na forma humana para que, desse modo, os mandamentos divinos e seu plano de salvação pudessem ser compreendidos devidamente. 

Vemos ao longo de toda a Bíblia o uso de diversos recursos linguísticos e literários que permitiam o entendimento do homem acerca das verdades divinas. A própria revelação de Deus se dá progressivamente ao longo da História, por formas didáticas, até chegar ao seu ápice com Jesus. 

Um exemplo claro é que Cristo é considerado “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29). Essa afirmação é plenamente compreensível dentro de um contexto em que pessoas reconhecem que são pecadoras e que, para que possam se aproximar do Deus Santíssimo, é necessário que tenham seus pecados expiados; e isso ocorre por meio do sacrifício de animais inocentes que pagam o preço do pecado (a morte – Rm 6.23) de quem lhe oferece. Ainda, de modo mais contundente, o cordeiro é o símbolo-chave da Páscoa, que comemorava a libertação dos hebreus da servidão do Egito na décima praga (o anjo da morte que feriu os primogênitos do Egito), da qual foram livrados todos quantos sacrificaram um cordeiro e marcaram os umbrais das suas portas com o seu sangue. 

O autor da epístola aos hebreus traça esse mesmo raciocínio, demonstrando que as observações do Antigo Testamento eram como sombras daquilo que viria a ser revelado de forma plena – Jesus Cristo (Hb 9.23-10.18). Se não houvesse todo esse contexto em torno da afirmação de que o Senhor Jesus era “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29), muito dificilmente os ouvintes dessa mensagem entenderiam o seu real significado. Sendo assim, em que creriam? Como creriam?

O idioma humano como método da revelação divina

Quando falamos a alguém, queremos que essa pessoa entenda perfeitamente a mensagem que estamos transmitindo. Para tanto, é preciso lançarmos mão de métodos de comunicação que permitam isso. Deus escolheu a língua para revelar Sua mensagem aos homens e sempre Se adaptou aos contextos histórico-culturais dos destinatários primários em cada ocasião distinta. Portanto, para entender plenamente a Sua mensagem, precisamos identificar o contexto em que cada texto está inserido.

Contexto linguístico

Em breve síntese, o sistema linguístico tem sua semente nos signos, que se compõem de significante e significado. O signo água, na língua portuguesa, possui um elemento material (a palavra pronunciada e/ou escrita) e um elemento conceitual (o conceito próprio, a imagem abstrata do que seja a água). Ele se constitui a partir da valoração que um determinado grupo social dá a ele. Um exemplo bíblico para isso é o relato contido no Gênesis de que o homem foi convocado por Deus a dar um nome para cada ser vivo (Gn 2.19-20). Essa é a razão pela qual, quando nos comunicamos com alguém que fale outra língua, precisamos conversar em um idioma que ambos dominem. Não adianta eu falar “água” para um inglês que não fale em língua portuguesa. Ele só vai entender o significado que eu quero transmitir se eu utilizar o significante “water”. 

Podemos, ainda, ir além e identificar que a evolução linguística admite modificações do signo ao longo do tempo dentro de uma mesma língua. No passado, quando algum falante da língua portuguesa queria se referir diretamente a alguém, mas, por sua distinção real ou nobre, não considerava apropriado tratá-lo por pronome comum, referia-se à pessoa por “Vossa Mercê”. Com o tempo, passou-se a utilizar “Vossemecê”, depois “Vosmecê”, e depois “Você”. Hoje em dia, esse pronome perdeu o sentido distinto e seu uso pode até ser considerado desrespeitoso em algumas situações. Com o advento dos meios de comunicação pela internet, especialmente as redes sociais, surgiram ainda as formas “Vc”, “Cê” ou mesmo “C”, absolutamente informais, mas plenamente compreensíveis. 

O exemplo acima se refere à evolução de um termo da língua portuguesa em apenas alguns séculos. Imagine, pois, o perigo de se descontextualizar um signo de milênios atrás, como os que compõem as Escrituras Sagradas. Pior: de outras línguas que não a nossa! Não é preciso sequer ir muito longe. Dentro do espectro da própria língua portuguesa, cada país falante dessa língua possui especificidades e significados próprios para os mesmos significantes. Inclusive, dentro dos próprios países, cada região apresenta peculiaridades nesse mesmo sentido. 

Pois bem, o signo é apenas a semente da língua. O conjunto desses signos forma o léxico linguístico. A sintaxe, por sua vez, corresponde às regras que vão definir como os signos se relacionam dentro de orações, frases, parágrafos, textos, por meio da concordância, regência, colocação, análise sintática… São muitos os elementos linguísticos a serem levados em consideração para uma correta interpretação textual. 

Outro fator importante a ser observado é a tipologia textual. Aqui há uma abordagem mais complexa que difere cada tipo de gênero e aprofunda sua análise, de forma ainda mais específica, sobre um grupo literário dentro do universo dos textos em geral. O importante é entender que a intenção por detrás de cada texto define sua forma e os recursos empregados para tanto. Sendo assim, pelos elementos típicos do texto que tenho diante de mim, posso entender a intenção do seu autor com aquela mensagem.

Olhando para o universo dos textos bíblicos, percebemos que os livros históricos são predominantemente narrativos, traçando uma linearidade dos acontecimentos ao longo dos tempos. Os livros proféticos costumam usar muitas simbologias, de modo que os seus ouvintes possam, de algum modo, compreender com a sua mentalidade o que há de acontecer no futuro ou em uma conjuntura diferente. Os livros poéticos e de sabedoria são predominantemente líricos, com linguagem figurada em abundância, provérbios sucintos, entre outros. E por aí vai…

Contexto extralinguístico

Contudo, além de todo esse contexto linguístico, precisamos também considerar o contexto extralinguístico. Há determinados elementos que estão fora do texto, mas auxiliam na correta compreensão do texto. Ele diz respeito aos elementos históricos, culturais e sociais do ambiente em que o texto se produz. 

Um exemplo: um texto fala sobre um homem que morava em Brasília e passou semanas inteiras vestindo apenas camisas da Seleção Brasileira. Se identificarmos que esse texto foi escrito em meados de 2014 por um jornalista esportivo, podemos inferir apropriadamente que se trata de um amante de futebol que estava numa torcida desenfreada pela vitória da Seleção Brasileira na Copa do Mundo. Se, por outro lado, identificarmos que esse texto foi escrito no período eleitoral de 2022 por um analista político, haveremos de inferir que se trata de algum ideólogo ligado à direita brasileira.

Examinando o contexto de um texto bíblico

Quando nos deparamos com um texto bíblico, precisamos ter o cuidado de examinar os elementos linguísticos que o compõem. Quem é o autor do texto? A quem ele se destina? Em que contexto essa mensagem é escrita? Quais os demais assuntos desse livro que estão interligados ao texto em questão? Qual o propósito do autor com essa mensagem? Unida a essa análise do contexto linguístico, a análise do contexto extralinguístico é igualmente imprescindível.

Lembro-me de um caso de grande repercussão em 2007 que foi objeto de uma matéria de um importante noticiário dominical (veja aqui). Um pedreiro, casado, em uma região mais humilde da Grande Vitória (ES), que se autodenominava pastor, foi informado por uma senhora, casada, que frequentava seus cultos que ela teve um sonho profético de que haveria de ter filhos dele. O pastor, então, conversou com o marido dela, o qual consentiu com o adultério, e oraram ao Espírito Santo para que tivesse misericórdia deles, pois era uma coisa muito séria. Quando questionado pelo repórter, o pastor desafiou que alguém lhe provasse biblicamente onde estava a proibição para o homem ter mais de uma mulher. O repórter, então, pede a base bíblica do pastor para essa prática: “E o Senhor me disse: Vai outra vez, ama uma mulher, amada de seu amigo e adúltera…” (Os 3.1 – tradução similar à versão da Bíblia desse pastor). Onde está o termo “adúltera” o pastor lê “adultera”. O repórter, então, logo expõe ao pastor o erro grave de interpretação e entrevista outro pastor, mais instruído na Palavra, que demonstra o completo equívoco nesse caso. 

Note-se que o primeiro e mais grave erro desse pastor foi não identificar corretamente o signo. O significante “adultera” significa, em termos simplórios, o ato, que neste caso estaria sendo determinado pelo Senhor. Já o significante “adúltera” significa a qualidade da mulher a quem o Senhor manda o profeta amar, e em hipótese alguma indica que o profeta deva adulterar. 

Além disso, se o pastor tivesse continuado um pouquinho mais a leitura, encontraria o seguinte complemento para essa afirmação: “... como o Senhor ama os filhos de Israel, embora eles olhem para outros deuses e amem os bolos de uvas” (Os 3.1 – tradução similar à versão da Bíblia desse pastor). Portanto, a atitude do homem está correspondendo à atitude de Deus e a da mulher está correspondendo aos filhos de Israel, sendo que o verbo que conecta o Senhor aos filhos de Israel é “amar”, e não “adulterar”. Portanto, por mais que a interpretação do pastor não alcançasse o acento agudo de “adúltera”, ele haveria de pensar duas vezes antes de considerar que Deus adultera, caso tivesse continuado a leitura do versículo. 

Ainda, se considerarmos o contexto geral do livro do profeta Oseias, veremos que ele foi levantado por Deus com o propósito de denunciar a infidelidade do povo de Israel para o com o Senhor. Por isso, foi ordenado que ele se casasse com uma adúltera, para que figurasse a relação de Deus com Israel, pois, embora o Senhor fosse fiel e tratasse com amor o Seu povo, o que Ele recebia em troca era infidelidade na forma de idolatria e corrupção. No versículo citado pelo pastor, inclusive, Deus fala ao seu profeta que, apesar de a mulher ter adulterado com outro homem, Oseias deveria novamente amá-la, assim como o Senhor, apesar da infidelidade do Seu povo, sempre torna a amá-lo. 

Adicione-se a isso o fato de que a Bíblia é repleta de restrições ao adultério, do Antigo ao Novo Testamento, condenando veementemente essa prática e proferindo juízo contra os que assim procedem. Se “Toda a Escritura é inspirada por Deus” (2Tm 3.16) e, portanto, trata-se da Palavra única de Deus, que não pode se contradizer, um texto bíblico deve ser interpretado em harmonia com todos os demais.

Interpretando o texto bíblico corretamente

A prevenção contra uma interpretação bíblica equivocada é a exegese. Somos tentados, por natureza, a ter uma ideia preconcebida e utilizar malabarismos para inseri-la no texto. Se estou com o coração partido por um amor não correspondido, de cada música que eu ouvir eu vou procurar extrair um significado melancólico, por mínima que seja a referência a isso. Se, por outro lado, estou tomado por uma enorme paixão por alguém, de tudo eu vou buscar retirar um significado de amor. Não podemos tratar a Palavra de Deus dessa maneira. Ela não é a gosto do freguês. 

A hermenêutica bíblica é um conjunto de ferramentas com a finalidade de extrair o real significado do texto bíblico, de forma coerente, sistemática e harmoniosa, de modo a evitar que o leitor imprima no texto suas impressões, mas que, ao contrário, o texto atinja no leitor o seu propósito. Ela é importantíssima no estudo da Palavra de Deus, assim como no combate às heresias propagadas aos montões no meio cristão. 

Portanto, quando um texto bíblico é retirado do seu contexto original, ele vira um mero pretexto, isto é, um subterfúgio em que se apoia uma heresia, que consiste em um ensino antibíblico. Para que se sustente uma doutrina/prática biblicamente verdadeira, é necessário mais do que a mera citação de um texto bíblico. A interpretação que está sendo dada a ele precisa estar de acordo com o contexto em que ele está escrito e em harmonia com todo o sistema das Escrituras Sagradas.


Nota: transcrições bíblicas extraídas da Bíblia Sagrada, Nova Versão Internacional ®, NVI ® Copyright © 1993, 2000, 2011 by Biblica, Inc., exceto aquelas cujas descrições indiquem versão diversa.

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