Do "altar" vem o sustento de quem usa a fé?
- universalheresias
- 26 de ago. de 2024
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Se há uma palavra repetida incansavelmente na IURD, esta é "altar". Os bispos e pastores da instituição nutrem uma doentia obsessão por esse termo. Na política brasileira, costumamos dizer que tudo acaba em "pizza". Nos discursos dos líderes da Igreja Universal do Reino de Deus, tudo acaba em "altar". Os fiéis sempre são convocados a "irem para o altar".
Em primeiro lugar, é necessário ter em mente o que a Universal entende por "altar". Como é bem sabido, Edir Macedo e cia. comungam da ideia de que os sacrifícios não foram anulados por Jesus. Ele inventa uma divisão entre sacrifícios por pecados e sacrifícios de prova com Deus. Portanto, embora reconheça não haver mais sacrifícios para expiação de pecados, entende que ainda permaneceriam vigentes a suposta categoria de sacrifícios de prova com Deus. Para entender melhor o assunto, sugiro a leitura dos artigos da categoria "Sacrifícios".
Sendo assim, a plataforma elevada de onde os bispos e pastores da instituição realizam as suas reuniões é considerada um "altar". Eles não recriam todo o sistema mosaico, mas apresentam esse altar como um símbolo geral do santuário do Deus de Israel. É no "altar" que se sacrifica (não mais animais, agora é dinheiro), mas ao mesmo tempo ele é o lugar onde a pessoa pode se encontrar com Deus (o que corresponderia ao Lugar Santíssimo da Tenda do Encontro). Segundo o próprio líder da IURD, este é o significado do "altar" dos templos da sua denominação:
O Altar é lugar de: - Entrega - Sacrifício - Aliança - Verdade - Sinceridade Lugar onde nos colocamos na dependência de Deus; Lugar onde colocamos Deus acima de tudo; Lugar dos poucos escolhidos; Lugar dos revoltados com tanta injustiça; Lugar que separa o joio do trigo. No Altar recebemos: - Salvação - Vida abundante - Vida nova - Amor verdadeiro - Paz verdadeira - Justiça de Deus - Visão de Deus - Sonhos de Deus - Pensamentos de Deus - Força e ânimo - Fé sobrenatural - Cura de enfermidades incuráveis - Capacidade para vencer - O Encontro com Deus - O Espírito de Deus Fonte: O Altar é maior
O mais adequado seria: "Fonte: vozes da cabeça dele". É muito fácil falar. Por outro lado, provar sistemática e consistentemente nas Escrituras passa longe deles. E o povo da Universal, que não estuda as Escrituras nem tampouco é incentivado a isso, assimila tudo como sendo a Palavra de Deus, sem questionamentos.
Vejamos a seguinte declaração do líder da instituição, Edir Macedo, que sintetiza bem a ideia geral propagada em todas as suas unidades ao redor do mundo:
Muitos são chamados para chegar ao Altar, mas poucos são os escolhidos para subir nEle. A característica de um escolhido é a fé, a convicção, a certeza… E o Operador da fé no interior do escolhido é o Espírito da Fé, o Mesmo Espírito do Altar. A partir de então, os sonhos e projetos brotam do mais profundo ser. Quem está imbuído do Espírito da Fé não se importa com o sacrifício no Altar porque está convicto de que do Altar virá o melhor (1 Coríntios 9.13). Os sonhos da fé só se realizam mediante o sacrifício. [...] Quem quiser realizar o sonho da fé tem de subir no Altar e sacrificar. É claro, enquanto a pessoa estiver disposta a administrar problemas ou esperar mais tempo para realizar seus sonhos, ela não pode nem deve tentar andar no caminho da Fé. Entretanto, os que se encontram nos limites do desespero e não têm mais onde e a quem recorrer, então só resta uma única alternativa: subir no Altar e sacrificar. Quem tem fé para subir e sacrificar terá fé para realizar os seus sonhos. Fonte: Os Escolhidos do Altar
No mesmo sentido, o bispo Jadson Santos:
“A pessoa que tem o Altar, tem Deus. O Altar é lugar de mudança de vida, ele é que te sustenta, dá tudo o que você precisa: um casamento forte, saúde forte, vida espiritual forte. Por isso que o diabo odeia o Altar e faz de tudo para lhe tirar dele”, explicou o Bispo Jadson Santos. Fonte: O que o Altar tem a ver com o seu sucesso?
Ambos utilizam como base bíblica para tais afirmações um versículo que afirma que "os que servem diante do altar participam do que é oferecido no altar" (1Co 9.13). À luz do que temos falado incansavelmente ao longo dos artigos deste projeto, é necessário que compreendamos o contexto em que os versículos estão, a fim de que compreendamos qual o seu real significado. Para aqueles que ainda não leram, recomendo fortemente que iniciem a sua jornada de leitura pela categoria Hermenêutica Bíblica. Sobre esse tema de texto e contexto, minha recomendação, em específico, é do artigo Texto fora de contexto é pretexto para heresia.
Pois bem, Paulo passou cerca de 1,5 ano em Corinto (ou mais, a depender da interpretação de At 18.18), onde plantou uma igreja e cuidou instruiu os irmãos daquele lugar na doutrina cristã (At 18.11), durante a sua segunda viagem missionária. Ao que tudo indica, Paulo escreve a sua primeira carta aos coríntios ao final das suas atividades ministeriais em Éfeso, quando da sua terceira viagem missionária, enviando-a a Corinto por meio de Timóteo e Erasto (At 19.21-22; 1Co 16.5-10). Nessa carta, ele trata de problemas acerca dos quais foi informado por algumas pessoas da casa de Cloe (1Co 1.11), cuja identidade desconhecemos, mas presumimos ser um grupo da própria Igreja de Corinto ou então um grupo da Igreja de Éfeso, em que Paulo estava, que tinha ligação com pessoas da Igreja de Corinto. Também são abordadas questões que, ao que tudo indica, foram feitas pelos próprios crente de Corinto a ele (1C o 7.1). O apóstolo trata primeiramente das divisões internas entre os coríntios sobre as suas predileções acerca de alguns pregadores (1Co 1 - 4). Em seguida, ele os exorta acerca da imoralidade que havia entre eles (1Co 5). Ele também fala sobre as brigas fúteis entre os irmãos que eram levadas ao juízo romano (1Co 6) e sobre casamento, divórcio, viuvez, entre outros (1Co 7).
A partir do capítulo 8, Paulo doutrina a Igreja de Corinto acerca de comidas sacrificadas aos ídolos. Assim ele introduz o tema:
Com respeito aos alimentos sacrificados aos ídolos, sabemos que todos temos conhecimento. O conhecimento traz orgulho, mas o amor edifica. Quem pensa conhecer alguma coisa, ainda não conhece como deveria. Mas quem ama a Deus, este é conhecido por Deus. Portanto, em relação ao alimento sacrificado aos ídolos, sabemos que o ídolo não significa nada no mundo e que só existe um Deus. [...] Contudo, nem todos têm esse conhecimento. Alguns, ainda habituados com os ídolos, comem esse alimento como se fosse um sacrifício idólatra; como a consciência deles é fraca, fica contaminada. A comida, porém, não nos torna aceitáveis diante de Deus; não seremos piores se não comermos, nem melhores se comermos. Contudo, tenham cuidado para que o exercício da liberdade de vocês não se torne uma pedra de tropeço para os fracos. Pois, se alguém que tem a consciência fraca vir você que tem esse conhecimento comer num templo de ídolos, não será induzido a comer do que foi sacrificado a ídolos? Assim, esse irmão fraco, por quem Cristo morreu, é destruído por causa do conhecimento que você tem. Quando você peca contra seus irmãos dessa maneira, ferindo a consciência fraca deles, peca contra Cristo. Portanto, se aquilo que eu como leva o meu irmão a pecar, nunca mais comerei carne, para não fazer meu irmão tropeçar. (1Co 8.1-4,7-13)
No rol dos assuntos mais polêmicos da Igreja Primitiva, a questão das coisas sacrificadas aos ídolos ganha absoluto destaque. Devido às proporções dos cultos idólatras, era difícil encontrar carne nos açougues que não tivesse, antes, sido sacrificada. Isto porque, como havia muitos sacrifícios, os sacerdotes idólatras retiam apenas uma parte das carnes, e o restante vendiam aos mercadores.
Paulo introduz sua linha de raciocínio com a relação entre o conhecimento e o amor. Os gentios possuíam originalmente uma mentalidade cauterizada pela idolatria, pelo politeísmo e pelas filosofias humanas. Ao se converterem ao evangelho, se lhes apresentava uma verdade diametralmente oposta a tudo que eles um dia aprenderam e internalizaram ao longo da vida. O nível de crescimento no conhecimento, contudo, não é igual para todos, principalmente quando comparamos cristãos mais experientes a recém-convertidos.
O conhecimento, por si só, ensoberbece-nos e nos torna vaidosos, como se fôssemos melhores que os demais irmãos pelo nosso nível de conhecimento. O amor, por outro lado, é o que neutraliza o orgulho e permite que sejamos abençoados e abençoemos os demais com o nosso conhecimento do Senhor. O amor a Deus e aos nossos irmãos nos leva a entender que nada somos além de servos e desenvolve nosso senso de misericórdia. Aquele que acha que sabe de tudo, que não tem necessidade de crescer ainda mais no conhecimento de Deus e que é melhor dos que os outros por isso, na verdade, não apreendeu tal conhecimento da maneira devida. A medida do conhecimento é o amor, pois é ele que edifica e nos torna conhecidos por Deus.
Paulo, então apresenta o argumento de que, de fato, os ídolos nada são e que há um só Deus, de quem são todas as coisas, as quais somente por Ele subsistem (inclusive as carnes). Acontece que havia alguns irmãos de Corinto que ainda não possuíam esse conhecimento em sua plenitude e, em virtude de toda a bagagem cultural que determinou seu modo de encarar os ídolos e os sacrifícios ao longo de toda a vida, ainda viam os ídolos como deuses e, portanto, as carnes sacrificadas, como se de fato tivessem sua natureza alterada pelo sacrifício. Então, por terem a consciência fraca nesse sentido, ela seria contaminada caso consumissem aquelas carnes, como se estivessem pecando, embora a comida que comemos ou deixamos de comer em nada influencie na nossa espiritualidade. Por outro lado, os irmãos com a consciência mais forte, em virtude desse conhecimento, viam-se livres para comer das carnes sacrificadas aos ídolos sem problema algum.
A valiosa lição do amor entra em cena quando se confrontam o conhecimento daqueles que se viam livres para comer das coisas sacrificadas aos ídolos e a consciência fraca dos irmãos que não tinham atingido esse conhecimento em sua plenitude. A esfera de liberdade cristã encontra seus limites no amor. Se, embora livre para fazer algo, sei que isso poderá servir de tropeço ao meu irmão com a consciência mais fraca, devo abster-me de fazê-lo. O irmão “fraco”, por certo, será induzido a fazer o mesmo que eu e, após, sentir-se-á acusado por isso. Assim, por causa do meu grande conhecimento, contudo sem amor, o irmão mais “fraco” perecerá.
Paulo ensina que essa irresponsabilidade com a nossa liberdade cristã é um pecado contra o próprio Cristo, pois Ele também morreu pelos irmãos que ainda têm a consciência mais fraca por não terem atingido tal nível de conhecimento. Portanto, se alguma conduta serve de escândalo ao irmão, devo abrir mão dela, mesmo sendo livre para praticá-la. Aqui vale uma remissão ao que Jesus ensinou sobre a condenação daqueles por quem viessem os escândalos (Mt 18.6-7; Mc 9.42; Lc 17.1-2) e da lição de Paulo ao romanos sobre a paciência com os débeis na fé, também nesse assunto do comer com escândalo (Rm 14; 15.1-7).
Diante de toda a argumentação teórica, Paulo agora apresenta-se a si mesmo como exemplo prático:
Não sou livre? Não sou apóstolo? Não vi Jesus, nosso Senhor? Não são vocês resultado do meu trabalho no Senhor? Ainda que eu não seja apóstolo para outros, certamente o sou para vocês! Pois vocês são o selo do meu apostolado no Senhor. Essa é minha defesa diante daqueles que me julgam. Não temos nós o direito de comer e beber? Não temos nós o direito de levar conosco uma esposa crente como fazem os outros apóstolos, os irmãos do Senhor e Pedro? Ou será que só eu e Barnabé não temos direito de receber sustento sem trabalhar? Quem serve como soldado à própria custa? Quem planta uma vinha e não come do seu fruto? Quem apascenta um rebanho e não bebe do seu leite? Não digo isso do ponto de vista meramente humano; a Lei não diz a mesma coisa? Pois está escrito na Lei de Moisés: "Não amordace o boi enquanto ele estiver debulhando o cereal". Por acaso é com bois que Deus está preocupado? Não é certamente por nossa causa que ele o diz? Sim, isso foi escrito em nosso favor. Porque "o lavrador quando ara e o debulhador quando debulha, devem fazê-lo na esperança de participar da colheita". Se entre vocês semeamos coisas espirituais, seria demais colhermos de vocês coisas materiais? Se outros têm direito de ser sustentados por vocês, não o temos nós ainda mais? Mas nós nunca usamos desse direito. Ao contrário, suportamos tudo para não pôr obstáculo algum ao evangelho de Cristo. Vocês não sabem que aqueles que trabalham no templo alimentam-se das coisas do templo, e os que servem diante do altar participam do que é oferecido no altar? Da mesma forma, o Senhor ordenou àqueles que pregam o evangelho que vivam do evangelho. Mas eu não tenho usado de nenhum desses direitos. (1Co 9.1-15)
Paulo, introduzindo seu exemplo, defende o seu apostolado, que sempre foi bastante questionado por muitos crentes da Igreja Primitiva. Paulo, embora não fosse um dos doze, antes, na verdade, fora um cruel perseguidor dos cristãos, havia sido testemunha ocular da ressureição de Cristo no caminho para Damasco e foi designado por Ele para o anúncio do evangelho aos gentios (At 9). O fato de ter sua autoridade apostólica questionada entre os cristãos de Corinto era mais grave porque ele próprio foi quem fundou aquela igreja, com muito esforço (At 18.1-8) e os amava muito.
Tendo, pois, defendido seu apostolado, Paulo apresenta os direitos que são garantidos aos apóstolos. Pode-se defini-los, de maneira sucinta, em um só: o apóstolo tem o direito de ter suas necessidades humanas supridas pela comunidade da igreja. Aliás, assim viviam todos os demais apóstolos, sendo Paulo a única exceção a essa regra. Ele afirma, contudo, que, embora tenha esse direito de ser sustentado pelos irmãos da igreja, deixa de exercê-lo, com o fim de não criar obstáculo ao evangelho. É bem verdade que foi o próprio Cristo quem concedeu esse direito aos ministros do evangelho, não sendo impróprio que os demais apóstolos dele se utilizassem. O apóstolo Paulo, portanto, voluntariamente se omitiu quanto a esse direito, pregando o evangelho de livre vontade em Corinto, trabalhando para se sustentar a si mesmo (At 18.3; 1Co 4.11-13).
Esse é o contexto geral em que se encontra o versículo usado pelos líderes da Universal para convencer as pessoas a darem tudo (leia-se: dinheiro) no "altar", pois, assim, dele viria o sustento delas. É, novamente (nenhuma novidade!) uma completa perversão do real sentido do texto bíblico. Leiamos, exclusivamente, esse trecho outra vez:
Vocês não sabem que aqueles que trabalham no templo alimentam-se das coisas do templo, e os que servem diante do altar participam do que é oferecido no altar? Da mesma forma, o Senhor ordenou àqueles que pregam o evangelho que vivam do evangelho. (1Co 9.13-14)
Paulo aqui aplica o mesmo princípio do sustento do serviço levítico ao ministério evangelístico. Ele descreve duas categorias: os que trabalham no templo e os que servem diante do altar. Estes últimos são os sacerdotes. Arão e seus descendentes foram escolhidos por Deus para servirem-nO nesse ofício (Ex 28 - 29). Suas funções incluíam o manejo dos sacrifícios das ofertas que o povo levava ao Tabernáculo/Templo sobre o altar de bronze, o oferecimento de incenso sobre o altar de ouro, o julgamento das causas do povo, entre outros. Em síntese, eles eram os mediadores entre o Senhor e o povo de Israel. Havia uma subdivisão entre sumo sacerdote, líder máximo do serviço levítico, cargo que cabia apenas aos descendentes direitos de Arão, e os demais sacerdotes. A outra categoria se refere aos homens da tribo de Levi de modo geral, os levitas, à exceção da família de Arão, os quais foram escolhidos por Deus para assistirem os sacerdotes no Tabernáculo/Templo, cuidando dos utensílios sagrados e auxiliando no transporte da estrutura quando Israel se deslocava de um local para outro, por exemplo (Nm 1.47-53; 3.5-9). A respeito de ambos, disse o Senhor:
Os sacerdotes levitas e todo o restante da tribo de Levi não terão posse nem herança em Israel. Viverão das ofertas sacrificadas para o SENHOR, preparadas no fogo, pois esta é a sua herança. Não terão herança alguma no meio dos seus compatriotas; o SENHOR é a sua herança, conforme lhes prometeu. (Dt 18.1-2)
Diferentemente das demais tribos, entre as quais foram repartidas grandes porções da terra prometida, Levi recebeu apenas o mínimo necessário de terra para sua subsistência, pois sua herança era o Senhor. O Altíssimo separou essa tribo para servir diante dEle no sistema religioso mosaico, cujo foco era o Tabernáculo/Templo. Em razão de terem sido separados para estarem continuamente diante de Deus no serviço espiritual levítico ao invés de estarem usufruindo plenamente de uma herança terrena, o Senhor determinou que eles fossem sustentados pelo restante do povo de Israel, dando-lhes uma parte dos alimentos que providenciava a Israel na terra que mana leite e mel.
Quanto aos sacerdotes, foi designado o seguinte:
Então o SENHOR disse a Arão: "Eu mesmo o tornei responsável pelas contribuições trazidas a mim; todas as ofertas sagradas que os israelitas me derem, eu as dou como porção a você e a seus filhos. Das ofertas santíssimas vocês terão a parte que é poupada do fogo. Dentre todas as dádivas que me trouxerem como ofertas santíssimas, seja oferta de cereal, seja pelo pecado, seja de reparação, tal parte pertence a você e a seus filhos. [...] Também dou a você, e a seus filhos e filhas, por decreto perpétuo, as contribuições que cabe a vocês de todas as ofertas dos israelitas e que devem ser ritualmente movidas. [...] Dou a você o melhor azeite e o melhor vinho novo e o melhor trigo que eles apresentarem ao SENHOR como primeiros frutos da colheita. Todos os primeiros frutos da terra que trouxerem ao SENHOR serão seus. [...] Tudo o que em Israel for consagrado a Deus pertencerá a você. O primeiro nascido de todo ventre, oferecido ao SENHOR, seja homem, seja animal, será seu. [...] Quando tiverem um mês de idade, você deverá resgatá-los pelo preço de resgate estabelecido em sessenta gramas de prata, com base no peso padrão do santuário, que são doze gramas. Não resgate, porém, a primeira cria e uma vaca, de uma ovelha ou de uma cabra. Derrame o sangue deles sobre o altar e queime a sua gordura como uma oferta preparada no fogo, de aroma agradável ao SENHOR. A carne desses animais pertence a você, como também o peito da oferta movida e a coxa direita. Tudo aquilo que for separado dentre todas as dádivas sagradas que os israelitas apresentarem ao SENHOR eu dou a você e a seus filhos e filhas como decreto perpétuo. (Nm 18.8-9,11-19)
Quanto aos levitas, por sua vez, foi designado o seguinte:
Dou aos levitas todos os dízimos em Israel como retribuição pelo trabalho que fazem ao servirem na Tenda do Encontro. [...] Eles não receberão herança alguma entre os israelitas. Em vez disso, dou como herança aos levitas os dízimos que os israelitas apresentarem como contribuição ao SENHOR. É por isso que eu disse que eles não teriam herança alguma entre os israelitas. [...] Vocês e suas famílias poderão comer dessa porção em qualquer lugar, pois é o salário pelo trabalho de vocês na Tenda do Encontro. (Nm 18.21,23-24,31)
Destaque-se que, ao receberem os dízimos dos israelitas, os levitas deveriam ainda separar o dízimo dos dízimos, isto é, a melhor parte de tudo o que receberam, até o equivalente de um décimo do total, e dá-lo aos sacerdotes (Nm 18.25-29). Sobre o assunto de dízimos, primícias e contribuições no Novo Testamento, sugiro a leitura dos artigos da categoria Dízimos e Ofertas.
Assim, vemos que Deus havia ordenado ao povo de Israel que sustentasse integralmente os sacerdotes e levitas, os quais se dedicavam integralmente ao serviço no Tabernáculo/Templo. Paulo, por sua vez, usa esse princípio como analogia para o caso dos ministros do evangelho. Ele afirma que Cristo igualmente ordenou que Sua Igreja sustentasse aqueles que se dedicavam integralmente à pregação do evangelho, à semelhança da ordem de Deus para Israel em relação aos que se dedicavam integralmente ao serviço levítico. E, de fato, Cristo assim o fez:
Depois disso o Senhor designou outros setenta e dois e os enviou dois a dois, adiante dele, a todas as cidades e lugares para onde ele estava prestes a ir. E lhes disse: "A colheita é grande, mas os trabalhadores são poucos. Portanto, peçam ao Senhor da colheita que mande trabalhadores para a sua colheita. Vão! Eu os estou enviando como cordeiros entre lobos. Não levem bolsa, nem saco de viagem, nem sandálias; e não saúdem ninguém pelo caminho. Quando entrarem numa casa, digam primeiro: Paz a esta casa. Se houver ali um homem de paz, a paz de vocês repousará sobre ele; se não, ela voltará para vocês. Fiquem naquela casa e comam e bebam o que derem a vocês, pois o trabalhador merece o seu salário. Não fiquem mudando de casa em casa. Quando entrarem numa cidade e forem bem recebidos, comam o que for posto diante de vocês. (Lc 10.1-8)
Resta, portanto, evidenciado que não há nada nesse versículo de 1Co 9.13 que prometa às pessoas que "sacrificarem" alguma quantia monetária no "altar" da Igreja Universal do Reino de Deus que elas serão sustentadas por Deus em razão disso. Trata-se de mais uma heresia dessa seita para enganar os incautos, convencendo-os de que, uma vez eles dando dinheiro para essa instituição, mais, inclusive, do que poderiam dar, vendendo bens necessários, deixando de pagar contas, contraindo empréstimos, Deus vai ser obrigado a fazê-los prosperar. É mentira! É engano! É falácia de lobos querendo se alimentar das ovelhas!
Inclusive, nesse ponto, é importante ressaltar que não há mais altar físico e nem sacrifício (sugiro a leitura dos artigos da categoria Sacrifícios). A crucificação do Senhor Jesus Cristo foi o último e definitivo sacrifício e o Calvário foi o último altar. Praticamente toda a Carta aos Hebreus é composta de um linha argumentativa de que Cristo é o nosso Sumo Sacerdote, tendo ele oferecido o sacrifício perpétuo e eficaz para purificação dos nosso pecados e rasgado o espesso véu que impedia o acesso ao Lugar Santíssimo, pois agora temos acesso direto ao Pai por meio dEle. Isso significa que Cristo é o único Mediador (Sumo Sacerdote) entre Deus e o homem (1Tm 2.5-6).
Uma vez que cremos em Cristo e somos purificados por Seu sangue expiador, tornamo-nos Seus sacerdotes, a fim de que ofereçamos sacrifícios agradáveis a Deus (1Pe 2.4-10). Só que agora não mais sacrifícios materiais para expiação de pecados, mas sacrifícios espirituais para agradar a Deus, tais como: um proceder correto diante de Deus (Rm 12.1-2), um coração disponível para sustentar a missão evangelística por amor (Fp 4.10-20) e a confissão da nossa fé em Cristo, a prática do bem e a mútua cooperação (Hb 13.15-16). Portanto, não há ninguém que possa nos representar diante de Deus, a não ser única e exclusivamente Jesus Cristo. Desde então, inexiste qualquer "altar" válido, pois ele já não tem mais nenhuma utilidade na Nova Aliança. Nós somos o nosso próprio sacerdote, nós somos o próprio templo e nosso coração é o próprio altar. Não mais figuras físicas, mas agora a plena realidade espiritual.
Disso conclui-se que: (i) não há mais sacrifícios na Nova Aliança; (ii) pastores não exercem a mesma função dos sacerdotes da Velha Aliança; (iii) púlpito/tribuna de templo religioso de cristãos não é "altar". Portanto, não há nenhuma garantia bíblica para quem "sacrifica" no "altar" da Universal de que Deus irá prosperá-lo por essa atitude.
Cabe aqui pincelar a respeito da fala de Edir Macedo no início da segunda citação: "Muitos são chamados para chegar ao Altar, mas poucos são os escolhidos para subir nEle" (Os Escolhidos do Altar). Essa é mais uma deturpação da Palavra de Cristo. Vejamos o contexto em que isso está inserido:
Jesus lhes falou novamente por parábolas, dizendo: "O Reino dos céus é como um rei que preparou um banquete de casamento para seu filho. Enviou seus servos aos que tinham sido convidados para o banquete, dizendo-lhes que viessem; mas eles não quiseram vir. De novo enviou outros servos e disse: 'Digam aos que foram convidados que preparei meu banquete: meus bois e meus novilhos gordos foram abatidos, e tudo está preparado. Venham para o banquete de casamento!' Mas eles não lhes deram atenção e saíram, um para o seu campo, outro para os seus negócios. Os restantes, agarrando os servos, maltrataram-nos e os mataram. O rei ficou irado e, enviando o seu exército, destruiu aqueles assassinos e queimou a cidade deles. Então disse a seus servos: 'O banquete de casamento está pronto, mas os meus convidados não eram dignos. Vão às esquinas e convidem para o banquete todos os que vocês encontrarem'. Então os servos saíram para as ruas e reuniram todas as pessoas que puderam encontrar, gente boa e gente má, e a sala do banquete de casamento ficou cheia de convidados. Mas, quando o rei entrou para ver os convidados, notou ali um homem que não estava usando veste nupcial. E lhe perguntou: 'Amigo, como você entrou aqui sem veste nupcial?' O homem emudeceu. Então o rei disse aos que serviam: 'Amarrem-lhe as mãos e os pés, e lancem-no para fora, nas trevas; ali haverá choro e ranger de dentes'. Pois muitos são chamados, mas poucos são escolhidos. (Mt 22.1-14)
Como se pode observar do texto, o que está em voga não é o "altar", mas o Reino dos céus. A figura de um banquete de casamento é a mesma de Ap 19, que narra o casamento de Cristo com a Sua noiva (Igreja):
Então ouvi algo semelhante ao som de uma grande multidão, como o estrondo de muitas águas e fortes trovões, que bradava: "Aleluia!, pois reina o Senhor, o nosso Deus, o Todo-poderoso. Regozijemo-nos! Vamos alegrar-nos e dar-lhe glória! Pois chegou a hora do casamento do Cordeiro, e a sua noiva já se aprontou. Para vestir-se, foi-lhe dado linho fino, brilhante e puro". E o anjo me disse: "Escreva: Felizes os convidados para o banquete do casamento do Cordeiro!" E acrescentou: "Estas são as palavras verdadeiras de Deus". (Ap 19.6-9)
Portanto, de maneira nenhuma essa frase de Jesus tem a ver a com "altar", sacrifício e qualquer outra heresia da IURD. Muito pelo contrário, serve de alerta para seus líderes e membros. Os primeiros convidados recusaram contundentemente o convite, representando os líderes religiosos judeus, destinatários primários do evangelho, os quais, não se contentando em simplesmente recusar o convite do Pai por meio de Cristo, perseguiram e mataram não só o Filho, como também seus discípulos que anunciaram o evangelho primeiramente. O homem sem vestes nupciais representa aqueles que, tal qual os líderes da Universal e, provavelmente, muitos dos seus seguidores, fingem aceitar o evangelho e se infiltram no meio da Igreja visível, como se fossem dos nossos, mas na verdade não aceitam se revestir da justiça de Cristo e deturpam a Sua doutrina a qualquer custo, a fim de satisfazer seus desejos materialistas e ao mesmo tempo tentar garantir uma vaga no Reino dos céus. O terceiro grupo são os verdadeiros escolhidos, que são poucos. Estes são aqueles que aceitaram o evangelho da cruz de Cristo, revestiram-se da justiça do Senhor Jesus e perseveraram até o fim, por meio da fé, na esperança do grande dia das bodas do Cordeiro.
Paulo trata disso quando fala do homem da apostasia em contraposição aos verdadeiros eleitos do Senhor:
A vinda desse perverso é segundo a ação de Satanás, com todo o poder, com sinais e com maravilhas enganadoras. Ele fará uso de todas as formas de engano da injustiça para os que estão perecendo, porquanto rejeitaram o amor à verdade que os poderia salvar. Por essa razão Deus lhes envia um poder sedutor, a fim de que creiam na mentira e sejam condenados todos os que não creram na verdade, mas tiveram prazer na injustiça. Mas nós devemos sempre dar graças a Deus por vocês, irmãos amados pelo Senhor, porque desde o princípio Deus os escolheu para serem salvos mediante a obra santificadora do Espírito e a fé na verdade. Ele os chamou para isso por meio de nosso evangelho, a fim de tomarem posse da glória de nosso Senhor Jesus Cristo. (2Ts 2.9-14)
Querido leitor, finalizo esse artigo propondo algumas reflexões:
Onde há em toda a Bíblia alguma espécie de sacrifício para obtenção de bênçãos materiais/prosperidade/cura?
Em que momento no Novo Testamento a Igreja de Cristo se preocupa com altares e sacrifícios materiais, se eles sequer tinham templos como nós atualmente e, na verdade, se reuniam nas casas dos irmãos?
Qual a preocupação de Cristo e da Sua Igreja na Bíblia a respeito de prosperidade como a Universal entende hoje? Não é justamente o contrário que os apóstolos de Cristo pregavam e viviam: (i) contentamento em todas as situações; (ii) categorização do desejo de ficar rico como tentação; (iii) objeção ao acúmulo de bens materiais, devendo o excedente ser repartido entre os pobres e não esbanjado; (iv) dependência da graça divina, buscando o Reino de Deus e a sua justiça em primeiro lugar, confiando a Ele o acréscimo das demais coisas; (v) categorização de heresia da pregação do evangelho como fonte de lucro?
Qual apóstolo/presbítero pediu alguma vez na Bíblia que os cristãos vendessem bens necessários e deixassem de arcar com as suas despesas e sustento da família para darem a eles em troca de prosperidade? Não foi justamente o contrário que eles ensinaram ao dizer que cada um deveria contribuir voluntariamente conforme Deus propôs em particular no seu coração, e isso para o sustento do ministério, e não para eles esbanjarem luxo?
Pense nisso!
Nota: transcrições bíblicas extraídas da Bíblia Sagrada, Nova Versão Internacional ®, NVI ® Copyright © 1993, 2000, 2011 by Biblica, Inc., exceto aquelas cujas descrições indiquem versão diversa.
REFERÊNCIAS OFICIAIS DA UNIVERSAL:
1. O Altar de Deus é para todos, publicado em 03/12/2014.
2. A oferta ou o Altar?, publicado em 10/11/2016.
3. Os Escolhidos do Altar, publicado em 23/11/2016.
4. O Altar é maior, publicado em 14/06/2018.
5. O Altar é o Lugar Sagrado onde vidas são transformadas, publicado em 06/07/2022.
6. O que o Altar tem a ver com o seu sucesso?, publicado em 30/06/2023.
7. O Altar é o lugar onde Deus está esperando as pessoas irem até Ele, publicado em 06/12/2023.
8. Sustento do Altar, sem data de publicação informada.




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