Salmo 23: nada me faltará?
- universalheresias
- 15 de ago. de 2024
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Um argumento bastante usado pela Universal em seus propósitos/campanhas de prosperidade é a expressão “nada me faltará” do salmo 23. Mas será que a interpretação bíblica que sustenta essa doutrina é adequada?
Em uma pesquisa no Google pelo termo “nada me faltará universal”, verifiquei cinco resultados pertinentes publicados em portais oficiais da Igreja Universal do Reino de Deus. Ao fim do artigo, os respectivos links estarão devidamente listados para consulta na íntegra.
Importante ressaltar que geralmente essas campanhas utilizam alguns elementos, como um óleo consagrado, por exemplo. Nesse artigo, ativemo-nos à hermenêutica do salmo.
O fundamento bíblico que a Universal menciona nessas publicações é o seguinte versículo: “O SENHOR é o meu pastor, nada me faltará” (Sl 23.1). Talvez a explicação mais clara sobre esses propósitos seja a de um artigo que trata da condição para materialização do referido salmo na vida de alguém:
“Muitos gostam desse salmo, repetem, colocam nos carros, mas se esquecem da condição para alcançar as bênçãos nele descritas”, pontuou o Bispo Renato Cardoso, em uma de suas reuniões, no Templo de Salomão, em São Paulo. [...] “Se o Senhor não for o seu Pastor, ou seja, se você não ouvir a voz dEle, as promessas não se aplicarão a você”, ensinou o Bispo Renato. [...] Todavia, muitos que se dizem ovelhas de Deus têm enfrentado dias difíceis, em que a frase “nada lhe faltará” não tem sido uma realidade em suas vidas. Tem faltado tudo. Desde o alimento básico, até a paz de espírito. Isso acontece, porque, apesar de crer em Deus, muitos não O tratam como pastor de suas almas. Em um dos seus comentários, na Bíblia de edição especial de 40 anos da Universal, o Bispo Edir Macedo ensina que todos os que não tratam Deus como Pastor não podem alcançar Suas bênçãos. Fonte: O que não lhe contaram sobre o Salmo 23
Nesse salmo, há também um outro versículo bastante emblemático: “Preparas uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos, unges a minha cabeça com óleo, o meu cálice transborda” (Sl 23.5). Criou-se, então, uma outra campanha que mescla ambos os conceitos, cuja explicação de um artigo de convite é no seguinte sentido:
“Domingo, você vai preparar uma garrafa de azeite na sua casa e nós vamos fazer a ‘Unção do nada me faltará’. É a unção que faz transbordar o nosso cálice na presença dos nossos inimigos. São muitos aqueles que gostariam de nos ver tropeçar. Então, a estes, nós recomendamos uma cadeira muito confortável, porque terão de esperar. E vão ter de nos assistir sendo servidos pelo nosso Senhor. Porque Ele prepara uma mesa para nós na presença dos nossos inimigos”, explicou o Bispo Renato Cardoso, durante a reunião do Encontro com Deus, do dia 11 de abril. Igualmente, no dia 12 de abril, durante a programação “Inteligência e fé“, o Bispo Renato acrescentou: “Leve uma garrafa de azeite, porque este será o ‘Domingo do nada me faltará’. Será o último dia da campanha da Justiça. E nós vamos ungir a sua cabeça com o óleo. Você que tem inimigos, adversários, pessoas que estão torcendo para a sua derrota, você que está com medo de faltar para os seus compromissos, leve a garrafa de azeite até a Universal mais próxima (consulte o endereço aqui)”. Fonte: Domingo do nada me faltará
A primeira observação que deve ser feita se refere ao estilo literário por meio do qual essa passagem bíblica nos é apresentada. Os salmos são poesias hebraicas especialmente compostas para serem cantadas, acompanhadas de alguns instrumentos, dentre os quais o que mais se destaca é o saltério. Embora possua marcas bastante distintivas da poesia tipicamente ocidental, a poesia hebraica também apresenta pontos em comum com ela. Destaco aqui a estruturação de ideias em versos breves e o uso de muitas figuras de linguagem, especialmente metáforas. Além disso, muitos salmos possuem caráter profético e são citados, inclusive, em várias passagens do Novo Testamento, apontando para o seu cumprimento.
É preciso se atentar também ao contexto em que os salmos foram compostos. O salmo 90, por exemplo, foi composto por Moisés, enquanto o salmo 126, por sua vez, aponta para um período posterior ao exílio babilônico. Portanto, tentar localizar a localização histórica dos salmos nos fornece alguns elementos adicionais para uma melhor compreensão dos seus significados.
Quanto ao salmo 23, podemos identificá-lo em meio a uma trilogia de salmos messiânicos, isto é, que se relacionam de forma contundente com as profecias a respeito de Jesus Cristo. Embora haja muitos outros dessa classe, os salmos 22 a 24 apresentam um desencadeamento muito interessante: cruz, cajado e coroa. O primeiro trata do profundo sofrimento do servo de Deus, com um diálogo intertextual impressionante com a crucificação de Cristo. O segundo, o qual será analisado detidamente no presente artigo, apresenta o cuidado do Senhor para com os que nEle confiam. Por fim, o terceiro aponta para o estabelecimento perpétuo do domínio do Rei da Glória.
O autor do salmo 23 é o rei Davi. Este, outrora, foi pastor de ovelhas. Ao comparar o Senhor a um pastor e se colocar na posição de ovelha, o salmista entendia profundamente o que isso representava em termos de confiança na provisão e proteção do seu Deus. É assim que ele inicia a composição desse lindo cântico:
O SENHOR é o meu pastor; de nada terei falta. Em verdes pastagens me faz repousar e me conduz a águas tranquilas; restaura-me o vigor. Guia-me nas veredas da justiça por amor do seu nome. Mesmo quando eu andar por um vale de trevas e morte, não temerei perigo algum, pois tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me protegem. (Sl 23.1-4)
Primeiramente, o que Davi tinha em mente quando afirma que o Senhor é o seu pastor, e ele, a Sua ovelha? Observando a sua história, vemos que ele era o filho mais moço e mais improvável de Jessé (1Sm 16.11). Sua responsabilidade era pastorear algumas poucas ovelhas de sua família (1Sm 17.28).
As ovelhas são animais dóceis e frágeis. Necessitam de cuidados constantes, pois, caso contrário, tornam-se presas fáceis às feras. Elas precisam ser orientadas para sua proteção e alimentação e, por isso, são extremamente dependentes de seus pastores. No contexto de Israel nos tempos de Davi, a época de abundância se dava após as chuvas do inverno, momento em que brotava muita pastagem e se recolhiam os grãos, após o que as ovelhas poderiam comer livremente o que restava. Contudo, quando isso findava, o pastor precisava ser hábil para conduzir seu rebanho a locais onde resistiam pastagens de ervas secas e, nele, algum nível residual de água. Quando não havia água disponível, era necessário encontrar ou providenciar um poço. À noite, o pastor precisava abrigar o rebanho no seu curral ou mesmo em um redil improvisado em uma caverna, por exemplo. O pastor tinha uma firme obrigação de proteger as ovelhas, mesmo que isso lhe custasse uma luta com feras do campo, a exemplo de Davi com o leão e o urso (1Sm 17.34-36). Tendo em vista esse breve esboço da relação entre pastor e ovelha, podemos buscar o sentido mais fiel desse salmo com um olhar atento aos detalhes.
Em primeiro lugar, Davi considera que o Senhor é o seu pastor. Ele, portanto, como uma ovelha, dependia única e exclusivamente do Senhor e deveria estar sempre atendendo ao Seu direcionamento, ao Seu chamar e à Sua repreensão. Nessa condição, Davi não precisava se preocupar em fazer exigências das suas necessidades, pois cumpre ao pastor prover tudo quanto a ovelha necessitar, mesmo que seja necessário que ele dê a sua vida em defesa dela. Aqui entendemos a fala de Cristo:
Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas. O assalariado não é o pastor a quem as ovelhas pertencem. Assim, quando vê que o lobo vem, abandona as ovelhas e foge. Então o lobo ataca o rebanho e o dispersa. Ele foge porque é assalariado e não se importa com as ovelhas. Eu sou o bom pastor; conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem, assim como o Pai me conhece e eu conheço o Pai; e dou a minha vida pelas ovelhas. (Jo 10.11-14)
Cristo não é um servo qualquer que cuida de algumas ovelhas desconhecidas de maneira descompromissada. Ele é o bom pastor, que é capaz de dar a própria vida em favor das ovelhas, como Ele de fato fez na cruz do Calvário. Ele ama Suas ovelhas, quer-lhes bem, porque o dono dessas ovelhas, que as confiou nas Suas mãos, é o Pai, Todo-Poderoso. Essas ovelhas são amadas pelo próprio Pai e, portanto, também o são pelo Filho, pois Ambos são Um.
As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna, e elas jamais perecerão; ninguém as poderá arrancar da minha mão. Meu Pai, que as deu para mim, é maior do que todos; ninguém as pode arrancar da mão de meu Pai. Eu e o Pai somos um. (Jo 10.27-30)
Cristo, o bom Pastor, garante que Suas ovelhas jamais perecerão e jamais serão arrancadas da Sua mão, pois Ele lhes dá a vida eterna. De que uma ovelha desse bom Pastor precisa, se já possui a vida eterna e a garantia de que jamais perecerá? O que uma ovelha desse bom Pastor teme, se é impossível que ela seja arrancada das Suas mãos poderosas por um mercenário? Nada. Absolutamente nada. Se ela pertence ao bom Pastor, todas as suas necessidades serão atendidas à medida que ela O ouve e O segue.
À luz dessa revelação divina constante nas palavras do bom Pastor, que dá a vida pelas ovelhas, podemos ser cautelosos com a expressão seguinte (embora a tradução da NVI utilizada para as citações bíblicas desse artigo já apresente melhor esse sentido). Vejamos a expressão hebraica: “יְהוָה רֹעִי לֹא אֶחְסָר”. Segundo os estudiosos da língua hebraica, a estrutura gramatical desse texto sugere um tempo verbal que indique ações já consumadas.
Grande parte das Bíblias em língua portuguesa traduzem essa expressão no tempo futuro: “nada me faltará”. Não deixa de ser uma tradução justa, muito pelo contrário. O problema é que nosso coração corrupto e ganancioso se aproveita da ambiguidade dessa frase no nosso idioma e tenta imprimir no texto um significado absolutamente inadequado, e isso é bastante útil aos mercadores da fé. O real sentido dessa afirmação, à luz de todo o contexto já introduzido e da hermenêutica que será feita ainda sobre o restante desse salmo, é que, se o Senhor é o meu pastor, sabendo eu que Ele é bom e me ama a ponto de dar Sua vida por mim, não há mais nada de que eu necessite, pois tudo o que eu precisar será providenciado por Ele, conforme Ele entender que é necessário. É uma relação de completa dependência. A ovelha não vai buscar o pasto e a água por si só, não vai se abrigar à noite por si só, não vai se defender das feras por si só... O seu pastor se incumbiu dessa responsabilidade e em circunstância alguma vai permitir que lhe falte algo de que precise.
Note-se que o significado vulgar que se atribui a essa declaração profética do salmista é exatamente o oposto do que ela realmente significa. Muitos têm proclamado em alto e bom som que, se o Senhor é o seu pastor, não pode faltar emprego, dinheiro, saúde, sucesso, prosperidade, família, bens etc. Nesse intuito, fazem clamores exaltados, ungem-se com um azeite “consagrado”, colocam ofertas em envelopes com esse versículo impresso, e tudo mais quanto sua criatividade lhes permitir. Frustram-se vez após vez por nunca conseguirem alcançar tudo o que querem, de modo que sempre lhes faltará alguma coisa.
Particularmente, nunca soube de uma ovelha que exigiu de seu pastor um pasto de uma coloração específica, uma água com determinado nível de pH ou um curral com um tipo de pedra em especial. Provavelmente ela deve até emitir algum som quando se machuca ou está faminta, mas exigir do seu pastor toda hora o que ela quer em detalhes... Isso nunca vi. Mas é assim que essas pessoas, infelizmente, têm se comportado diante do Senhor. Dizem que Ele é o seu pastor, até frequentam alguma instituição religiosa e deixam de praticar pecados aparentes, mas o seu intuito com tudo isso é conquistar as coisas materiais e terrenas que seu coração almeja. Davi, ao contrário, afirmava que tendo o Senhor como seu pastor, não era mais necessitado de nada, pois descansava na provisão do seu Deus, que, como um bom pastor, sabe do que Suas ovelhas necessitam e lhes supre e protege.
Adiante, o salmista afirma que o seu Pastor o faz repousar em pastos verdejantes. A imagem que muitos visualizam em sua mente nesse ponto é um campo enorme ricamente coberto por pastos tão verdinhos que parecem até aquelas imagens de plano de fundo de computadores. É preciso, contudo, ter em vista que o território em que habitava o povo hebreu era predominantemente desértico. Atualmente, com a avançada tecnologia do Estado Moderno de Israel, tem sido possível fazer “florescer o deserto”. Mas isso é coisa recente. Não foi sempre assim; muito pelo contrário.
Conforme mencionado anteriormente, havia um período de abundância, que se dava após as chuvas do inverno, momento em que brotava muita pastagem e se recolhiam os grãos cultivados, após o que as ovelhas poderiam comer livremente o que restava. No entanto, precisava-se novamente arar o solo, semear os grãos e cultivar a plantação. Unindo-se todo esse trabalho ao fato de que havia pouquíssimos lugares favoráveis à agricultura naquele ambiente árido, as ovelhas não podiam permanecer nesses campos continuamente. Sendo assim, o pastor guiava o seu rebanho até algumas regiões no meio do deserto, especialmente em encostas de elevações rochosas, em que havia um nível residual de água no solo que permitia o brotar de pastagens bastante tímidas e espaçadas. A realidade contrasta radicalmente com o imaginário vulgar a respeito do que significam ser esses pastos verdejantes.
Ainda sobre isso, podemos encontrar mais uma promessa do Senhor Jesus que dialoga com esse cântico de Davi:
Eu sou a porta; quem entra por mim será salvo. Entrará e sairá, e encontrará pastagem. (Jo 10.9)
Sobre as águas tranquilas, é necessário ter em mente o mesmo cenário, somando-se o fato de as ovelhas terem medo das correntezas dos rios. Portanto, para saciá-las, o pastor precisava providenciar águas de descanso. Havia, nessas mesmas áreas de pastos verdejantes, a possibilidade de algum acúmulo considerável de água em um determinado ponto para onde ela escorreu durante o período de chuvas. Além disso, sabe-se a respeito da existência de alguns oásis em pleno deserto, onde há nascentes de água e um clima agradável. Um oásis bastante conhecido em Israel e até mesmo mencionado em algumas passagens bíblicas é o Ein Gedi, atualmente uma atração turística bastante requisitada.
Os pastos verdejantes e as águas tranquilas são revigorantes para as ovelhas, aliviam seu estresse e ansiedade, restauram suas forças e vitalidade. Esse é o resultado de ser ovelha do Senhor: necessidades supridas e vigor restaurado, dia após dia. A esse respeito, encontramos uma promessa também bastante parecida em Apocalipse:
Nunca mais terão fome, nunca mais terão sede. Não os afligirá o sol nem qualquer calor abrasador, pois o Cordeiro que está no centro do trono será o seu Pastor; ele os guiará às fontes de água viva. E Deus enxugará dos seus olhos toda lágrima. (Ap 7.16-17)
Esse salmo de Davi não poderia ser mais verdadeiro! Se temos o Senhor como nosso pastor, realmente não temos falta de absolutamente nada.
Seguindo com sua declaração, o salmista afirma que o Senhor, seu pastor, o guia pelas veredas da justiça. A razão primordial disso pode ser entendida no seguinte trecho do cântico de Moisés:
Ele é a Rocha, as suas obras são perfeitas, e todos os seus caminhos são justos. É Deus fiel, que não comete erros; justo e reto ele é. (Dt 32.4)
Ora, se o bom Pastor é justo e reto, sendo todos os seus caminhos igualmente justos, logicamente Ele guiará suas ovelhas por esses mesmos caminhos, isto é, pelas veredas da justiça. O Senhor não transita por caminhos injustos e Suas ovelhas, consequentemente, também não o podem fazer. Nesse ponto reside a evidência de quem realmente tem tido o Senhor como seu pastor: “As minhas ovelhas ouvem a minha voz [...] e elas me seguem” (Jo 10.27). Se alguém se diz ovelha do Senhor, mas não tem sido guiado pelas veredas da justiça, precisa se defrontar com a dura realidade de que não é de fato. Talvez a pessoa até esteja sendo guiada por um pastor religioso e humano, provavelmente tão perdido e enganado quanto ela, mas ovelha do Senhor ela não tem sido, pois o bom Pastor guia Suas ovelhas pelas veredas da justiça, pois todos os Seus caminhos são justos e as Suas ovelhas o seguem em todos eles, pois dão ouvido à Sua voz.
É importante destacar aqui que é o Senhor quem guia as Suas ovelhas pelas veredas da justiça, e não elas que se conduzem por esse caminho autonomamente. Lembremo-nos de que as ovelhas são extremamente dependentes do pastor. Dessa forma, somente aqueles que são verdadeiramente guiados por Deus é que conseguem transitar por essas veredas da justiça. Vejamos o que o apóstolo Paulo nos ensina a esse respeito:
Mas agora se manifestou uma justiça que provém de Deus [...] mediante a fé em Jesus Cristo para todos os que creem [...] sendo justificados gratuitamente por sua graça, por meio da redenção que há em Cristo Jesus. [...] Tendo sido, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo, por meio de quem obtivemos acesso pela fé a esta graça na qual agora estamos firmes [...] Nós, os que morremos para o pecado, como poderemos continuar vivendo nele? [...] Não sabem que, quando vocês se oferecem a alguém para lhe obedecer como escravos, tornam-se escravos daquele a quem obedecem: escravos do pecado que leva à morte, ou da obediência que leva à justiça? Mas, graças a Deus, porque, embora vocês tenham sido escravos do pecado, passaram a obedecer de coração à forma de ensino que lhes foi transmitida. Vocês foram libertos do pecado e tornaram-se escravos da justiça. [...] vocês não estão sob o domínio da carne, mas do Espírito, se de fato o Espírito de Deus habita em vocês. E, se alguém não tem o Espírito de Cristo, não pertence a Cristo. [...] se pelo Espírito fizerem morrer os atos do corpo, viverão, porque todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus. (Rm 3.21-24; 5.1-2; 6.2, 16-18, 9, 13-14)
Eis a síntese do mistério da salvação! Deus é justo e nós, pecadores, injustos. Cristo, o bom Pastor, sendo justo, deu Sua vida por nós, sofrendo, sem merecer, a condenação pelos nossos pecados. Por meio da fé no bom Pastor, ao ouvirmos a Sua voz, isto é, o evangelho, a boa notícia de salvação que Ele nos veio dar (Rm 10.17), somos perdoados e considerados justos diante do Pai, a partir de quando o Espírito de Cristo nos guia pelo caminho da santidade, ou seja, da justiça, na perspectiva divina. Somente os que verdadeiramente creram na salvação por meio de Cristo receberam o poder de serem feitos filhos de Deus (Jo 1.12-13). Estes são as ovelhas que ouvem a Sua voz e são por Ele guiadas pelas veredas da justiça. Somente crendo nesse bom Pastor é que podemos transitar pelos caminhos justos, pois Ele é o próprio caminho (Jo 14.6).
Pois vocês são salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de vocês, é dom de Deus; não por obras, para que ninguém se glorie. Porque somos criação de Deus realizada em Cristo Jesus para fazermos boas obras, as quais Deus preparou antes para nós as praticarmos. (Ef 2.8-10)
Ninguém pode se guiar pelas veredas da justiça por si mesmo, visando tentar provar que merece o “nada me faltará” gananciosamente. Há muitos que espiritualizam uma disciplina moral que aprenderam na instituição religiosa da qual fazem parte por uma política de “santidade” imposta pelos líderes, mas que, na verdade, nunca nasceram de Deus. Estão tentando conquistar a sua salvação dia após dia pelas suas próprias obras, como se fossem merecedores disso por deixarem de ingerir bebida alcóolica, xingar palavrão e se prostituir, por exemplo. Não podemos nos guiar a nós mesmos pelas veredas da justiça. A Bíblia é clara ao afirmar que “não há nenhum justo” (Rm 3.10), “pois todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus” (Rm 3.23). Somente o Senhor pode nos justificar, incorporando-nos como ovelhas do Seu rebanho, por meio da nossa regeneração, quando cremos em Cristo e nascemos do Espírito de Deus. A partir daí é que passamos verdadeiramente a produzir frutos de justiça, pois somos guiados pelo Senhor a praticarmos as boas obras que Ele já havia preparado antes para nós, ou seja, conduzidos nas veredas da justiça que Ele próprio preparou. Qualquer obra aparentemente boa praticada por quem não nasceu de novo está contaminada pela sua essência injusta. O homem pode até tentar andar por um caminho religioso e evitar cometer os pecados prescritos na Bíblia, mas isso é somente aparência, pois o interior continua corrompido (Mt 23.25-28). Não é à toa o provérbio de que “há caminho que parece certo ao homem, mas no final conduz à morte” (Pv 14.12).
Evidente, pois, que ninguém pode se gloriar por andar nos caminhos justos. E isso se ajusta perfeitamente à razão apresentada pelo salmista para que o Senhor guie Suas ovelhas pelas veredas da justiça: “por amor do seu nome”. A qualidade do trabalho produzido por alguém evidencia a sua capacidade profissional. Filhos educados e bem-sucedidos são motivo de honra para os pais entre seus pares. O trabalho não pode se vangloriar de si mesmo, pois o profissional é que o realizou. O filho não pode dar a si mesmo o crédito da sua boa criação, pois ela foi efetuada por seus pais. De semelhante modo, a ovelha não pode se exaltar da sua ótima condição e da sua lã maravilhosa. É o pastor, zeloso pela sua reputação, que cuida das ovelhas com tanto amor, apesar da absoluta fragilidade delas.
Há muitos registros na Bíblia de ocasiões em que o Senhor afirmava estar fazendo determinada coisa boa por amor do Seu próprio nome. Um deles é a profecia de Ezequiel a respeito da restauração de Israel do exílio, na qual Deus é bastante enfático quanto ao zelo por Seu nome.
E, por onde andaram entre as nações, eles profanaram o meu santo nome, pois se dizia a respeito deles: “Esse é o povo do SENHOR, mas assim mesmo teve que sair da terra que o SENHOR lhe deu”. Tive consideração pelo meu santo nome, o qual a nação de Israel profanou entre as nações para onde tinha ido. Por isso, diga à nação de Israel: Assim diz o Soberano, o SENHOR: Não é por sua causa, ó nação de Israel, que farei essas coisas, mas por causa do meu santo nome, que vocês profanaram entre as nações para onde foram. Mostrarei a santidade do meu santo nome, que foi profanado entre as nações, o nome que vocês profanaram no meio delas. Então as nações saberão que eu sou o SENHOR, palavra do Soberano, o SENHOR, quando eu me mostrar santo por meio de vocês diante dos olhos delas. [...] Então vocês se lembrarão dos seus caminhos maus e das suas ações ímpias e terão nojo de vocês mesmos por causa das suas iniquidades e das suas práticas repugnantes. Quero que saibam que não estou fazendo isso por causa de vocês. Palavra do Soberano, o SENHOR. Envergonhem-se e humilhem-se por causa de sua conduta, ó nação de Israel! Assim diz o Soberano, o SENHOR: No dia em que eu os purificar de todos os seus pecados, restabelecerei as suas cidades e as ruínas serão reconstruídas. [...] Então as nações que estiverem ao redor de vocês e que subsistirem saberão que eu, o SENHOR, reconstruí o que estava destruído e replantei o que estava arrasado. Eu, o SENHOR, falei, e o farei. Assim diz o Soberano, o SENHOR: Uma vez mais cederei à súplica da nação de Israel e farei isto por ela [...] Então eles saberão que sou o SENHOR. (Ez 36.20-23, 31-33, 36-38)
Não é porque sejamos dignos ou merecedores, ou então porque sejamos boas ovelhinhas, fáceis de cuidar (muito pelo contrário), que o bom Pastor faz tudo isso que vemos no salmo 23 por nós. É tão somente por amor do Seu nome. Lembremo-nos, nesse ponto, que Seu nome não é um título místico por meio do qual Seus devotos podem controlar Seus poderes, conforme a noção geral do paganismo no Mundo Antigo. Seu nome é “Eu Sou” (Ex 3.14; Jo 8.58). O nome do Senhor é o que Ele é. É pelo zelo que Ele tem com a coerência do Seu caráter eterno e imutável de amor, justiça, bondade, misericórdia, fidelidade, entre tantos outros atributos, que Ele age dessa forma, e jamais porque nós O tenhamos atraído com alguma coisa boa em nós.
Entender isso é maravilhoso demais! Ele não muda e zela pelo Seu santo nome. Podemos plenamente sossegar e descansar em Sua graça, permitindo-nos ser guiados pelo bom Pastor, pois Ele cuida assim tão bem de nós a ponto de dar a Sua própria vida exclusivamente por amor do Seu nome. Nada disso depende de algo atrelado a nós e, portanto, não corremos o risco de deixarmos de tê-Lo como nosso pastor se não atendermos às Suas expectativas (feito que nunca conseguiríamos alcançar por nós mesmos).
Dessa forma, cientes da infalibilidade e imutabilidade do caráter do Senhor, não precisamos ser reféns de quaisquer temores, independentemente das circunstâncias, pois o bom Pastor está conosco. É justamente sobre isso que o salmista trata a seguir.
A provável referência para o tão mencionado “vale da sombra da morte” são literalmente vales estreitos que se formam entre encostas rochosas no deserto e servem de caminho para atravessar de um determinado lugar a outro. A tradução da NVI sugere que trevas e morte sejam termos distintos nessa sentença. Trevas porque esses vales podem ser tão profundos que a luz do sol não os preencha por inteiro ao longo da maior parte do dia. Morte porque esses vales eram repletos de perigo por conta de bandidos e feras selvagens que se aproveitavam deles para atacar suas presas, sem contar com os declives escorregadios que poderiam quedar o rebanho. Além disso, também se fala de alguns vales cuja configuração geográfica permite que sejam alagados em pouquíssimo tempo devido a algumas circunstâncias. Portanto, para as ovelhas, a travessia desses vales representa perigos incalculáveis para suas vidas.
O salmista, por sua vez, afirma que, mesmo que tenha que atravessar vales de trevas e morte, tão perigosos às ovelhas, ele não temeria mal algum, pois o Senhor, seu pastor, está com ele. O bom Pastor não falha, não deixa de amar, não deixa de Se importar, não deixa de proteger, não deixa de Se compadecer e não permite que nenhuma ovelha seja arrebatada de Sua mão (Jo 10.28-30). Uma verdadeira ovelha do Senhor não tem nada a temer, mesmo nas circunstâncias mais perigosas e atormentadoras, pois o bom Pastor sempre está com elas e não falha em Sua função.
Para garantir a integridade de suas ovelhas, o pastor utilizava um bordão. Esse instrumento era uma vara de madeira pesada, geralmente com algumas pedras ou pregos na sua extremidade, e servia para combater as feras do campo que ameaçassem a vida das ovelhas. Já o cajado era um outro tipo de vara, mais longo e menos denso, geralmente com uma curvatura na extremidade. Ele servia como instrumento de apoio para o pastor nos terrenos mais irregulares, assim como para guiar as ovelhas, resgatá-las de buracos, contá-las, passando uma a uma debaixo dele, e até mesmo para bater nelas, empurrando-as em direção ao caminho correto, caso se desviassem. O Senhor tem todo o poder e autoridade para garantir a proteção do seu rebanho, razão pela qual, novamente, Davi não tinha o que temer, mesmo que andasse pelo vale da sombra da morte.
A partir de agora, a metáfora muda, mantendo-se, contudo, o mesmo sentido:
Preparas um banquete para mim à vista dos meus inimigos. Tu me honras, ungindo a minha cabeça com óleo e fazendo transbordar o meu cálice. Sei que a bondade e a fidelidade me acompanharão todos os dias da minha vida, e voltarei à casa do SENHOR enquanto eu viver. (Sl 23.5-6)
O salmista ilustra sua relação com o Senhor por meio de um banquete. Na cultura do Antigo Oriente, a hospitalidade era um fator muito importante. O anfitrião tinha a responsabilidade de prover todas as necessidades do hóspede viajante. Este, uma vez alojado na residência daquele, ficava sob a sua dependência e cuidado.
O banquete, em específico, provavelmente está relacionado a uma festa, mas pode também estar relacionado a uma refeição de recepção do hóspede. Isso era tão caro àquela sociedade que, caso o anfitrião não tivesse alimentos suficientes para providenciar esse banquete, ele acionaria seus vizinhos, mesmo que fosse alta noite, para tornar isso possível. No entanto, a figura de uma festa especial se mostra mais adequada em razão da presença inusitada dos inimigos. Naquela época, era bastante comum que, quando da ascensão de algum súdito real a um cargo de elevado poder, o soberano preparasse um banquete para comemorar esse acontecimento, com a participação de toda a nobreza, incluindo-se aí os opositores do agraciado.
Quando o hóspede chegava para o banquete, tiravam-se suas sandálias e lavavam-se seus pés, a fim de que a sujeira externa não contaminasse o interior da residência. Também era comum haver na entrada dos grandes banquetes talhas ou algo semelhante em que fosse possível lavar as mãos. Além disso, devido às altas temperaturas sob as quais os viajantes percorriam suas rotas, a pele do rosto ficava desidratada. Uma forma de honrar esse convidado era ungindo a sua cabeça com azeite de oliva perfumado com especiarias aromáticas.
O cálice transbordante representa a fartura com que o anfitrião provê tudo ao seu convidado de honra. O vinho era símbolo de alegria e item imprescindível em um banquete. Lembremo-nos do primeiro milagre de Jesus, em uma ocasião de falta de vinho em um banquete de casamento. Se a escassez de vinho era motivo de repúdio, o cálice transbordante era sinal de alegria e fartura em um banquete.
No livro de Ester, vê-se esse “cálice transbordante” nos suntuosos banquetes do rei Assuero, nos quais o vinho era servido em taças de ouro e todos bebiam sem restrições (Et 1.7-8). Curioso notar que nesse mesmo livro há uma cena de um banquete de Ester na presença do inimigo seu e de todo o seu povo, Hamã, achando ela graça aos olhos do rei, triunfando sobre o desígnio cruel desse homem (Et 7.1-10). Ainda na linha dos exemplos percebidos na própria Bíblia, vê-se em Lc 7.36-50 que a omissão do fariseu Simão a respeito dos atos hospitaleiros representava o seu desprezo por Cristo, em contraste com o amor que a mulher pecadora expressou ao praticá-los voluntariamente.
Vale ressaltar que, da mesma forma como Cristo se apresentou como sendo o bom Pastor das ovelhas que o Pai lhe deu, Ele também compara o reino dos céus a um banquete (Mt 22.1-14; Lc 14.15-24). Aqui, podemos ver mais uma vez a maravilha de vivermos sob o cuidado e dependência do Senhor. Ele nos honra e nos farta com a Sua provisão, e tudo isso na presença dos nossos inimigos.
Nesse ponto, é importante também salientar que não devemos aguçar nosso revanchismo com esse texto. A indústria musical gospel está repleta de canções pautadas em “esfregar” as bençãos na cara dos inimigos como uma forma de se vingar deles, sempre exaltando a qualidade de “forte”, “vencedor”, “conquistador” e “capaz” do crente vingador. É nesse mesmo sentido que foi promovida a campanha mencionada no início desse artigo, convocando todos que tinham inimigos e adversários a convidá-los para “se sentarem” e verem os participantes sendo servidos por Deus com o cálice transbordante. Isso não é esperado de crentes em Jesus. Cristo nos ensinou exatamente o oposto disso:
Vocês ouviram o que foi dito: “Olho por olho e dente por dente”. Mas eu digo: Não resistam ao perverso. Se alguém o ferir na face direito, ofereça-lhe também a outra. E, se alguém quiser processá-lo e tirar de você a túnica, deixe que leve também a capa. [...] Vocês ouviram o que foi dito: “Ame o seu próximo e odeie o seu inimigo”. Mas eu digo: Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem, para que vocês venham a ser filhos de seu Pai que está nos céus. Porque ele faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos. (Mt 5.38-40, 43-45)
O apóstolo Paulo, por sua vez, ensinou aos romanos: “Amados, nunca procurem vingar-se, mas deixem com Deus a ira, pois está escrito: ‘Minha é a vingança; eu retribuirei ’, diz o Senhor.” (Rm 12.19).
No salmo 23, percebemos que aquele que prepara o banquete intencionalmente à vista dos inimigos de Davi é o Senhor. Não é o salmista que procura a honra, mas Deus que a dá por graça ao Seu servo. Não percamos de vista que tudo o que Ele faz é por amor do Seu nome. Portanto, deve-se ter muita cautela com esse texto e interpretá-lo em concordância com todas as Escrituras. Da mesma forma como muitos têm projetado a sua ganância materialista sobre o “nada me faltará”, muitos também têm projetado seu ódio e ira sobre o banquete à vista dos inimigos. Jesus já nos advertiu previamente:
Mas quando você for convidado, ocupe o lugar menos importante, de forma que, quando vier aquele que o convidou, diga: “Amigo, passe para um lugar mais importante”. Então você será honrado na presença de todos os convidados. Pois todo o que se exalta será humilhado, e o que se humilha será exaltado. (Lc 14.10-11)
A honra e abundância desse maravilhoso banquete se traduzem agora em bondade e fidelidade seguindo Davi todos os dias de sua vida. Note-se que não são bens e riquezas, necessariamente. Não são mansões e carruagens, propriamente. É bondade e fidelidade. Bondade é todo o bem que Deus nos faz pela Sua infinita graça, pois nós, pelos nossos próprios méritos, não merecemos bem algum do Senhor. Fidelidade é a garantia de que Ele manterá a Sua aliança conosco, pela qual se propõe a cuidar de nós e prover nossas necessidades. Em muitas traduções se lê “misericórdia” em lugar de “fidelidade”, cujo sentido é muito parecido, pois é pela misericórdia de Deus que não somos consumidos (Lm 3.22-23), pelo que Ele, ao invés de derramar sobre nós a Sua ira, perdoa-nos mediante o sangue de Cristo, tratando-nos agora como Seus filhos amados.
Na última declaração desse maravilhoso salmo de confiança, Davi expressa seu desejo de sempre desfrutar da comunhão com o Senhor em Sua santa presença, desfrutando desse amor e cuidado para toda a eternidade. Esse é o real desejo do cristão autêntico. Embora, pela graça de Deus, possa vir a desfrutar de bens e riquezas nessa vida, ele não os persegue nem entra em disputa com o Senhor exigindo tais futilidades. Ele descansa na graça de Cristo, seu bom Pastor, que o guia e provê tudo o que lhe é necessário, de modo que, mesmo que não tenha bens e riquezas nessa vida terrena, de nada ele tem falta, pois se satisfaz no Senhor. Seu maior desejo é “subir o monte do SENHOR” e “entrar no seu Santo Lugar” (Sl 24.3), isto é, desfrutar da comunhão com Deus em Sua santa presença, especialmente na eternidade prometida aos que O amam.
Por fim, que as palavras do apóstolo Paulo, inspiradas pelo Espírito Santo, possam demonstrar a real expectativa de alguém que compreendeu o verdadeiro significado do salmo 23:
Temos, pois, confiança e preferimos estar ausentes do corpo e habitar com o Senhor. Por isso, temos o propósito de lhe agradar, quer estejamos no corpo, quer o deixemos. (2Co 5.8-9)
À luz de todo o exposto, resta evidenciado que o salmo 23 não é argumento para as doutrinas heréticas da teologia da prosperidade, que associam necessariamente o cristão às riquezas e ao revanchismo contra aqueles que se lhe opõem. Pelo contrário, ele expõe claramente que vivemos por graça, sob a mais absoluta dependência do nosso bom Pastor, em quem nos satisfazemos plenamente e com quem aspiramos habitar para sempre.
Nota: transcrições bíblicas extraídas da Bíblia Sagrada, Nova Versão Internacional ®, NVI ® Copyright © 1993, 2000, 2011 by Biblica, Inc., exceto aquelas cujas descrições indiquem versão diversa.
REFERÊNCIAS OFICIAIS DA UNIVERSAL:
1. O que não lhe contaram sobre o Salmo 23, publicado em 26/04/2019.
2. Domingo do nada me faltará, publicado em 12/04/2021.
3. Deus é tudo o que você precisa, publicado em 09/06/2023.
4. Domingo do Nada Me Faltará, sem data de publicação informada.
5. Quer ter uma vida como a do Salmo 23?, sem data de publicação informada.




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