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A importância do exame das Sagradas Escrituras

14 de ago. de 2024
7 min de leitura
Há um famoso salmo que diz: “A tua palavra é lâmpada que ilumina os meus passos e luz que clareia o meu caminho” (Sl 119.105). Para o salmista, não houvesse a Palavra de Deus, seu proceder seria em trevas e, portanto, estaria exposto aos mais variados perigos noturnos.
Podemos observar o zelo com que o homem é continuamente convidado a meditar nas Sagradas Escrituras desde os tempos mais remotos. Quando Moisés repassava ao povo hebreu recém-liberto da servidão no Egito, prestes a entrar na terra prometida, a Lei do Senhor, a orientação era a seguinte:
Que todas estas palavras que hoje lhe ordeno estejam em seu coração. Ensine-as com persistência a seus filhos. Converse sobre elas quando estiver andando pelo caminho, quando se deitar e quando se levantar. Amarre-as como um sinal nos braços e prenda-as na testa. Escreva-as nos batentes das portas de sua casa e em seus portões. (Dt 6.6-9)
Note-se a ênfase dada à necessidade de contínua observação das Palavras dadas por Deus aos hebreus por intermédio de Moisés. Não bastava ouvir; antes, era necessário que a Lei estivesse guardada no coração. Não bastava ensinar aos filhos; antes, era necessário que isso fosse feito com persistência. Não bastava conversar sobre ela; antes, era necessário que isso fosse feito em todas as ocasiões. Ainda, era preciso que as tivesse amarradas nos braços e na testa, além de escritas nos batentes das portas. É evidente o caráter didático de tal ordenança: procedendo assim, o povo teria intimidade com a Palavra e suas implicações, sendo capaz de discernir a coisa certa a se fazer, jamais se esquecendo do que Deus ordenou. 
O Senhor, por intermédio do profeta Oseias, enviou uma grande advertência ao povo de Israel:
A fidelidade e o amor desapareceram desta terra, como também o conhecimento de Deus. […] Meu povo foi destruído por falta de conhecimento. Uma vez que vocês rejeitaram o conhecimento, eu também os rejeito como meus sacerdotes; uma vez que vocês ignoraram a lei do seu Deus, eu também ignorarei seus filhos. […] Portanto, castigarei tanto o povo quanto os sacerdotes por causa dos seus caminhos e lhes retribuirei seus atos. (Os 4.1,6,9)
Sabe-se que a instrução religiosa era responsabilidade dos sacerdotes. Eles tinham, dentre outros, o dever de transmitir os mandamentos do Senhor a todo o povo. No entanto, o que se via nos tempos de Oseias era uma completa ausência de conhecimento, razão pela qual o povo foi destruído. O que chama a atenção, nesse caso, é que, não bastasse a ruína espiritual em que se encontrava aquele povo pela negligência dos sacerdotes, ele ainda seria castigado juntamente com os levitas, o que significa que, embora o povo não tivesse o dever de instruir na mesma proporção dos sacerdotes, tinha a responsabilidade de buscar o conhecimento de Deus, de observar o que havia sido ensinado desde os primórdios, por intermédio de Moisés e dos verdadeiros profetas. 
Quando Deus anunciou a Isaías que a Assíria seria usada como instrumento de juízo contra o povo de Israel, o profeta instruiu que guardassem o mandamento com cuidado e selassem a lei entre os seus discípulos (Is 8.16). Então, ele dá a seguinte orientação:
Quando disserem a vocês: “Procurem um médium ou alguém que consulte os espíritos e murmure encantamentos, pois todos recorrem a seus deuses e aos mortos em favor dos vivos”, respondam: “À lei e aos mandamentos!” Se eles não falarem conforme esta palavra, vocês jamais verão a luz! (Is 8.19-20)
O profeta Isaías, inspirado pelo Espírito de Deus, afirma categoricamente que não há outra fonte de consulta que não seja a Lei e os mandamentos do Senhor. De fato, a situação que ele confronta é a consulta a espíritos dos mortos e prática de magia. No entanto, o princípio de que somente a Lei e os mandamentos do Senhor são autoridade e fonte de verdade é aplicável a qualquer outra situação em que doutrinas sejam sustentadas por algum fundamento que não seja exclusivamente a Palavra de Deus. Desse modo, eis aí mais uma evidência de que é responsabilidade do povo de Deus em geral de estar atento ao que lhes é pregado, pois, se não for conforme a Lei e os mandamentos, jamais verá a luz; pelo contrário, andará em trevas.

A necessidade de uma correta compreensão da Palavra

É necessário ir além no entendimento desse princípio. Consideremos que há um sério risco de a Palavra não ser devidamente compreendida e, com uma interpretação deturpada, servir de base para uma doutrina. Tomemos como exemplo os saduceus, uma seita judaica dos tempos de Cristo formada por grandes estudiosos das Escrituras, homens altamente instruídos e das mais altas castas sociais. Estes, apesar disso, não criam na ressureição dos mortos e Cristo, quando por eles tentado em uma questão acerca do assunto, introduziu a resposta da seguinte maneira: “Vocês estão enganados!, pois não conhecem as Escrituras nem o poder de Deus!” (Mt 22.29; Mc 12.24). Ora, o Senhor Jesus afirmou que os grandes estudiosos das Escrituras estavam no engano por não conhecerem as Escrituras. Que aparente contradição! Cristo estava lhes advertindo que não conheciam o real significado daquelas Palavras divinas e, por isso, estavam presos no erro. 
Em outra ocasião, Jesus havia curado um paralítico ao lado do tanque de Betesda num dia de sábado. Isso gerou um rebuliço entre os líderes religiosos dos judeus, que O perseguiam e procuravam matá-lO. Cristo, então, ao lhes dar uma explicação a respeito do seu ministério, disse-lhes: “Vocês estudam cuidadosamente as Escrituras, porque pensam que nelas vocês têm a vida eterna” (Jo 5.39). Vemos, então, que Jesus está lidando com homens que têm algum nível de intimidade com as Escrituras e a estudam, dando crédito à veracidade e santidade da Palavra. Embora haja uma divergência quanto às possibilidades de tradução (uns dizem que Jesus afirma que eles examinam as Escrituras cuidadosamente e outros que Jesus está orientando que eles passem a fazê-lo, pois até então não o faziam), fato é que eles eram líderes religiosos dos judeus e estudavam a Lei e os profetas. E a afirmação de Cristo nesse sentido é pesada: “E são as Escrituras que testemunham a meu respeito; contudo, vocês não querem vir a mim para terem vida” (Jo 5.39-40). 
Vê-se, então, que não basta que um ensino esteja fundamentado em algum extrato da Palavra. É necessário que a fundamentação de qualquer doutrina que se diga bíblica seja coerente e aponte única e exclusivamente para Cristo, pois é dEle que as Escrituras dão testemunho. Aqueles renomados conhecedores das Escrituras nos tempos de Jesus as estudavam e fundamentavam nisso todo o seu modo de viver. Contudo, aquele estudo era equivocado, espiritualmente supérfluo, observava a letra da lei, mas não os princípios divinos que estavam diluídos nos textos. 
O apóstolo Paulo, em sua segunda carta a Timóteo, afirma que as Sagradas Letras que ele conhecia desde criança “são capazes de torná-lo sábio para a salvação mediante a fé em Cristo Jesus” (2Tm 3.15). E conclui dizendo que “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça, para que o homem de Deus seja apto e plenamente preparado para toda boa obra” (2Tm 3.16-17). Precisamos, portanto, dedicar-nos ao exame de toda a Escritura, e não apenas nos determos em trechos isolados e desconectados de todo o sistema bíblico, pois a Palavra de Deus como um todo é extremamente útil e necessária para que nos tornemos sábios para a salvação e preparados para toda boa obra.

Responsabilidade individual do ouvinte

Diante de todo o exposto, resta evidenciada a responsabilidade de cada indivíduo examinar as Escrituras Sagradas quando ouve uma mensagem ou recebe um determinado ensino que se diga bíblico, a fim de confirmar se aquilo está em harmonia com toda a Palavra de Deus ou se é algo sem firme fundamento escriturístico. Contudo, pode surgir o seguinte questionamento: se o pastor falou algo e citou o versículo em que tal coisa está escrita, não seria incredulidade, maus olhos ou malícia examinar as Escrituras para confirmar o fundamento bíblico do que foi falado? 
Nesse ponto, cabe citar um exemplo bíblico bastante pertinente a essa discussão. Paulo e Silas chegaram a uma cidade chamada Tessalônica e lá o apóstolo passou três sábados discutindo com os judeus em uma sinagoga a respeito das Escrituras, “explicando e provando que o Cristo deveria sofrer e ressuscitar dentre os mortos. E dizia: ‘Este Jesus que proclamo é o Cristo’” (At 17.3). Aqui já reside uma peculiaridade muito interessante no método de pregação de Paulo: o evangelho era explicado (clareza e transparência na transmissão dos fatos, conceitos e seus significados) e provado (devidamente fundamentado nas Escrituras como um todo). Após alguns problemas com os judeus que não criam em Jesus, Paulo e Silas precisaram sair de Tessalônica e se dirigiram à cidade de Bereia, onde procederam da mesma forma: foram anunciar o evangelho na sinagoga. Contudo, há um registro muito enfático de que “os bereanos eram mais nobres do que os tessalonicenses, pois receberam a mensagem com grande interesse, examinando todos os dias as Escrituras, para ver se tudo era assim mesmo” (At 17.11). 
Aqui podemos pontuar que há um estranho costume de muitos cristãos atualmente de receberem a mensagem do evangelho sem grande interesse. O interesse de muitos está nas conquistas financeiras, na cura, nos prodígios, na autoestima. Por essa razão, não examinam as Escrituras para ver se é tudo assim mesmo, pois o seu interesse principal não está na mensagem do evangelho, mas nas coisas que quer receber na vida terrena. Desse modo, aos poucos as Escrituras vão sendo trabalhadas de modo que sejam conformadas ao interesse dos ouvintes e não mais apontam para Cristo. 
Esse processo não envolve o completo abolicionismo de Jesus, nosso Senhor, mas, de maneira sutil, Ele perde a exclusividade que naturalmente possui na Bíblia Sagrada, pois essa mensagem precisa agora atender a outros interesses que não unicamente a salvação pela graça mediante a fé em Cristo. 
Novamente, o apóstolo Paulo nos ensina que “a fé vem por se ouvir a mensagem” (Rm 10.17). No entanto, são muitas as mensagens propagadas em toda a terra. É lícito, então, crer em todas as mensagens? De modo algum! Aqui se nos apresenta um importantíssimo critério para a mensagem que produzirá em nós a fé para a nossa salvação: “e a mensagem é ouvida mediante a palavra de Cristo” (Rm 10.17). Somente a mensagem ouvida mediante a palavra de Cristo pode produzir salvação. Qualquer desvio, qualquer deturpação, qualquer descontextualização, consiste em um risco mortal para o ouvinte.

Conclusão

Portanto, somos todos individualmente responsáveis, tal qual os bereanos nos deram o exemplo, por examinar a mensagem a que temos dado ouvidos, a fim de verificar se ela é mediante a palavra de Cristo e se, de acordo com todo o sistema escriturístisco, é tudo assim mesmo como temos ouvido ou não.

Nota: transcrições bíblicas extraídas da Bíblia Sagrada, Nova Versão Internacional ®, NVI ® Copyright © 1993, 2000, 2011 by Biblica, Inc.

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