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Sacrifícios no Antigo Testamento: breve resumo histórico e classificação

Atualizado: 23 de dez. de 2024


No terceiro capítulo do livro de Gênesis, encontra-se a narrativa da queda da humanidade, ocasião em que Adão e Eva desobedecem a Deus ao comerem do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. A primeira consequência foi o despertamento de uma consciência vergonhosa acerca da sua nudez. Eles, então, costuraram folhas de figueira para cobrirem-na. O Senhor, por sua vez, proveu roupas de pele para vesti-los. Tem-se, aqui, portanto, a primeira referência bíblica a um animal morto para fins de tratamento do pecado humano e do que dele decorre. 

No capítulo seguinte, registram-se as ofertas oferecidas pelos filhos do casal. Abel era pastor de ovelhas e, do seu rebanho, ofereceu a Deus a melhor parte (gordura) das primeiras crias do seu rebanho (primícias). Caim era agricultor e, a seu respeito, o narrador limita-se a descrever uma oferta ao Senhor. Dentro desse contexto, a descrição do que Caim ofereceu sugere que tenha sido algo qualquer, sem muita reverência na sua seleção e preparo. De Abel e sua oferta Deus se agradou, o que não se deu em relação a Caim. Abel tinha em seu coração o desejo de agradar a Deus com o que possuía de melhor e mais precioso. O autor da epístola aos hebreus afirma que Pela fé Abel ofereceu a Deus um sacrifício superior ao de Caim. Pela fé ele foi reconhecido como justo, quando Deus aprovou as suas ofertas. (Hb 11.4). Pode-se observar, portanto, que o sacrifício de Abel foi oferecido mediante a sua fé no Senhor e que, por isso, essa oferta foi aprovada e ele foi reconhecido como justo por Deus. Mediante a fé, o seu sacrifício serviu para sua justificação diante do Altíssimo. Novamente, encontra-se a ideia de sacrifício ligada ao tratamento do pecado, para o fim de o homem poder ser aceito diante do Criador novamente, após sua queda

Nos sexto e sétimo capítulos, conta-se sobre a ira de Deus sobre a humanidade por sua iniquidade terrível, trazendo o dilúvio para dar fim ao gênero humano corrompido, poupando, contudo, Noé e sua família. A primeira atitude desse homem, que foi alvo da misericórdia de Deus, ao sair da arca foi levantar um Altar ao Senhor, no qual queimou completamente (holocausto) animais e aves puros, o que soou como aroma agradável a Deus. O termo hebraico para "agradável” (“nikhoakh”), que vem da mesma raiz do próprio nome desse homem (Noakh), está relacionado à ideia de tranquilidade. É interessante que a apresentação desse sacrifício aplaca a ira do Senhor em relação a humanidade. Enquanto nos capítulos anteriores o Criador está disposto a findar a humanidade, sua atitude em relação ao homem agora, após o oferecimento do holocausto, é de nunca mais amaldiçoar a terra e destruir os seres vivos por causa do homem. Aqui encontramos, pois, mais uma prova da relação do sacrifício com o tratamento do pecado, em uma expressão de gratidão a Deus por sua misericórdia. 

No décimo segundo capítulo, a história de Abraão se nos apresenta. O Senhor promete a ele uma descendência numerosa, sendo sua esposa estéril, e ambos já de idade avançada. Quando chegou em Siquém, seguindo conforme a instrução divina, o ainda Abrão edificou um altar a Deus. Quando passou para as proximidades de Betel, erigiu novamente um altar e invocou o nome do Senhor. Vê-se, pois, que o sacrifício no altar é o meio necessário para que o homem seja aceito diante de Deus e possa se relacionar espiritualmente com Ele. Após se separar de Ló e chegar em Manre, Abrão edificou outro altar ao Senhor. 

Quando, no décimo quinto capítulo, o Todo-Poderoso fala com Abraão em uma visão, novamente prometendo dar a ele uma descendência numerosa, destaca-se que a fé daquele homem na Palavra do Senhor foi atribuída para justiça. E, como sinal de que a promessa divina seria cumprida, Deus o instruiu a cortar uma novilha, uma cabra, um carneiro, uma rolinha e um pombinho ao meio e colocar cada metade em frente à outra. Foi garantido a Abraão que sua descendência seria preservada mesmo no cativeiro egípcio e se apropriaria daquela terra que foi prometida pelo Eterno a ela. O Senhor, então passou por entre aqueles animais divididos ao meio, apropriando-se de uma forma de juramento comum àquela época. Esse sacrifício traz uma conotação de aliança entre Deus e a humanidade (por meio da descendência de Abraão seriam benditas todas as nações da terra). 

No vigésimo segundo capítulo, encontra-se o relato da prova de Abraão. Deus ordena que Abraão ofereça Isaque, o filho da promessa, por meio de quem viria a descendência prometida, ao contrário de Ismael, em holocausto. Apesar da aparente contradição, uma vez que sem Isaque não haveria a referida descendência, Abraão se dirigiu à região de Moriá, para o monte que o Senhor indicou, pois sua fé no Deus que o chamou era incondicional, crendo que Ele poderia ressuscitar seu filho (Hb 11.19), a ponto de, quando questionado por Isaque acerca do cordeiro para o sacrifício, responder que Deus proveria. Quando ele pegou o cutelo para consumar a morte do menino, o Anjo do Senhor o interrompeu imediatamente, reconhecendo que era um homem temente a Deus, e eis que Abraão viu um carneiro preso num arbusto e o ofereceu em holocausto em lugar do seu filho. Aqui vê-se que o sacrifício apresenta um caráter substitutivo, pois, onde Isaque deveria ser morto, o Senhor provê um carneiro para ser sacrificado em seu lugar.

No vigésimo sexto capítulo, Isaque enfrenta várias adversidades na terra dos filisteus, mas permanece ali conforme a ordem divina. Quando finalmente conseguiu se estabelecer com paz em Berseba, o Altíssimo lhe aparece o encorajando e garantindo o cumprimento da promessa feita a Abraão, da qual Isaque era herdeiro. O filho da promessa, então, a exemplo de seu pai, constrói um altar para invocar o nome do Senhor. Novamente se vê uma relação entre sacrifício e comunhão com Deus, desfrutando da Sua aliança

No vigésimo oitavo capítulo, Jacó, neto de Abraão, fugindo do seu irmão, Esaú, de quem tomara a benção da primogenitura, tem um sonho em Betel, em que vê uma escada que ligava a terra ao céu, por onde os anjos de Deus transitavam. O Senhor fala com ele de perto, confirmando a promessa que havia feito a Abraão, da qual ele era herdeiro, garantindo estar com ele, guardando-o aonde quer que fosse, e que o traria de volta àquela terra. A reação de Jacó ao acordar desse sonho foi o temor, sabendo que o Eterno estava naquele lugar, que ele chamou de cada de Deus. Em resposta à revelação divina, Jacó erigiu uma coluna com a pedra em que reclinava a cabeça durante o sonho como sinal da presença de Deus naquele lugar e fez um voto de que, se o Senhor cumprisse a Sua promessa, Ele seria o seu Deus e de tudo Lhe daria o dízimo. Uma coluna, contudo, não era um altar. Embora fosse um costume comum entre os canaanitas o erguimento de colunas aos deuses, o Senhor requeria um altar. É importante notar, inclusive, que essa prática foi proibida ao povo de Israel posteriormente (Dt 16.22). A essa altura, portanto, Jacó ainda estava iniciando a sua relação de fé em Deus. 

No trigésimo terceiro capítulo, após a sua verdadeira transformação espiritual em Peniel, a atitude do agora Israel é diferente ao chegar em Siquém: ele levanta um altar (possivelmente o mesmo que seu avô havia erguido) e lhe dá o nome de “Deus, o Deus de Israel”. Sua atitude não é mais de pavor diante do Eterno e um voto de obediência condicionado à obtenção de proteção. Agora sua posição é de um verdadeiro adorador e ele associa a si o Seu poderoso Deus. É isso que representa esse altar erigido em Siquém. De semelhante modo, no trigésimo quinto capítulo, o próprio Senhor ordena que Jacó agora erga um altar lá na mesma cidade de Betel em que Deus o socorreu em sua angústia e confirmou o cumprimento da Sua promessa acerca da descendência de Abraão. Israel, um homem transformado e conhecedor do Altíssimo, determina que todos os que estavam com ele se desfizessem dos ídolos e se purificassem. Então o altar foi levantado por ele e chamado “Deus de Betel”

No livro de Êxodo, em seu décimo segundo capítulo, registra-se a primeira normatização referente ao sistema sacrificial: a instituição da Páscoa. Quando Deus anunciou a décima praga, qual seja, a morte de todos os primogênitos na terra do Egito, prometeu poupar os primogênitos de Israel, desde que estes realizassem o rito sacrificial que Ele instruísse. Cada família deveria tomar um cordeiro ou cabrito de um ano, macho e sem defeito. Ao pôr do sol que daria início à noite da Páscoa, esse animal deveria ser morto e seu sangue deveria ser passado nas ombreiras e na vida superior das portas das casas em que o povo de Deus estaria reunido. Deus explica: “O sangue será um sinal para indicar as casas em que vocês estiverem; quando eu vir o sangue, passarei adiante. A praga de destruição não os atingirá quando eu ferir o Egito.” (Ex 12.13). Da mesma forma como Isaque foi poupado em razão carneiro provido pelo Senhor, os primogênitos dos hebreus foram poupados do juízo divino contra o Egito em razão do cordeiro imolado, cujo sangue servia como sinal para que não fossem atingidos pela praga

No vigésimo capítulo, há a seguinte instrução a respeito dos altares aceitos por Deus:

Façam-me um altar de terra e nele sacrifiquem-me os seus holocaustos e as suas ofertas de comunhão, as suas ovelhas e os seus bois. Onde quer que eu faça celebrar o meu nome, virei a vocês e os abençoarei. Se me fizerem um altar de pedras, não o façam com pedras lavradas, porque o uso de ferramentas o profanaria. Não subam por degraus ao meu altar, para que nele não seja exposta a sua nudez. (Ex 20.24-26)

Nessa altura, ainda não havia sido estabelecido o Tabernáculo de Moisés, que seria posteriormente substituído pelo Templo de Salomão. Portanto, o povo estava peregrinando pelo deserto, sempre se deslocando conforme a direção divina. Contudo, a exemplo dos patriarcas, havia uma tendência a erigir um altar e sacrificar sobre ele nos lugares onde Deus se revelava ao Seu povo e se comunicava com ele. O Senhor, instrui, portanto, o povo de Israel a edificar altares simples, preferencialmente de terra. Se fossem de pedra, os altares deveriam ser feitos de pedras brutas, e não lavradas. Isso impedia que os israelitas reutilizassem pedras de altares pagãos ou mesmo fossem tentados a, durante a lapidação, realizarem uma associação do altar do Altíssimo a alguma imagem, à semelhança dos ídolos. Os altares também deveriam ser baixos. Os idólatras tinham a ideia de que, quanto maior o altar, mais próximo da divindade. No caso do povo de Deus, o que importava era a que sua alma fosse elevada ao Senhor, e não o altar. Ainda, se subissem degraus, suas vestes consequentemente subiriam e partes do seu corpo seriam expostas. Como a nudez tomou uma conotação vergonhosa por ocasião do pecado no Éden, ela deveria ser evitada no serviço sacrificial, demonstrando-se, assim, reverência e santidade. 

No vigésimo quarto capítulo, Deus confirmou a Sua aliança com Israel e Moisés a sela, juntamente com o povo, erigindo um altar e apresentando holocaustos e sacrifícios pacíficos, cujo sangue aspergiu tanto sobre o altar quanto sobre o povo. Então, ele, juntamente com Arão e seus filhos, bem como com os setenta anciãos, apresenta-se diante do Eterno, o qual convoca Moisés a subir para ainda mais perto dEle, a fim de receber as tábuas da Lei e as demais instruções, tanto cívicas quanto religiosas. O sacrifício, portanto, serviu como meio de expiação dos pecados do povo, a fim de que seu representante se colocasse diante de Deus sem contaminação alguma. 

Após dar a Moisés as instruções acerca da construção e ornamentação do tabernáculo e das vestes sacerdotais, o Senhor, no vigésimo nono capítulo, determina como será a consagração dos sacerdotes. A preparação se dá da seguinte forma:

Assim você os consagrará, para que sirvam como sacerdotes: separe um novilho e dois cordeiros sem defeito. Com a melhor farinha de trigo, sem fermento, faça pães e bolos amassados com azeite, e pães finos, untados com azeite. Coloque-os numa cesta e ofereça-os dentro dela; também ofereça o novilho e os dois cordeiros. Depois traga Arão e seus filhos à entrada da Tenda do Encontro e mande-os lavar-se. Pegue as vestes e vista Arão com a túnica e o peitoral. Prenda o colete sacerdotal sobre ele com o cinturão. Ponha-lhe o turbante na cabeça e prenda a coroa sagrada ao turbante. Unja-o com o óleo da unção, derramando-o sobre a cabeça de Arão. Traga os filhos dele, vista cada um com uma túnica e um gorro na cabeça. Ponha também os cinturões em Arão e em seus filhos. O sacerdócio lhes pertence como ordenança perpétua. Assim você dedicará Arão e seus filhos. (Ex 29.1-9)

Em seguida, dever-se-ia apresentar a oferta pelo pecado:

Traga o novilho para a frente da Tenda do Encontro. Arão e seus filhos colocarão as mãos sobre a cabeça do novilho, e você o sacrificará na presença do SENHOR, defronte da Tenda do Encontro. Com o dedo, coloque um pouco do sangue do novilho nas pontas do altar e derrame o resto do sangue na base do altar. Depois tire toda a gordura que cobre as vísceras, o lóbulo do fígado e os dois rins com a gordura que os envolve e queime-os no altar. Mas queime a carne, o couro e o excremento do novilho fora do acampamento; é oferta pelo pecado. (Ex 29.10-14)

Após, determina-se que seja apresentado um holocausto ao Senhor:

Separe um dos cordeiros sobre cuja cabeça Arão e seus filhos terão que colocar as mãos. Sacrifique-o, pegue o sangue e jogue-o nos lados do altar. Corte o cordeiro em pedaços, lave as vísceras e as pernas e coloque-as ao lado da cabeça e das outras partes. Depois queime o cordeiro inteiro sobre o altar; é holocausto dedicado ao SENHOR; é oferta de aroma agradável dedicada ao SENHOR preparada no fogo. (Ex 29.15-18)

A seguir, é o momento de oferecer o segundo holocausto, este dedicado à ordenação dos sacerdotes, além de se registrarem instruções relativas à perpetuação desse sacerdócio:

Pegue depois o outro cordeiro. Arão e seus filhos colocarão as mãos sobre a cabeça do animal, e você o sacrificará. Pegue do sangue e coloque-o na ponta da orelha direita de Arão e dos seus filhos, no polegar da mão direita e do pé direito de cada um deles. Depois derrame o resto do sangue nos lados do altar. Pegue, então, um pouco do sangue do altar e um pouco do óleo da unção, e faça aspersão com eles sobre Arão e suas vestes, sobre seus filhos e as vestes deles. Assim serão consagrados, ele e suas vestes, seus filhos e as vestes deles. Tire desse cordeiro a gordura que cobre as vísceras, o lóbulo do fígado, os dois rins e a gordura que os envolve, e a coxa direita. Esse é o cordeiro da oferta de ordenação. Da cesta de pães sem fermento, que está diante do SENHOR, tire um pão, um bolo assado com azeite e um pão fino. Coloque tudo nas mãos de Arão e de seus filhos, e apresente-os como oferta ritualmente movida perante o SENHOR. Em seguida, retome-o das mãos deles e queime os pães no altar com o holocausto de aroma agradável ao SENHOR; é oferta dedicada ao SENHOR preparada no fogo. Tire o peito do cordeiro para a ordenação de Arão e mova-o perante o SENHOR, como gesto ritual de apresentação; essa parte pertencerá a você. Consagre aquelas partes do cordeiro da ordenação que pertencem a Arão e a seus filhos: o peito e a coxa movidos como oferta. Essas partes sempre serão dadas pelos israelitas a Arão e a seus filhos. É a contribuição obrigatória que lhes farão, das suas ofertas de comunhão ao SENHOR. As vestes sagradas de Arão passarão aos seus descendentes, para que as vistam quando forem ungidos e consagrados. O filho que o suceder como sacerdote e vier à Tenda do Encontro para ministrar no Lugar Santo terá que usá-las durante sete dias. Pegue o cordeiro da ordenação e cozinhe a sua carne num lugar sagrado. À entrada da Tenda do Encontro, Arão e seus filhos deverão comer a carne do cordeiro e o pão que está na cesta. Eles comerão dessas ofertas com as quais se fez propiciação para sua ordenação e consagração; somente os sacerdotes poderão comê-las, pois são sagradas. Se sobrar carne do cordeiro da ordenação ou pão até a manhã seguinte, queime a sobra. Não se deve comê-los, visto que são sagrados. Para a ordenação de Arão e seus filhos, faça durante sete dias tudo que ordenei. Sacrifique um novilho por dia como oferta pelo pecado para fazer propiciação. Purifique o altar, fazendo propiciação por ele, e unja-o para consagrá-lo. Durante sete dias faça propiciação pelo altar, consagrando-o. Então o altar será santíssimo, e tudo o que nele tocar será santo. Eis o que você terá que sacrificar regularmente sobre o altar: a cada dia dois cordeiros de um ano. Ofereça um de manhã e o outro ao entardecer. Com o primeiro cordeiro ofereça um jarro da melhor farinha misturada com um litro de azeite de olivas batidas, e um litro de vinho como oferta derramada. Ofereça o outro cordeiro ao entardecer com uma oferta de cereal e uma oferta derramada, como de manhã. É oferta de aroma agradável ao SENHOR preparada no fogo. De geração em geração esse holocausto deverá ser feito regularmente à entrada da Tenda do Encontro, diante do SENHOR. Nesse local eu os encontrarei e falarei com você; ali me encontrarei com os israelitas, e o lugar será consagrado pela minha glória. Assim consagrarei a Tenda do Encontro e o altar, e consagrarei também Arão e seus filhos para me servirem como sacerdotes. E habitarei no meio dos israelitas e serei o seu Deus. Saberão que eu sou o SENHOR, o seu Deus, que os tirou do Egito para habitar no meio deles. Eu sou o SENHOR, o seu Deus. (Ex 29.19-46)

De todo esse ritual que envolve a consagração dos sacerdotes para seu serviço no Tabernáculo, infere-se que em tudo os sacrifícios estão relacionados à limpeza de toda contaminação pelo pecado. O objetivo era que, uma vez que tudo fosse consagrado, isto é, purificado do pecado e separado para o Senhor, esse local passasse a ser a habitação dEle no meio de Israel, onde o povo, representado pelos sacerdotes, pudesse se encontrar com o seu Deus. Os sacrifícios, portanto, eram o meio pelo qual o pecado do povo de Israel era expiado, a fim de que pudessem, então, ter comunhão com o Altíssimo. Desde os tempos dos patriarcas até o estabelecimento da Lei, a lógica por trás dos sacrifícios era sempre essa, em menor ou maior escala. 

Em Levítico, encontra-se um detalhado manual da religião revelada por Deus, especialmente das ofertas e sua forma de manuseio pelos sacerdotes. Inicia-se pelos holocaustos:

Diga o seguinte aos israelitas: Quando alguém trouxer um animal como oferta ao SENHOR, que seja do gado ou do rebanho de ovelhas. Se o holocausto for de gado, oferecerá um macho sem defeito. Ele o apresentará à entrada da Tenda do Encontro, para que seja aceito pelo SENHOR, e porá a mão sobre a cabeça do animal do holocausto para que seja aceito como propiciação em seu lugar. Então o novilho será morto perante o SENHOR, e os sacerdotes, descendentes de Arão, trarão o sangue e o derramarão em todos os lados do altar, que está à entrada da Tenda do Encontro. Depois se tirará a pele do animal, que será cortado em pedaços. Então os descendentes do sacerdote Arão acenderão o fogo do altar e arrumarão a lenha sobre o fogo. Em seguida, arrumarão os pedaços, inclusive a cabeça e a gordura, sobre a lenha que está no fogo do altar. As vísceras e as pernas serão lavadas com água. E o sacerdote queimará tudo isso no altar. É um holocausto; oferta preparada no fogo, de aroma agradável ao SENHOR. (Lv 1.2-9)

Em primeiro lugar, cumpre esclarecer que há outras possibilidades de animal a ser oferecido em holocausto, a depender da condição econômica do ofertante, mas nos ateremos aqui à forma principal, pois o nosso objetivo é uma classificação principiológica, e não exaustiva. 

No sacrifício de holocausto de gado, o animal deveria ser um macho sem defeito. Deus é santo e perfeito e a oferta apresentada a Ele deve ser a melhor possível, expressando, assim, a reverência do ofertante para com o Senhor. A degola do animal se dava no átrio ao redor da Tenda do Encontro, onde se encontravam o altar de bronze e a pia, representando a impossibilidade de comunhão entre um pecador e o Santíssimo, a não ser por meio de sacrifícios. O ofertante deveria colocar a mão sobre o animal, reconhecendo que aquele inocente estava morrendo por sua culpa, a fim de que Deus desviasse dele a santa ira contra seus pecados. Como resultado dessa expiação, era possível haver comunhão entre o Senhor e o homem, pois os pecados deste estavam encobertos pelo sangue do animal inocente derramado em seu favor. O sangue do animal era, então, derramado nos lados do altar, pois é no sangue que está a vida, a qual foi oferecida substitutivamente, no lugar do pecador. Ao final, o animal era completamente queimado, representando a absoluta devoção e consagração por parte do ofertante ao Senhor

Em seguida, são regulamentadas as ofertas de cereais:

Quando alguém trouxer uma oferta de cereal ao SENHOR, terá que ser da melhor farinha. Sobre ela derramará óleo, colocará incenso e a levará aos descendentes de Arão, os sacerdotes. Um deles apanhará um punhado da melhor farinha com óleo e com todo o incenso e os queimará no altar como porção memorial. É oferta preparada no fogo, de aroma agradável ao SENHOR. O que restar da oferta de cereal pertence a Arão e a seus descendentes; é parte santíssima das ofertas dedicadas ao SENHOR, preparados no fogo. Se um de vocês trouxer uma oferta de cereal assada no forno, seja da melhor farinha: bolos feitos sem fermento, amassados com óleo, ou pães finos sem fermento e untados com óleo. Se a sua oferta de cereal for preparada numa assadeira, seja da melhor farinha, amassada com óleo e sem fermento. Divida-a em pedaços e derrame óleo sobre ela; é uma oferta de cereal. Se a sua oferta de cereal for cozida numa panela, seja da melhor farinha com óleo. Traga ao SENHOR a oferta de cereal feita desses ingredientes e apresente-a ao sacerdote, que a levará ao altar. Ele apanhará a porção memorial da oferta de cereal e a queimará no altar; é oferta preparada no fogo, de aroma agradável ao SENHOR. O restante da oferta de cereal pertence a Arão e a seus descendentes; é parte santíssima das ofertas dedicadas ao SENHOR, preparadas no fogo. Nenhuma oferta de cereal que vocês trouxerem ao SENHOR será feita com fermento, pois vocês não queimarão fermente nem mel como oferta preparada no fogo ao SENHOR. Podem trazê-los como oferta dos primeiros frutos ao SENHOR, mas não podem oferecê-los no altar como aroma agradável. Temperem com sal todas as suas ofertas de cereal. Não excluam de suas ofertas de cereal o sal da aliança do seu Deus; acrescentem sal a todas as suas ofertas. Se você trouxer ao SENHOR uma oferta de cereal dos primeiros frutos, ofereça grãos esmagados de cereal novo, tostados no fogo. Sobre ela derrame óleo e coloque incenso; é oferta de cereal. O sacerdote queimará a porção memorial do cereal esmagado e do óleo, com todo o incenso, como uma oferta ao SENHOR preparada no fogo. (Lv 2.1-16)

As ofertas de manjares estavam associadas à gratidão pelos frutos da terra, que simbolizavam a providência divina trazendo sustento ao povo. No ideário pagão de Canaã, a fertilidade do solo também era frequentemente associada à providência dos ídolos. Os grãos, a farinha e o azeite eram os principais ingredientes da alimentação do povo de Israel e, portanto, eram elementos característicos das ofertas de manjares. A farinha poderia ser apresentada crua, assada ou cozida, desde que fosse a melhor farinha e contivesse óleo. Nenhuma dessas ofertas poderia ser apresentada com fermento ou mel. Esses elementos eram muito comuns nas ofertas dos idólatras canaanitas, mas eram reprovados por Deus. Alguns supõe que a razão para tal é que a fermentação tem a conotação de corrupção no simbolismo bíblico e que o mel está muito associado aos prazeres pecaminosos na cultura do Mundo Antigo. A única exceção era para as ofertas de primeiros frutos. Ainda, era necessário acrescentar sal em todas as ofertas de manjares, como símbolo da aliança perpétua de Deus com o Seu povo, assim como o sal não pode ser consumido pelo fogo. Portanto, essa oferta estava bastante relacionada à provisão do Senhor na terra em que prometeu estabelecer o Seu povo

Após, descrevem-se os sacrifícios pacíficos:

Quando a oferta de alguém for sacrifício de comunhão, assim se fará: se oferecer um animal do gado – seja macho seja fêmea -, apresentará ao SENHOR um animal sem defeito. Porá a mão sobre a cabeça do animal, que será morto à entrada da Tenda do Encontro. Os descendentes de Arão, os sacerdotes, derramarão o sangue nos lados do altar. Desse sacrifício de comunhão, oferta preparada no fogo, ele trará ao SENHOR toda a gordura que cobre as vísceras e está ligada a elas, os dois rins com a gordura que os cobre e que está perto dos lombos, e o lóbulo do fígado, que ele removerá junto com os rins. Os descendentes de Arão queimarão tudo isso em cima do holocausto que está sobre a lenha acesa no altar como oferta preparada no fogo, de aroma agradável ao SENHOR.’ [...] ‘O sacerdote queimará a gordura no altar, mas o peito pertence a Arão e a seus descendentes. Vocês deverão dar a coxa direita das ofertas de comunhão ao sacerdote como contribuição. O descendente de Arão que oferecer o sangue e a gordura da oferta de comunhão receberá a coxa direita como porção. Das ofertas de comunhão dos israelitas, tomei o peito que é movido ritualmente e a coxa que é ofertada, e os dei ao sacerdote Arão e a seus descendentes por decreto perpétuo para os israelitas. (Lv 3.1-5; 7.31-34)

Os sacrifícios pacíficos, também chamados de ofertas de comunhão, estavam geralmente associados à noção de gratidão ao Senhor pelos benefícios da Sua aliança. Quando alguém queria agradecer a Deus por suas misericórdias e bençãos, fazer algum voto ao Senhor ou mesmo suplicar por Sua graça, era comum que isso fosse acompanhado de um sacrifício de comunhão. Paz tem o sentido de conciliação, especialmente no contexto de um Deus santíssimo irado contra uma humanidade profanada por suas iniquidades. Essa oferta carrega esse significado de comunhão, pois representa e reconciliação do Criador com o homem. Nela, existe o simbolismo de uma refeição: o Senhor recebe a gordura, que representa a melhor parte do animal; ao sacerdote, intermediador entre o Eterno e o homem, cabe o peito e a coxa direita, conforme decretado por Deus; ao ofertante todo o restante. Assim, tanto a família do sacerdote quanto a família do ofertante desfrutavam cada qual de uma refeição cujo alimento principal era a oferta pacífica. 

É importante observar que, embora o sacrifício de comunhão não fosse necessariamente uma oferta pelo pecado, a rigor, o seu modo inicial de apresentação é bastante similar ao do holocausto. Inclusive, a gordura do animal deveria ser queimada por sobre o próprio holocausto. Isso demonstra que, mesmo em sacrifícios que não sejam para expiação propriamente, o princípio expiatório ainda está no pano de fundo de sua simbologia. Nesse caso, por exemplo, a lógica é que não é possível haver comunhão entre Deus e a humanidade, senão por meio da expiação dos pecados. 

A seguir, tem-se a regulamentação dos sacrifícios pelos pecados, também chamados de ofertas de purificação, que estavam relacionados a pecados involuntários, por ignorância, de diferentes agentes. A primeira classificação é relativa aos sacerdotes:

Se for o sacerdote ungido que pecar, trazendo culpa sobre o povo, o sacerdote trará ao SENHOR um novilho sem defeito como oferta pelo pecado que cometeu. Apresentará ao SENHOR o novilho à entrada da Tenda do Encontro. Porá a mão sobre a cabeça do novilho, que será morto perante o SENHOR. Então o sacerdote ungido pegará um pouco do sangue do novilho e o levará à Tenda do Encontro; molhará o dedo no sangue e o aspergirá sete vezes perante o SENHOR, diante do véu do santuário. O sacerdote porá um pouco do sangue nas pontas do altar do incenso aromático que está perante o SENHOR na Tenda do Encontro. Derramará todo o restante do sangue do novilho na base do altar do holocausto, na entrada da Tenda do Encontro. Então retirará toda a gordura do novilho da oferta pelo pecado: a gordura que cobre as vísceras e está ligada a elas, os dois rins com a gordura que os cobre e que está perto dos lombos, e o lóbulo do fígado, que ele removerá junto com os rins, como se retira a gordura do boi sacrificado como oferta de comunhão. Então o sacerdote queimará essas partes no altar dos holocaustos. Mas o couro do novilho e toda a sua carne, bem como a cabeça e as pernas, as vísceras e os excrementos – isto é, tudo o que restar do novilho – ele levará para fora do acampamento, a um local cerimonialmente puro, onde se lançam as cinzas. Ali os queimará sobre a lenha de uma fogueira, sobre o monte de cinzas. (Lv 4.3-12)

O sacerdote ungido, que grande parte dos estudiosos da Lei têm entendido como sendo o sumo sacerdote, era a autoridade máxima do serviço levítico e, portanto, o principal representante do povo diante do Senhor. Seu pecado contaminava todo o serviço sacerdotal e, portanto, comprometia o relacionamento entre Deus e os israelitas. Sendo assim, quando ele pecasse, ao invés de ter algum privilégio divino, o fardo que pesava sobre ele era muito pesado, pois trazia culpa não somente sobre si mesmo, mas, consequentemente, sobre todo o povo. O rito inicial de apresentação do novilho é semelhante às demais ofertas de animais, porém o sangue é disposto de maneira diferente: ele deveria ser aspergido diante do véu do santuário, posto nas pontas do altar de incenso e somente depois derramado na base do altar de bronze. Então, à semelhança dos sacrifícios pacíficos, removia-se a gordura, a qual era queimada no altar do holocausto. Contudo, as demais partes do animal não eram comidas, mas sim levadas para fora do acampamento e queimadas, como uma figuração da remoção do pecado do meio da congregação. 

A segunda classificação é referente ao pecado de todo o Israel:

Se for toda a comunidade de Israel que pecar sem intenção, fazendo o que é proibido em qualquer dos mandamentos do SENHOR, ainda que não tenha consciência disso, a comunidade será culpada. Quando tiver consciência do pecado que cometeu, a comunidade trará um novilho como oferta pelo pecado e o apresentará diante da Tenda do Encontro. As autoridades da comunidade porão as mãos sobre a cabeça do novilho perante o SENHOR. E o novilho será morto perante o SENHOR. Então o sacerdote ungido levará um pouco do sangue do novilho para a Tenda do Encontro; molhará o dedo no sangue e o aspergirá sete vezes perante o SENHOR, diante do véu. Porá o sangue nas pontas do altar que está perante o SENHOR na Tenda do Encontro e derramará todo o restante do sangue na base do altar dos holocaustos, na entrada da Tenda do Encontro. Então retirará toda a gordura do animal e a queimará no altar, e fará com este novilho como se faz com o novilho da oferta pelo pecado. Assim o sacerdote fará propiciação por eles, e serão perdoados. Depois levará o novilho para fora do acampamento e o queimará como queimou o primeiro. É oferta pelo pecado da comunidade. (Lv 4.13-21)

No caso desse sacrifício pelos pecados da congregação, o princípio coletivo também está presente, de modo que a profanação atinge até mesmo o serviço levítico, sendo necessário o mesmo procedimento. A única diferença é que, como não é possível que toda a congregação coloque as mãos sobre a cabeça do animal a ser sacrificado, as suas autoridades o fazem de maneira representativa. 

A terceira classificação é relativa ao pecado de um líder do povo:

Quando for um líder que pecar sem intenção, fazendo o que é proibido em qualquer dos mandamentos do SENHOR, o seu Deus, será culpado. Quando o conscientizarem do seu pecado, o líder trará como oferta um bode sem defeito. Porá a mão sobre a cabeça do bode, que será morto no local onde o holocausto é sacrificado, perante o SENHOR. Esta é a oferta pelo pecado. Então o sacerdote pegará com o dedo um pouco do sangue da oferta pelo pecado e o porá nas pontas do altar dos holocaustos e derramará o restante do sangue na base do altar. Queimará toda a gordura no altar, como queimou a gordura do sacrifício de comunhão. Assim o sacerdote fará propiciação pelo pecado do líder, e este será perdoado. (Lv 4.22-26)

Nessa seção, a culpa concentra-se no líder de Israel e, portanto, diferentemente das duas classificações anteriores, não há aspersão do sangue diante do véu do santuário, bem como ele não é posto sobre as pontas do altar de incenso. Além disso, também não se queima a carne restante do animal fora do arraial. Ainda, ao invés de oferecer um novilho, como nas outras duas categorias, o líder do povo deveria apresentar um bode. 

A quarta e última classificação diz respeito ao pecado de qualquer pessoa do povo, que não o sacerdote ou o líder:

Se for alguém da comunidade que pecar sem intenção, fazendo o que é proibido em qualquer dos mandamentos do SENHOR, o seu Deus, será culpado. Quando o conscientizarem do seu pecado, trará como oferta pelo pecado que cometeu uma cabra sem defeito. Porá a mão sobre a cabeça do animal da oferta pelo pecado, que será morto no lugar dos holocaustos. Então o sacerdote pegará com o dedo um pouco do sangue e o porá nas pontas do altar dos holocaustos e derramará o restante do sangue na base do altar. Então retirará toda a gordura, como se retira a gordura do sacrifício de comunhão; o sacerdote a queimará no altar como aroma agradável ao SENHOR. Assim o sacerdote fará propiciação por esse homem, e ele será perdoado. (Lv. 4.27-31)

Nesse último tipo de sacrifício pelos pecados, o caráter também é individual, mas se diferencia do líder em relação ao animal a ser sacrificado: uma cabra, ao invés de um bode. O capítulo 4 finaliza com a possibilidade de ser uma ovelha, em lugar da cabra. 

No início do quinto capítulo, descrevem-se alguns casos em que se faria necessário o sacrifício pelos pecados e alternativas de animais, caso as posses do pecador não lhe dessem condições de apresentar o padrão. 

Após, a partir do décimo quarto versículo, tem-se a descrição da última das principais ofertas da Lei de Moisés, qual seja, a oferta pela culpa, ou reparação, ou ainda sacrilégio. Ela se diferencia do sacrifício pelos pecados à medida em que tem como enfoque os pecados contra as coisas santas, contra os mandamentos do Senhor, especialmente em relação ao próximo. Nela, geralmente está incutida a noção de reparação, além da expiação. 

A primeira classificação é a respeito dos pecados contra coisas consagradas ao Senhor:

Quando alguém cometer um erro, pecando sem intenção em qualquer coisa consagrada ao SENHOR, trará ao SENHOR um carneiro do rebanho, sem defeito, avaliado em prata com base no peso padrão do santuário, como oferta pela culpa. Fará restituição pelo que deixou de fazer em relação às coisas consagradas, acrescentará um quinto do valor e o entregará ao sacerdote. Este fará propiciação pelo culpado com o carneiro da oferta pela culpa, e ele será perdoado. (Lv 5.14-16)

Por coisas consagradas, entende-se: ofertas, dízimos, propriedades ou até mesmo pessoas, os quais, por votos ou designação divina, passassem a pertencê-lo, muitos dos quais estavam à disposição dos sacerdotes. Portanto, ao fazer uso indevido de algo consagrado a Deus, deve o pecador tanto apresentar a oferta para expiação do seu pecado, como também restituir o equivalente ao que profanou, acrescentado de um quinto. A diferença nesse procedimento sacrificial, em comparação à oferta pelos pecados, é que o sangue é apenas derramado nos lados do altar, e não em sua base. 

A segunda classificação se refere aos pecados contra os mandamentos do SENHOR:

Se alguém pecar, fazendo o que é proibido em qualquer dos mandamentos do SENHOR, ainda que não o saiba, será culpado e sofrerá as consequências da sua iniquidade. Do rebanho ele trará ao sacerdote um carneiro, sem defeito e devidamente avaliado, como oferta pela culpa. Assim o sacerdote fará propiciação em favor do culpado pelo erro que cometeu sem intenção, e ele será perdoado. É oferta pela culpa, pois com certeza tornou-se culpado perante o SENHOR. (Lv 5.17-19)

Muitos teólogos têm entendido essa classificação como se referindo ao caso de a pessoa ter dúvidas a respeito da sua conduta, se pecaminosa ou não. Nessa hipótese, seria um remédio sacrificial aos que estivessem com a consciência pesada. 

A terceira classificação é relativa ao pecado contra o próximo, gerando dano a este:

Se alguém pecar, cometendo um erro contra o SENHOR, enganando o seu próximo no que diz respeito a algo que lhe foi confiado ou deixado como penhor ou roubado, ou se lhe extorquir algo, ou se achar algum bem perdido e mentir a respeito de qualquer coisa, cometendo pecado; quando assim pecar, tornando-se por isso culpado, terá que devolver o que roubou ou tomou mediante extorsão, ou o que lhe foi confiado, ou os bens perdidos que achou, ou qualquer coisa sobre a qual tenha jurado falsamente. Fará restituição plena, acrescentará a isso um quinto do valor e dará tudo ao proprietário no dia em que apresentar a sua oferta pela culpa. E por sua culpa trará ao sacerdote uma oferta dedicada ao SENHOR: um carneiro do rebanho, sem defeito e devidamente avaliado. Dessa forma, o sacerdote fará propiciação pelo culpado perante o SENHOR, e ele será perdoado de qualquer dessas coisas que fez e que o tornou culpado. (Lv 6.1-7)

Nesse tópico, o texto é muito claro. Gerar dano para o próximo é pecado e, para que a oferta seja aceitável ao Senhor, é necessário, antes, restituir ao próximo o que dele foi tomado indevidamente. 

As cinco ofertas principais que foram descritas até aqui são reproduzidas em diferentes situações que se encontram prescritas na Lei. Por exemplo, no caso do parto de um bebê, a mãe, ao cumprirem-se os dias de sua purificação, deveria oferecer um cordeiro de um ano (sacrifício de holocausto) e um pombinho ou uma rolinha (sacrifício pelo pecado), conforme o décimo segundo capítulo de Levítico. 

Em caráter especialíssimo, tem-se o ritual do Dia da Expiação prescrito no décimo sexto capítulo do mesmo livro:

O SENHOR disse a Moisés: Diga a seu irmão Arão que não entre a toda hora no Lugar Santíssimo, atrás do véu, diante da tampa da arca, para que não morra; pois aparecerei na nuvem, acima da tampa. Arão deverá entrar no Lugar Santo com um novilho como oferta pelo pecado e com um carneiro como holocausto. Ele vestirá a túnica sagrada de linho, com calções também de linho por baixo; porá o cinto de linho na cintura e também o turbante de linho. Essas vestes são sagradas; por isso ele se banhará com água antes de vesti-las. Receberá da comunidade de Israel dois bodes como oferta pelo pecado e um carneiro como holocausto. Arão sacrificará o novilho como oferta pelo seu próprio pecado, para fazer propiciação por si mesmo e por sua família. Depois pegará os dois bodes e os apresentará ao SENHOR, à entrada da Tenda do Encontro. E lançará sortes quanto aos dois bodes: uma para o SENHOR e a outra para Azazel. Arão trará o bode cuja sorte caiu para o SENHOR e o sacrificará como oferta pelo pecado. Mas o bode sobre o qual caiu a sorte para Azazel será apresentado vivo ao SENHOR para fazer propiciação e será enviado para Azazel no deserto. Arão trará o novilho como oferta por seu próprio pecado para fazer propiciação por si mesmo e por sua família, e ele o oferecerá como sacrifício pelo seu próprio pecado. Pegará o incensário cheio de brasas do altar que está perante o SENHOR e dois punhados de incenso aromático em pó e os levará para trás do véu. Porá o incenso no fogo perante o SENHOR, e a fumaça do incenso cobrirá a tampa que está acima das tábuas da aliança, a fim de que não morra. Pegará um pouco do sangue do novilho e com o dedo o aspergirá sobre a parte da frente da tampa; depois, com o dedo aspergirá o sangue sete vezes, diante da tampa. Então sacrificará o bode da oferta pelo pecado, em favor do povo, e trará o sangue para trás do véu; fará com o sangue o que fez com o sangue do novilho; ele o aspergirá sobre a tampa e na frente dela. Assim fará propiciação pelo Lugar Santíssimo por causa das impurezas e das rebeliões dos israelitas, quaisquer que tenham sido os seus pecados. Fará o mesmo em favor da Tenda do Encontro, que está entre eles no meio das suas impurezas. Ninguém estará na Tenda do Encontro quando Arão entrar para fazer propiciação no Lugar Santíssimo, até a saída dele, depois que fizer propiciação por si mesmo, por sua família e por toda a assembleia de Israel. Depois irá ao altar que está perante o SENHOR e pelo altar fará propiciação. Pegará um pouco do sangue do novilho e do sangue do bode e o porá em todas as pontas do altar. Com o dedo aspergirá o sangue sete vezes sobre o altar para purificá-lo e santificá-lo das impurezas dos israelitas. Quando Arão terminar de fazer propiciação pelo Lugar Santíssimo, pela Tenda do Encontro e pelo altar, trará para a frente o bode vivo. Então colocará as duas mãos sobre a cabeça do bode vivo e confessará todas as iniquidades e rebeliões dos israelitas, todos os seus pecados, e os porá sobre a cabeça do bode. Em seguida, enviará o bode para o deserto aos cuidados de um homem designado para isso. O bode levará consigo todas as iniquidades deles para um lugar solitário. E o homem soltará o bode no deserto. Depois Arão entrará na Tenda do Encontro, tirará as vestes de linho que usou para entrar no Santo dos Santos e as deixará ali. Ele se banhará com água num lugar sagrado e vestirá as suas próprias roupas. Então sairá e sacrificará o holocausto por si mesmo e o holocausto pelo povo, para fazer propiciação por si mesmo e pelo povo. Também queimará sobre o altar a gordura da oferta pelo pecado. Aquele que soltar o bode para Azazel lavará as suas roupas, se banhará com água e depois poderá entrar no acampamento. O novilho e o bode da oferta pelo pecado, cujo sangue foi trazido ao Lugar Santíssimo para fazer propiciação, serão levados para fora do acampamento; o couro, a carne e o excremento deles serão queimados com fogo. Aquele que os queimar lavará as suas roupas e se banhará com água; depois poderá entrar no acampamento. Este é um decreto perpétuo para vocês: No décimo dia do sétimo mês vocês se humilharão e não poderão realizar trabalho algum, nem o natural da terra, nem o estrangeiro residente. Porquanto nesse dia se fará propiciação por vocês, para purificá-los. Então, perante o SENHOR, vocês estarão puros de todos os seus pecados. Este lhes será um sábado de descanso, quando vocês se humilharão; é um decreto perpétuo. O sacerdote que for ungido e ordenado para suceder seu pai como sumo sacerdote fará a propiciação. Porá as vestes sagradas de linho e fará propiciação pelo Lugar Santíssimo, pela Tenda do Encontro, pelo altar, por todos os sacerdotes e por todo o povo da assembleia. Este é um decreto perpétuo para vocês: A propiciação será feita uma vez por ano, por todos os pecados dos israelitas. (Lv 16.2-34)

A primeira coisa a se notar nesse ritual é que, por meio dele, faz-se propiciação por todo o povo de Israel, incluindo-se o sacerdote, para que sejam purificados de TODOS os seus pecados. Ora, já vimos no início do livro de Levítico a regulamentação dos sacrifícios, todos relacionados, de alguma maneira, à expiação de pecados. Vimos também que alguns eram voluntários e outros administrados de acordo com diversas ocasiões. Isso parece contraditório. 

Em verdade, ao compreendermos o significado do Dia da Expiação, vê-se claramente que é dele que partem todos os demais rituais, ou seja, ele é que valida todo o restante do serviço levítico. A Tenda do Encontro, como sugere o próprio nome, era o local designado por Deus para ter comunhão com o Seu povo. Para apresentar-se diante do Senhor, o povo necessitava sacrificar para que fosse purificado diante dEle. O Lugar Santíssimo, também chamado de Santo dos Santos, onde estava arca da aliança, era onde ocorria a teofania, isto é, a manifestação física e visível da glória de Deus. Era a partir dali que tudo poderia ser santificado ao Senhor. Portanto, o sumo sacerdote adentrava essa câmara santíssima no Dia da Expiação, aspergindo o sangue do novilho oferecido pelo seu pecado diante da tampa da arca, iniciando-se lá o procedimento de purificação, partindo-se do Lugar Santíssimo até chegar ao povo. 

Resumidamente, o sumo sacerdote oferecia ao Senhor um novilho como oferta pelo seu pecado e de sua família. Adentrava o Santo dos Santos com um incensário, a fim de que a fumaça do incenso encobrisse a tampa da arca da aliança, onde a glória de Deus se manifestava, entre os querubins. Assim, livre de ser morto por essa visão majestosa, ele deveria aspergir o sangue do novilho uma vez na parte frontal do propiciatório e sete vezes diante deste. Após oferecer o bode sorteado para ser sacrificado, ele deveria fazer com o sangue deste a mesma coisa que fez com o sangue do novilho.  Em seguida, deveria pôr um pouco do sangue dos animais sobre os chifres do altar de incenso e aspergir sete vezes sobre este. 

Ato contínuo, o sumo sacerdote deveria então colocar as duas mãos sobre a cabeça do bode sorteado para ser enviado ao deserto e confessar todos os pecados de todo o povo de Israel, em uma simbologia de transferência deles para o animal. Aquele bode, então, era enviado para o deserto e solto lá, com todas as iniquidades do povo de Deus. O sumo sacerdote deveria, agora, deixar suas vestes especiais dentro do santuário, banhar-se e vestir sua roupa sacerdotal comum. A partir daí, oferecia os carneiros em holocausto (completamente queimados), seguidos pelos novilho e bode, estes como sacrifícios pelos pecados dele e do povo, respectivamente, cuja gordura era queimada no altar de bronze e o restante queimado fora do acampamento. 

Esse ritual deveria ocorrer anualmente, no décimo dia do sétimo mês, e consistia em um estatuto perpétuo para os filhos de Israel. 

Posteriormente, o local de sacrifício deixou de ser o Tabernáculo, transferindo-se para o conhecido Templo de Salomão, mas o serviço sacerdotal, em sua essência, permanecia o mesmo, à exceção dos períodos de infidelidade do povo de Israel, quando a casa de Deus era contaminada pela idolatria.


Nota: transcrições bíblicas extraídas da Bíblia Sagrada, Nova Versão Internacional ®, NVI ® Copyright © 1993, 2000, 2011 by Biblica, Inc., exceto aquelas cujas descrições indiquem versão diversa.



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