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A rosa consagrada é bíblica? Jesus é a rosa de Sarom?

Atualizado: há 1 dia

Um elemento bastante usado pela Universal em seus propósitos/campanhas de libertação é a rosa consagrada. Mas qual a base bíblica que sustenta essa doutrina? 

Em uma pesquisa no Google pelo termo “proposito com rosa igreja universal”, verifiquei nove resultados pertinentes publicados em portais oficiais da Igreja Universal do Reino de Deus. Ao fim do post, os respectivos links estarão devidamente listados para consulta na íntegra. 

Importante ressaltar que geralmente essas campanhas mesclam a rosa com outros elementos, como um óleo consagrado em determinado lugar, por exemplo. Nesse post, ativemo-nos à rosa consagrada apenas.

Fundamentos usados pela IURD

O único fundamento bíblico que a Universal menciona nessas publicações é o seguinte versículo: “Eu sou a rosa de Sarom, o lírio dos vales” (Ct 2.1). Talvez a explicação mais clara sobre o propósito seja a do bispo Adilson Silva, conforme citado em uma das publicações:

Atualmente, nas reuniões de sexta-feira, é realizado o propósito da rosa, em que cada participante deve levar uma rosa ao Altar para que ela seja consagrada. Em seguida, ela permanece com a pessoa por um período. Sobre esse propósito, o Bispo observou que o próprio Deus sempre trabalhou com símbolos. “A rosa simboliza o Senhor Jesus, conforme está escrito em Cantares 2.1. Ele é ‘a rosa de Sarom.’ Assim como Jesus na cruz absorveu para si as maldições da Humanidade, quando a pessoa tem essa rosa consagrada e a leva para casa, ela tem o símbolo de Jesus na casa dela. Essa rosa fica ali para absorver toda a energia negativa que exista na casa dela, no trabalho, enfim, onde quer que ela coloque a rosa”, detalhou. Fonte: A ROSA QUE TODOS NÓS PRECISAMOS TER

Antes de discorrer sobre o assunto, cabe aqui destacar que a Universal não é a única que faz essa interpretação. Embora não necessariamente usem uma rosa consagrada, muitas outras igrejas entendem, com base nesse versículo, que Jesus é, de fato, a rosa de Sarom. 

O livro do Cântico dos cânticos de Salomão é bastante polêmico, se assim posso dizer. Esse livro exalta o amor conjugal, isto é, entre marido e mulher, o que inclui, por óbvio, a satisfação sexual, sem que, contudo, possua natureza pornográfica (muito pelo contrário!). Ele é composto por poemas que enfatizam a dignidade e a pureza do verdadeiro amor que deve haver dentro de um casamento. 

Além disso, muitos buscam criar figuras dentro dos Cantares de Salomão. Correntes do judaísmo defendem que esse livro simboliza a relação de Deus com o seu povo. No cristianismo, semelhantemente, há correntes que afirmam que se trata de uma figura do amor entre Cristo e sua Igreja. Outros, em geral, entendem que se trata apenas do amor entre marido e esposa, sem que necessariamente implique em uma simbologia espiritual. 

A Universal, considerando-se o que afirma o seu líder, bispo Edir Macedo, adere à corrente que vê a simbologia do amor tanto entre Deus e Israel quanto entre Cristo e a Igreja. Na Bíblia Sagrada com as Anotações de Fé do Bispo Edir Macedo, constam as seguintes declarações:

Em Cantares, Ele é o Amado da nossa alma, o Noivo perfeito para a Sua Igreja [...]. Fonte: Bíblia Sagrada com as Anotações de Fé do Bispo Edir Macedo – Seção “O Senhor Jesus Cristo no Antigo Testamento”
Cantares de Salomão narra o amor dentro de um matrimônio, que se compara ao amor intenso e incondicional do Altíssimo por Israel e ao Seu relacionamento com a nação. O livro ilustra também o amor provado pela entrega sacrificial do Senhor Jesus (Noivo) pela Sua Noiva (Igreja) [...]. Fonte: Bíblia Sagrada com as Anotações de Fé do Bispo Edir Macedo – Seção “Tema de cada livro do Antigo Testamento”
[…] O livro narra o amor dentro do relacionamento conjugal, mas é entendido também como uma ilustração do amor de Deus por Israel, e do Senhor Jesus (Noivo) pela Igreja (Noiva). […]. Fonte: Bíblia Sagrada com as Anotações de Fé do Bispo Edir Macedo – Comentário de Ct 1.1

Não é o objetivo aqui discutir se, de fato, existe ou não essa simbologia do amor entre Cristo e a Igreja no Cântico dos cânticos de Salomão. O que importa à presente análise é identificar que esse é o método usado pela Universal para permitir essa assimilação de Cristo como sendo a rosa de Sarom. Nesse sentido, Cristo estaria representando o noivo e a Igreja, a noiva.

Dois problemas na fundamentação da IURD

O primeiro problema que reside nessa questão é que, embora nessas publicações isso felizmente não seja dito, não é incomum ver bispos, pastores, obreiros e membros em geral da Universal afirmando que Jesus disse que era a rosa de Sarom. Isso porque Jesus nunca disse isso e nenhuma outra referência bíblica há para essa afirmação. Portanto, apoiar-se apenas em um versículo “solto”, utilizando-se de uma interpretação profética dos Cantares de Salomão, que é bastante passível de discussão, para colocar palavras na boca de Cristo que Ele jamais falou e, ainda, tudo isso servir de base para o uso de uma rosa consagrada como ponto de atração do mal, é algo muito perigoso. O fundamento é muito raso para sustentar uma doutrina tão enfática. 

O segundo problema é ainda mais contundente: é a Noiva quem afirma ser a rosa de Sarom. Os versos do Cântico dos cânticos são colocados em diferentes vozes, sendo as principais a Noiva e o Noivo. Na linha interpretativa adotada pela Universal, o Noivo representa Cristo e a Noiva, a Igreja. A declaração “Eu sou a rosa de Sarom, o lírio dos vales” (Ct 2.1), porém, está na voz da Noiva (que representaria a Igreja) e não do Noivo (que representaria Cristo)

O mais contraditório em tudo isso é que, pasmem, o próprio bispo Edir Macedo, no seu comentário bíblico sobre essa passagem, afirma categoricamente que a rosa de Sarom não diz respeito ao Noivo, senão vejamos:

Sarom era uma planície que produzia belas flores exóticas, por isso a noiva se compara a uma rosa de Sarom. Fonte: Bíblia Sagrada com as Anotações de Fé do Bispo Edir Macedo – Comentário de Ct 2.1

De semelhante modo, a sua filha, Cristiane Cardoso, esposa do bispo Renato Cardoso, na “Meditação do livro de Cantares: Rosa de Sarom”, publicada em 27/10/2020, também identifica a Noiva como a rosa de Sarom, e não o Noivo ou Cristo, senão vejamos:

Rosa de Sarom não era uma rosa comum, que se achava facilmente, pois era um tipo de rosa exótica que só dava em Sarom. O lírio dos vales também era único, não era comum como o lírio do campo. Assim é a Igreja do Senhor Jesus, única, diferente, ela se destaca mesmo sem querer chamar atenção. Fonte: Meditação do livro de Cantares: Rosa de Sarom

Portanto, resta evidenciado que não há qualquer fundamento bíblico para se afirmar que Jesus é a rosa de Sarom. Pior do que isso, não há qualquer fundamento para utilizar uma rosa consagrada como amuleto para atrair males espirituais e energias negativas sob essa falsa justificativa. Mais intrigante ainda é que as rosas usadas nem de Sarom são! 

O mais triste de tudo é saber que o próprio líder da Universal, bispo Edir Macedo, e sua filha, esposa do bispo Renato, imediatamente abaixo dele na cadeia de comando, identificam que essa afirmação está na voz da Noiva, e não do Noivo, e, mesmo que esteja desconstituída a única referência bíblica para esse propósito, ele continua sendo realizado de tempos em tempos nas correntes de libertação da instituição.

A origem da prática

Reflitamos, agora, sobre a origem dessa ideia de uso de uma rosa consagrada influenciando a realidade espiritual nos ambientes ao redor de quem a utiliza, a qual, sabemos, não é bíblica nem em questão conceitual, uma vez que o versículo referenciado não está ligado a Jesus, nem tampouco em questão prática, dado que em momento algum a Bíblia recomenda o uso de rosas para atração do mal. 

As religiões de matriz africana, por cultuarem divindades que personificam os elementos da natureza, costumam utilizar muitos objetos como amuletos na sua prática mística. Para tanto, cada rosa possui uma simbologia e é preferencialmente oferecida a determinadas entidades. 

No caso das rosas vermelhas, elas simbolizam a paixão, o amor, a feminilidade e a sensualidade, sendo comumente oferecidas em trabalhos e obrigações ligados às chamadas iabás, especialmente determinadas pombagiras. 

Portanto, em um país dotado de superstições e misticismos, o sincretismo religioso ganha cada vez mais espaço dentro de muitas igrejas evangélicas e é uma das explicações para um crescimento tão grande dessas instituições em tão pouco tempo. O subconsciente das pessoas está condicionado a crer que determinados objetos têm poder de influência na realidade espiritual à sua volta. A fé por si só não basta. É sempre preciso haver um elemento que sirva de ponto de contato. Puro misticismo!

Incoerência lógica

Aliás, além de não haver embasamento bíblico para tal prática, não há sequer sentido lógico nela. Conforme o próprio bispo Adilson falou, “Jesus na cruz absorveu para si as maldições da Humanidade”. É o que está escrito na Palavra de Deus:

Certamente ele tomou sobre si as nossas enfermidades e levou sobre si as nossas doenças; […] o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas feridas fomos curados. […] e o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de todos nós. […] Pois ele levou o pecado de muitos e pelos transgressores intercedeu (Is 53.4,5-6,12)

Se no Calvário Jesus já atraiu para si todas as maldições da humanidade, por que razão é necessário que eu use uma rosa consagrada para realizar o que Cristo já realizou por mim na cruz? Não há necessidade de uso de nenhum objeto para isso, pois Cristo já realizou essa obra maravilhosa! A chave para a libertação não é uma “oração forte” ou o uso de uma rosa consagrada para transferência das minhas maldições para ela. As minhas maldições já foram transferidas para Cristo na cruz do Calvário! 

A chave para a libertação é conhecer a Verdade (Jo 8.31-32), e apenas isso. Qual é a Verdade, porém? A Verdade não é o que o diabo tem a dizer numa entrevista a respeito dos seus métodos de atuação ou as práticas dos pagãos que servem aos espíritos enganadores. A Verdade é Jesus Cristo (Jo 14.6), a Palavra de Deus encarnada (Jo 1.1-14) e o seu evangelho (boa notícia) é que Ele é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, o qual, sendo justo, sem jamais ter pecado, Se ofereceu, tornando-Se maldição naquela cruz, para sofrer a condenação que nos era devida, pelos nossos pecados, a morte (Rm 6.23) – pois todos somos pecadores, ímpios e merecedores da ira divina -, para que todo aquele que nEle crê tenha seus pecados perdoados e seja considerado justo diante de Deus (At 13.38-39). 

Se passamos da impiedade para a justiça, deixamos as trevas e entramos na luz, saímos debaixo da maldição e ingressamos debaixo da benção (Pv 3.32-33). É o que o apóstolo Paulo afirma aos cristãos da Galácia:

Cristo nos redimiu da maldição da Lei [condenação para pecadores] quando se tornou maldição em nosso lugar, […] Todos vocês são filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus, pois os que em Cristo foram batizados, de Cristo se revestiram. […] E, se vocês são de Cristo, são descendência de Abraão e herdeiros segundo a promessa (Gl 3.13,26-27,29)

Cristo já nos redimiu da maldição e, para que nos tornemos filhos de Deus e, portanto, herdeiros segundo a promessa, não precisamos de rosa consagrada: é apenas mediante a fé! As maldições não têm a ver com o tamanho do poder de Satanás. Ele é um instrumento de maldição, mas a causa são os nossos pecados. Todavia, Cristo veio para ser condenado em nosso lugar. Se tão somente, arrependidos, crermos em Cristo, nossos pecados serão perdoados e seremos filhos de Deus, herdeiros segundo a promessa feita à descendência de Abraão.

É importante entendermos que nem todas as situações desagradáveis aos nossos olhos são obras do diabo. A esmagadora maioria dos cristãos descritos na Bíblia não era rica, como, por exemplo, o apóstolo Pedro (At 3.6). Nem todos os cristãos são curados de suas doenças, como, por exemplo, Timóteo, que tinha frequentes enfermidades e Paulo, ao invés de “determinar” a sua cura, recomenda que ele cuide da sua saúde (1Tm 5.23). O próprio Jesus afirmou que teríamos aflições neste mundo (Jo 16.33). 

O cristão não está imune aos problemas comuns da humanidade e não necessariamente obterá todos os privilégios da vida terrena, sendo uma espécie de super-herói. O cristão sabe que é salvo pela graça e, quando ora ao Senhor pedindo alguma coisa que almeja muito e recebe como resposta “Minha graça é suficiente a você, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza” (2Co 2.8-9), então, por amor de Cristo, o cristão se alegra “nas fraquezas, nos insultos, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias” (2Co 2.10), porque sabe que é forte justamente quando é fraco.

Conclusão

Em síntese, Cristo já atraiu sobre si todas as nossas maldições e, portanto, aquele que nEle crê é perdoado de seus pecados e justificado diante de Deus, sendo liberto de todo mal, passando da maldição para a benção, tornando-se herdeiro segundo a promessa, sabendo que, mesmo quando padece alguma aflição, a graça de Deus é suficiente para ele, razão pela qual se gloria até mesmo nas necessidades, pois é justamente nesse momento que ele é forte.

Portanto, de acordo com as Escrituras Sagradas, não há nenhuma razoabilidade em utilizar uma rosa supostamente consagrada como amuleto para atração de maldições e demônios. Isso não passa de uma prática pagã travestida de cristianismo. O sacrifício de Cristo é suficiente.


Nota: transcrições bíblicas extraídas da Bíblia Sagrada, Nova Versão Internacional ®, NVI ® Copyright © 1993, 2000, 2011 by Biblica, Inc., exceto aquelas cujas descrições indiquem versão diversa.


REFERÊNCIAS OFICIAIS DA UNIVERSAL:

2. Sexta-feira: A corrente da rosa sagrada, publicado em 25/02/2021.

3. A ROSA QUE TODOS NÓS PRECISAMOS TER, publicado em 04/04/2021.

4. Campanha da Rosa Consagrada, publicado em 29/07/2021.

5. A sexta-feira das portas abertas, publicado em 18/01/2023.

6. Portas abertas de um jeito diferente, publicado em 26/11/2023.

7. Faça isso para ter as portas abertas, publicado em 11/12/2023.

9. Porquê a ROSA, no seu LAR?, sem data de publicação informada.

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