Passe da lua cheia: o que a Universal tem a ver com os lobisomens?
- universalheresias
- 16 de ago. de 2024
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A indústria de terror cinematográfico é bastante criticada em geral por muitos roteiros sem pé nem cabeça, principalmente no Brasil. Apesar disso, alguns filmes de terror se consagraram e caíram no gosto dos críticos e dos espectadores, versando a grande maioria deles sobre possessões demoníacas ou locais mal-assombrados. Contudo, nenhum roteirista ou diretor será capaz de superar os “especialistas” em paranormalidade da Universal. Já imaginou quão criativo seria unir o universo das lendas de lobisomens ao dos demônios possessores? Se você não pensou, o pai de santo gospel (também chamado de pastor às vezes) Aldo Guimarães já passou à sua frente. Mas um bom roteirista precisa também de um bom diretor. Aqui, entra uma parceria de peso com ninguém mais ninguém menos do que Júlio Freitas, bispo-genro de Edir Macedo.
Brincadeiras à parte, apresento-lhes o vídeo da chamada para o inusitado “passe da lua cheia”, disponível no canal oficial do referido pai de santo gospel no Youtube:
Para o caso de a Universal determinar que o pastor Aldo Guimarães remova o vídeo do seu canal no YouTube em algum momento posteriormente, segue abaixo a transcrição do áudio do vídeo da chamada.
Dia 6 de janeiro. A primeira sexta-feira do ano. Noite de lua cheia. “Tocai a trombeta na festa da lua nova, na lua cheia, dia da nossa festa”. Nessa noite você receberá algo único: o passe da lua cheia, para que 2023 seja o ano do “tudo bom”. O pastor Aldo Guimarães, no pátio do Pai Maior, em concordância com o bispo Júlio Freitas, em Israel, estarão transferindo essa luz para os seus caminhos. Quem recebe este passe passa a ter a força para cancelar magias, simpatias, olhado e todo tipo de ataques espirituais. Um único dia, uma única hora e um único lugar. Sexta-feira, dia 6 janeiro, às 22 horas, no pátio do Pai Maior. Avenida Celso Garcia, 499 - Brás. E atenção: não traga crianças nesta sessão.
Gostaria, ainda, de complementar com a descrição sensorial dessa chamada, caso o vídeo seja convenientemente removido pela IURD posteriormente. A voz do narrador segue um tom pausado, sombrio e macabro, que até lembra um pouco o estilo de introdução das Lendas Urbanas do Gugu. O vídeo inicia com imagens aéreas da catedral do Brás, seguidas por uma lua cheia sombria. Exibe-se então o texto de Sl 81.3 enquanto o narrador o lê. A chamada conta ainda com pequenos cortes do pai de santo gospel todo vestido de branco, com uma indumentária específica na parte superior do corpo, cujo significado dos símbolos não consigo identificar, passando por uma fila de pessoas, as quais carregam fotografias, documentos e pertences pessoais, lançando fumaça sobre os objetos com, pasmem, um incensário semelhante aos que os padres utilizam nas missas. Também há pequenos recortes do bispo Júlio Freitas em Israel, do pastor Aldo Guimarães ministrando reuniões cheias no salão da catedral e reproduções de pessoas praticando feitiçaria e afins.
Mas, afinal, o que é um passe? De onde surgiu essa prática? Na História recente, podemos associar a grande difusão da prática de passe às vertentes religiosas do espiritismo. Tal qual o cristianismo, ele possui muitos segmentos e não são todos iguais, não havendo aqui a pretensão de generalizá-los. No entanto, é frequente o estudo e realização de passes no espiritismo. A obra O Passe – Seus Fundamentos e Sua Aplicação, de Salvador Gentile, disponível em domínio público, trata do assunto sob a perspectiva espírita tradicional. Segundo o autor, trata-se de uma transferência de fluidos enérgicos por meio das palmas das mãos do médium sobre algum ponto sensível do corpo do receptor, geralmente a cabeça. As formas de aplicação do passe variam, podendo ser individuais ou coletivas, em domicílio ou no centro espírita etc. Além disso, há passes apenas magnéticos, outros apenas espirituais (transferência das energias dos Espíritos Superiores), e, ainda, os mistos, que unem ambas as modalidades em uma só. O objetivo principal do passe é ajudar as pessoas que estão com sua energia fraca, ou sob influência de energias negativas, razão pela qual estão sofrendo de problemas e doenças com que não conseguem lidar.
A Umbanda, como uma religião propriamente brasileira, que se utiliza de recursos tanto das religiões africanas, quanto das espíritas e católica, adiciona novos contornos à aplicação dos passes na sua ritualística:
Porém, enquanto nos centros espíritas usa-se o passe magnético, nos centros de Umbanda também se recorre aos passes energéticos, quando são usados diversos materiais (fumo, água, ervas, pedras ou colares, etc.) que descarregam os acúmulos negativos alojados nesses campos eletro-magnéticos... Nem sempre o que parece folclore ou exibicionismo realmente o é. Se os mentores dos médiuns de Umbanda exigem determinados colares de pedras, eles sabem para que servem e dominam seu magnetismo, assim como as energias minerais cristalinas irradiadas pelas pedras. Ervas e fumo, quando potencializadas com energias etéreas pelos mentores, também se tornam poderosos limpadores de campos eletromagnéticos. Fonte: SARACENI, Rubens. Código de Umbanda. São Paulo: Ed. Madras, 2006. p. 101.
Portanto, na Umbanda, a realização dos passes é comumente combinada com a força enérgica de determinados elementos da natureza a serem utilizados de acordo com o que for necessário à cada situação. Além disso, é também comum que os próprios orixás incorporados realizem os passes, e não necessariamente o sacerdote em sã consciência.
Até então, tratamos sobre o passe. É importante distinguir, pois a realização de “passes de luz” nas correntes de cura e libertação da Universal é muito recorrente, independentemente da localidade. Já a sua associação com a lua cheia parece ter sido pontual.
Sobre a lua cheia, é de conhecimento geral que as religiões místicas atribuem a esse fenômeno uma alta intensidade de energia lunar, o que influencia em uma maior chance de êxito dos trabalhos espirituais realizados nesse período, especialmente aqueles relacionados a aprimoramento pessoal, autoestima, problemas familiares, sexualidade etc. Existe, inclusive, na Umbanda, uma categoria de entidades chamada Povo da Lua Cheia, responsáveis por iluminar o caminho espiritual, e conferir sabedoria e esclarecimento.
Analisemos, agora, essa campanha da Universal, à luz da referência bíblica trazida pelo pai de santo gospel e dos conhecimentos levantados sobre passes nos segmentos espíritas. Eis a referência bíblica:
Toquem a trombeta na lua nova e no dia de lua cheia, dia da nossa festa; porque este é um decreto para Israel, uma ordenança do Deus de Jacó, que ele estabeleceu como estatuto para José, quando atacou o Egito. (Sl 81.3-5)
Democraticamente, daremos uma chance ao pai de santo gospel para justificar sua invenção, conforme o seu programa Descarrego da Meia-Noite, exibido em 02/01/2023.
Abaixo, segue a transcrição dos trechos que destacaremos do vídeo, pela mesma razão de ele eventualmente ser removido pela instituição.
[01:02 – 01:57] Você sabe o que que (sic) é o passe da lua cheia? Pra (sic) você entender, olha o que que (sic) diz: [cita Sl 81.3]. Foi numa lua cheia que Deus libertou o Seu povo e aqueles que viviam (sic) uma vida inteira de escravidão saíram livres. E foi dado (sic) uma ordem, uma ordem, que diz assim: [cita Sl 81.4]. Ele ordenou como lei. Era uma lei que se comemorasse na lua cheia, a primeira lua cheia do ano. E é por isso que nós vamos estar aqui realizando um passe de luz. [02:29 – 03:13] No momento em que nós fizermos o passe de luz, a luz que eu tenho, essa luz estará consigo pra (sic) que você seje (sic) acompanhado dessa luz. A luz que o bispo Júlio tem você terá consigo porque o bispo Júlio já está em preparação em Israel para esse grande dia, único, um único dia: a primeira sexta-feira do ano, porque desde Israel ele estará, sabe, ministrando e determinando que essa luz te siga durante todo o ano de 2023. [06:44 – 10:24] O meu nome é Aldo Guimarães. Eu trato de pessoas afetadas, magiadas (sic), vítimas de olhado, e eu vou falar agora algo único, aonde (sic) você terá a oportunidade de ter um ano de tudo bom, tudo bom. Aliás, a Palavra de Deus, a palavra do Espírito Superior, ela fala exatamente isso: que Deus, no sexto dia, depois de ter feito tudo, Ele disse que tudo quanto fizera era muito bom. E nesse próximo dia 6, nós vamos estar realizando o passe da lua cheia, da lua cheia, que foi exatamente quando Deus, Ele colocou em liberdade o Seu povo - tem aqui o versículo, coloca aqui pra (sic) mim o versículo - que colocou em liberdade o Seu povo, e então Ele disse que deveria-se (sic) dali em diante fazer, comemorar uma festa. E diz assim [cita Sl 81.3]. Que festa é essa que (sic) se refere? É a festa de libertação, ou seja, deveria-se (sic) a partir daquela data se comemorar na lua cheia, no primeiro mês do ano, comemorar a libertação da escravidão. Essa é a festa da lua cheia: festa de comemoração da libertação. Fomos escravos. Não somos mais. Fomos escravos. Não seremos mais. E é isso que nós vamos determinar nessa sexta-feira através do passe. Que que (sic) é um passe? Um passe é a luz que temos sendo transferida para você. O Espírito Superior, ele me deu uma capacidade de tratar das almas e essa é a luz que eu vou transferir pra (sic) você. Agora, não vai ser apenas essa, que já seria o suficiente pra (sic) você desmanchar qualquer ataque no seu caminho, tá? Mas o bispo Júlio, desde Israel, estará fazendo o passe, a transferência da luz que Ele tem, como também a transferência da luz daquele lugar, de Israel, para você, para que, então, durante esse ano de 2023, aonde (sic) você pôr (sic) o pé, ali você tenha motivos para festejar, para comemorar, coisa que você não tem tido, ou não teve até hoje. [14:46 - 16:21] Entenda bem uma coisa que acontecia com o Lourival, que é o que tá (sic) acontecendo com você: esse homem tinha uma camada de olhado em cima dele, de inveja, uma camada de olhado, uma camada de inveja em cima dele. Esse homem estava sendo atacado com magias que travou (sic) o caminho dele e ele não tinha o poder de vencer isso. Não tinha. Ele trabalhava, mas trabalhar não dá poder para poder (sic) quebrar magia. Ele tinha um bom produto, tinha e tem um bom produto, mas um bom produto não dá o poder para poder (sic) tirar olhado. Agora, quando ele chegou na luz, então esse poder passou a estar com ele. E, com esse poder da luz, ele quebrou, foi quebrado, foi desfeito, foi desmanchado, e o homem avançou. Esse passe que nós vamos realizar nessa sexta-feira agora, um único dia, não vai ter dois, não vai ter três, não é uma corrente, não é nada disso... É um único dia, um único horário. Sexta-feira agora, dez horas da noite.
Primeiramente, observe o vocabulário que o pai de santo gospel utiliza. Se você já consumiu algum conteúdo de alguém que lida com religiões místicas, ou mesmo conhece alguém envolvido com esse campo religioso, vai conseguir identificar muito bem os termos e o modo de falar. Ou então, lembre-se daqueles anúncios tão recorrentes de alguma “mãe-de-sei-lá-o-que" que promete desfazer trabalhos de amarração, utilizando-se, claro, da mesma ferramenta que quem amarrou usou: a magia. É exatamente assim que este falso profeta se dirige aos seus espectadores.
Em segundo lugar, note que ele não se apresenta como pastor, mas como “alguém com capacidade para tratar de pessoas afetadas, magiadas (sic), vítimas de olhado”. Contudo, ai de quem o chamar pelo nome sendo inferior na hierarquia da Universal! Ele também não se refere ao local como pátio da igreja ou do templo, mas sim como “pátio do Pai Maior”. Observe com mais atenção justamente isso: Ele nem sequer cita o nome e o poder de Jesus Cristo, mas, pelo contrário, fica tratando Deus como “Pai Maior” e “Espírito Superior” (esse termo é bastante utilizado no espiritismo, inclusive). Não há pregação do evangelho da cruz de Cristo, não há apelo ao arrependimento e conversão. Não há nada disso! Há apenas misticismo, feitiçaria e promessa de saúde/prosperidade.
Nesse ponto, recordo-me de Paulo, que, sofrendo toda sorte de oposições ao seu ministério na cidade de Corinto, tendo sido advertido pelo Senhor, perseverou no ensino da Palavra de Deus àquele povo (At 18.1-11). A cidade de Corinto era extremamente contaminada pela idolatria e pela imoralidade. Além disso, os coríntios valorizavam demais a retórica e a eloquência do raciocínio no discurso. Contudo, Paulo não se valeu de nada disso para alavancar o alcance do seu ministério, pregando única exclusivamente o evangelho.
Os judeus pedem sinais milagrosos, e os gregos procuram sabedoria; nós, porém, pregamos Cristo crucificado, o qual, de fato, é escândalo para os judeus e loucura para os gentios, mas para os que foram chamados, tanto judeus como gregos, Cristo é o poder de Deus e a sabedoria de Deus. [...] Eu mesmo, irmãos, quando estive entre vocês, não fui com discurso eloquente nem com muita sabedoria para lhes proclamar o mistério de Deus. Pois decidi nada saber entre vocês, a não ser Jesus Cristo, e este crucificado. (1Co 1.22-24; 2.1-2)
Paulo poderia muito bem ter tentado se apropriar das práticas pagãs e do método filosófico, a fim de atrair a atenção de um maior número de pessoas, promovendo campanhas poderosas de milagres, curas e libertação. No entanto, ele sabia que tudo isso era vão. O que tem que ser pregado é o evangelho da cruz de Cristo, pois é ele o poder de Deus para a salvação (Rm 1.16) e a fé surge quando se ouve a mensagem mediante a palavra de Cristo (Rm 10.17), e não mediante os conhecimentos das religiões místicas e simulação de feitiçarias travestidas de cristianismo.
Outro ponto a se considerar é a audácia desses lobos da fé, que têm a coragem de afirmar que vão transmitir a luz que eles têm para as pessoas que receberem o passe. Pelos frutos de heresia e deturpação bíblica desses homens, eles sequer são da luz. E se, na melhor das hipóteses, eles forem, de fato, da luz, pergunta-se: desde quando o cristão tem luz própria para transferir para os outros por meio de passe espírita? Quanta baboseira! Cristo é a única fonte de luz e somente Cristo pode iluminar uma vida em trevas, e isto acontece por meio da fé no evangelho de Jesus Cristo, que morreu em nosso lugar, sofrendo a condenação que nos era devida, e, por isso, temos nossos pecados perdoados e recebemos a Sua vida em nós. Veja o que o evangelho de João afirma sobre a luz:
Nele estava a vida, e esta era a luz dos homens. A luz brilha nas trevas, e as trevas não a derrotaram. [...] Falando novamente ao povo, Jesus disse: “Eu sou a luz do mundo. Quem me segue, nunca andará em trevas, mas terá a luz da vida”. [...] “Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo”. [...] “Eu vim ao mundo como luz, para que todo aquele que crê em mim não permaneça nas trevas.” (Jo 1.4-5; 8-12; 9.5; 12.46)
No mesmo sentido, o apóstolo Paulo escreve aos colossenses:
Pois ele nos resgatou do domínio das trevas e nos transportou para o Reino do seu Filho amado, em quem temos a redenção, a saber, o perdão dos pecados. [...] Pois foi do agrado de Deus que nele habitasse toda a plenitude e por meio dele reconciliasse consigo todas as coisas, tanto as que estão na terra quanto as que estão nos céus, estabelecendo a paz pelo seu sangue derramado na cruz. Antes vocês estavam separados de Deus e, na mente de vocês, eram inimigos por causa do mau procedimento de vocês. Mas agora ele os reconciliou pelo corpo físico de Cristo, mediante a morte, para apresentá-los diante dele santos, inculpáveis e livres de qualquer acusação, desde que continuem alicerçados e firmes na fé, sem se afastarem da esperança do evangelho, que vocês ouviram e que tem sido proclamado a todos os que estão debaixo do céu. Esse é o evangelho do qual eu, Paulo, me tornei ministro. (Cl 1.13, 19-23)
Ainda, o apóstolo Pedro ensina à Igreja:
Vocês, porém, são geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo exclusivo de Deus, para anunciar as grandezas daquele que os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz. Antes vocês nem sequer eram povo, mas agora são povo de Deus; não haviam recebido misericórdia, mas agora a receberam. (1Pe 2.9-10)
Repare que, tal qual a própria lua, não somos seres com iluminação própria. A luz do cristão vem de Cristo, pois Ele é a luz do mundo! Resplandecemos Sua luz, de fato, mas não somos capazes de transferi-la a alguém, muito menos por meio de passe. O único que pode iluminar a vida de alguém é o Senhor Jesus Cristo. É somente seguindo a Cristo que a pessoa terá a luz da vida. É somente crendo nEle que a pessoa será arrancada das trevas. É somente por meio do sangue de Jesus, derramado na cruz do Calvário, que há reconciliação de todas as coisas, inclusive das que estão na terra. É nEle que habita toda a plenitude. O Pai nos chamou das trevas para a Sua maravilhosa luz por meio do Filho. Toda glória e toda honra sejam dadas somente ao Senhor Jesus Cristo, hoje e eternamente!
Como verdadeiros cristãos, devemos ter a plena consciência de que ninguém detém a luz, exceto o nosso Senhor, que é a própria luz. E mais: que somente pela fé na mensagem do evangelho da cruz de Cristo é que uma pessoa pode ser resgatada das trevas e receber essa luz em sua vida. Não tem passe, não tem macumba gospel, não tem incenso... Nada! Anátema seja tudo quanto se promova em substituição ao evangelho puro e simples!
Sobre a lua cheia, o “passista” Aldo Guimarães acerta ao afirmar que a Páscoa dos hebreus se deu numa noite de lua cheia e que deveria ser comemorada por decreto divino. Contudo, erra grotescamente ao tentar encaixar sua concepção macabra nesse salmo.
Em primeiro lugar, devemos considerar quão importante é o salmo 81. Trata-se de uma composição tão complexa que os próprios estudiosos têm dificuldade em encaixá-lo numa categoria de salmo específica. Há salmos de lamentações, sapienciais, de confiança, entre outros. Esse poderia ser enquadrado como um hino de louvor, mas também apresenta uma severa declaração divina. O comentarista Matthew Henry chega a afirmar que, embora todos os salmos sejam proveitosos, “se tivéssemos que escolher, dentre todos os salmos, um que fosse mais adequado para aquela época, com as suas cerimônias, a nossa escolha, sem dúvida, seria este”, em razão de atender perfeitamente aos dois maiores objetivos das nossas assembleias religiosas: “dar glória a Deus e receber dele instrução, a fim de ‘contemplar a formosura do Senhor e aprender no seu templo’”. Repare a introdução do salmo:
Cantem de alegria a Deus, nossa força; aclamem o Deus de Jacó! Comecem o louvor, façam ressoar o tamborim, toquem a lira e a harpa melodiosa. (Sl 81.1-2)
A introdução do salmo 81 se dá em um contexto de chamado à adoração jubilante, à exclamação de um coração alegre no Deus de Israel, ao mais perfeito louvor ao Senhor. É praticamente um salmo litúrgico, instruindo o povo de Deus reunido a exaltá-Lo com alegria. Não há aqui nenhuma referência a batalha espiritual, a feitiços dos povos pagãos, a exorcismos, nem nada parecido. O único foco aqui é a verdadeira adoração ao Deus Eterno.
O salmista prossegue:
Toquem a trombeta na lua nova e no dia de lua cheia, dia da nossa festa; porque este é um decreto para Israel, uma ordenança do Deus de Jacó, que ele estabeleceu como estatuto para José, quando atacou o Egito. (Sl 81.3-5)
Nesse contexto de convocação à adoração a Deus, o salmo instrui que se toque a trombeta na lua nova e na lua cheia, referindo-se ao dia da festa. Sabe-se que a trombeta é um instrumento bastante utilizado para convocação do povo às festas no Antigo Testamento (Nm 10.10), o que dá todo sentido à referência do salmista da “nossa festa”. Portanto, reforça-se a noção de que essa introdução do salmo 81 é um chamado à adoração e de que não há aqui qualquer viés de batalha espiritual.
Quanto a essa festa ser a Páscoa, é muito improvável. A celebração da Páscoa, a princípio, não envolvia trombetas, pois era um ritual realizado no seio da família, dentro de casa. Além disso, embora a Páscoa tenha se dado na primeira noite de lua cheia do calendário hebreu, não há nenhuma relação aparente com a lua nova, a qual também é mencionada nesse versículo. Inclusive, se compararmos com a tradução ACF, utilizada na Bíblia Sagrada com as anotações de Fé do Bispo Edir Macedo, veremos que nem sequer há menção específica à lua cheia no Sl 81.3, mas apenas à lua nova.
Tendo em vista se tratar de um salmo claramente composto para ocasiões solenes de celebração religiosa, a menção às luas nova e cheia no mesmo contexto de festa aponta muito provavelmente para o sétimo mês, em que são celebradas duas festas exatamente sob essas fases lunares. A primeira delas, realizada na fase da lua nova, início do mês, era a Festa das Trombetas (“Shofarot”):
Disse o SENHOR a Moisés: “Diga também aos israelitas: No primeiro dia do sétimo mês vocês terão um dia de descanso, uma reunião sagrada, celebrada com toques de trombeta. Não realizem trabalho algum, mas apresentem ao SENHOR uma oferta preparada no fogo”. (Lv 23.23-25)
A cada lua nova, isto é, em todo princípio de mês, comemorava-se uma festa santa. Contudo, a lua nova do sétimo mês possuía um significado ainda mais especial, pois este era um mês especialmente santo. A lua nova do sétimo mês marca o fim de um ano agrícola e o início de um novo ano. Embora o ano religioso comece no mês da Páscoa, o ciclo da agricultura se renovava no sétimo mês. Na tradição posterior, essa festa passou a ser chamada de “Rosh HaShaná”, celebrando-se o Ano Novo cívico dos judeus. Esse mês também era muito relevante para o povo de Israel em razão do Dia da Expiação (“Yom Kippur”), instituído em Lv 16 e realizado no décimo dia. Nesse ritual, realizava-se a purificação de todos os pecados de Israel, desde o sacerdote até o homem comum, e, por isso, o sétimo mês era tão santificado.
Cinco dias após o Dia da Expiação, isto é, no décimo quinto dia do mês, na fase da lua cheia, celebrava-se a Festa dos Tabernáculos:
Disse o SENHOR a Moisés: “Diga ainda aos israelitas: No décimo quinto dia deste sétimo mês começa a festa das cabanas do SENHOR, que dura sete dias. No primeiro dia haverá reunião sagrada; não realizem trabalho algum. Durante sete dias apresentem ao SENHOR ofertas preparadas no fogo, no oitavo dia façam outra reunião sagrada e também apresentem ao SENHOR uma oferta preparada no fogo. É reunião solene; não realizem trabalho algum. [...] Celebrem essa festa do SENHOR durante sete dias todos os anos. Este é um decreto perpétuo para as suas gerações; celebrem-na no sétimo mês. Morem em tendas durante sete dias; todos os israelitas de nascimento morarão em tendas, para que os descendentes de vocês saibam que eu fiz os israelitas morarem em tendas quando os tirei da terra do Egito. Eu sou o SENHOR, o Deus de vocês”. (Lv 23.33-36, 41-44)
Durante a lua cheia do sétimo mês, celebrava-se a Festa dos Tabernáculos. Nela, os israelitas acampavam em pequenas barracas. Nos primeiro e último dias da festa, havia reuniões solenes, para as quais, obviamente, o povo era convocado, tal qual na Festa das Trombetas. Essa festa se encaixa ainda mais na menção à lua cheia do salmo 81, pois o salmista repete a declaração do Senhor de que ela era um decreto para Israel.
Assim, podemos concluir, para além das conclusões sobre a verdadeira luz e sua forma de “transferência”, que o salmo 81 não é base para nenhum ritual de macumba gospel com “passe de luz”, e que nem ao menos faz referência a batalha espiritual ou algo do gênero. Também se pode inferir que a festa a que ele se refere não é a Páscoa (“festa da libertação”, nas palavras do “passista”), mas sim a Festa das Trombetas e a Festa dos Tabernáculos. Ainda, resta claro que não há nenhum poder místico ou simbologia espiritual na lua cheia, mas que se trata apenas do modo como o povo de Israel se guiava na contagem dos dias do mês, que se dava através das fases da lua.
Não há, portanto, fundamento bíblico nesses propósitos de passe, nem mesmo esse da lua cheia, em que se utilizou o versículo de modo descontextualizado. Trata-se, novamente, apenas de misticismo e feitiçaria gospel da Universal para atrair os incautos e desesperados com a promessa de solução rápida para todos os problemas, o que gera bastante arrecadação para eles com os envelopes que são diariamente repassados, corrente após corrente, campanha após campanha, propósito após propósito.
Nota: transcrições bíblicas extraídas da Bíblia Sagrada, Nova Versão Internacional ®, NVI ® Copyright © 1993, 2000, 2011 by Biblica, Inc., exceto aquelas cujas descrições indiquem versão diversa.
REFERÊNCIAS OFICIAIS DA UNIVERSAL:
1. Passe da Lua Cheia no Descarrego da Meia Noite, publicado em 02/01/2023.
2. PROGRAMA DESCARREGO DA MEIA MOITE 02/01/2023, publicado em 02/01/2023.


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