
Heresias Universal
Sobre Nós
Esse projeto nasceu em meu coração a partir de um senso de responsabilidade. É difícil você enxergar tantas mentiras sendo propagadas e ficar inerte diante delas. Mais difícil ainda quando essas mentiras são capazes de consumir o vigor de muitos, especialmente de pessoas que você tanto ama. Agora imagine que você tenha estado ao lado dos mentirosos por décadas, desde a mais tenra infância, tendo sido adestrado no engano por anos a fio, patrocinado e propagado as mentiras, por mais que muita coisa não fizesse sentido, e, de repente, tem as escamas de seus olhos removidas, passando a enxergar o poço profundo em que esteve preso por tanto tempo. Pior: você descobre que a operação do erro sempre foi tão claramente visível e que é o único verdadeiramente responsável por ter se mantido naquele engano. Ao se ver liberto de todas essas amarras, qual seria sua atitude para com os que, assim como você outrora, ainda se encontram lá?
Sempre digo que praticamente “nasci” na Igreja Universal do Reino de Deus. Por volta dos meus 6 meses de vida, fui apresentado pela minha mãe na instituição, a partir de quando ela começou a frequentar as reuniões, foi batizada nas águas e se tornou oficialmente membro da comunidade. Fui aluno da EBI (Escola Bíblia Infanto-Juvenil) até os 10 anos, quando passei para o grupo P.A. (Pré-Adolescentes), que veio a se tornar TF Teen (Turma da Fé Teen), e atualmente se chama FTU (Força Teen Universal). Ainda na época do TF Teen, aos meus 11 anos, fui batizado nas águas e, aos 13, “levantado” a obreiro. Principalmente a partir desse momento, minha vivência começou a ser muito mais intensa nas atividades da igreja, tanto pelo início da adolescência, com um pouco mais de autonomia concedida pelos meus pais gradativamente, quanto pelas funções de um obreiro.
Minha dedicação à instituição era grande demais. Fui muito bem treinado durante toda a infância. Eu era a Universal! Na minha cabeça, a IURD era a única igreja que vivia perfeitamente a fé, que tinha os maiores homens de Deus, que sacrificavam cem por cento de suas vidas pela salvação das almas, que tinham autoridade para expulsar o demônio que fosse... Os bispos e pastores eram os meus heróis, dos quais o maior era o bispo Edir Macedo, o Abraão dos últimos dias, o melhor líder evangélico do mundo. Portanto, o sonho da minha vida era ser pastor da Universal. Meus pais e vizinhos são testemunhas de que grande parte do meu tempo de “brincadeira” era pegar um pedaço de madeira que travava a janela da sala de casa para simular um microfone e imitar um pastor fazendo reunião. Eu não fazia questão de ser bispo ou de “cuidar” de uma catedral. Meu desejo mesmo era ser enviado para os “cafundós do Judas”, aonde ninguém queria ir. Eu queria levar a Palavra de Deus aos lugares de miséria, guerras e sofrimento, em que Cristo ainda não fosse conhecido.
Ao tornar-me, pois, obreiro, não poderia pensar em motivo maior de alegria. Eu havia subido mais um degrau rumo ao objetivo de entregar toda a minha vida no “Altar” para servir a Deus ganhando almas. Ainda por cima, tinha sido “levantado” por um experiente pastor, filho de bispo, que tinha contato direto com o bispo Macedo e me incentivava a “ir para o Altar”, a exemplo dele próprio, que havia sido “levantado” a pastor aos 15 anos. No meu caso, agora era necessária a emancipação, cuja idade mínima para tanto era 16 anos. Portanto, eu deveria aguardar um pouco mais. Enquanto isso, esse pastor sugeriu que eu estudasse a língua árabe e me preparasse para quando a instituição conseguisse se estabelecer nos países árabes, os últimos restantes, segundo ele. Até quis seguir o conselho, mas minha família não teria dinheiro para custear um curso desse.
Minha família também não tinha dinheiro para comprar meu uniforme todo de uma vez. Um casal de obreiros muito queridos, os quais sempre me trataram com muito carinho e respeito, como um filho, e posteriormente ao meu irmão, quando lideravam o FTU da nossa igreja durante o início da adolescência dele, me comprou uma camisa social branca. O meu líder do TF Teen me repassou uma de suas gravatas de obreiro. Meus pais compraram a calça e o sapato social. Com o uniforme completo, já quis “trabalhar” na reunião do dia seguinte, uma quarta-feira, às 18h. A euforia era tanta que eu nem me atentei à necessidade de lavar e passar o uniforme. Peguei a blusa e a calça do jeito que estavam na embalagem, vesti e fui com tudo. Quanta alegria!
A partir de então, pouco a pouco fui adquirindo experiências dentro da “obra” e tímidas sementinhas de desconfiança de coisas que não faziam sentido e erros sistêmicos germinaram lentamente ao longo de 10 anos como obreiro, até culminarem efetivamente na minha ruptura com a instituição.
A primeira coisa que notei foi a falta de união entre os obreiros. Havia uma quantidade razoável de obreiros insuportáveis, sempre envolvidos em confusões e fofocas. Havia também panelinhas, grupos que se fechavam entre si. Isso era estranho, mas era o que tinha. O meu referencial era que todos estavam ali para fazer a “obra”, que não deveríamos olhar para nada ou ninguém, apenas para Cristo. Eu só fui entender de verdade o que é o amor fraternal bíblico quando comecei a congregar em uma igreja bíblica após meu desligamento da IURD, e demorou demais para me adaptar a isso após ter vivido uma realidade completamente diferente.
Como obreiro jovenzinho e solteiro que era, o meu tempo de trabalho na igreja era maior do que o normal, pois eu apenas estudava meio-período e tinha o resto do meu tempo livre. Aos domingos, trabalhava nas reuniões da manhã, assistia à “aula” de obreiros, almoçava rapidamente em casa ou na própria igreja, quando a ocasião permitia, “evangelizava” para trazer gente para “Cura dos Vícios”, às 15h, e depois participava da reunião do TF Teen. Costumava trabalhar em reuniões durante a semana, especialmente às quartas (“Noite da Salvação”) e sextas (“Desafio da Cruz”, na época, com outros nomes variantes ao longo dos anos, como “Sessão de Descarrego”, “Desmanche Espiritual” etc.). Costumava também “vigiar” a igreja nas quintas à tarde, para o pastor auxiliar dormir ou dar um passeio. Cheguei a fazer algumas reuniões nesse período com algumas poucas pessoas que iam à igreja no horário das 15h. Aos sábados, eu trabalhava no “Jejum das Causas Impossíveis”, às 7h, e ao longo do dia ficava confeccionando propósitos (envelopes, fitas, caixinhas, vidrinhos, saquinhos, folhetos), carimbando a Folha Universal com o endereço e horários das reuniões da nossa igreja, fazendo faxina e “evangelizando” para convidar pessoas às reuniões de domingo. Realizei ainda quatro “núcleos de oração” em lares de membros com seus familiares e vizinhos. Após a esposa do pastor me obrigar a sair do TF Teen para atuar na FJU (Força Jovem Universal), passei a “evangelizar” com mais frequência nas comunidades e por alguns meses realizei várias reuniões dos jovens, chamadas à época de “Frequência Jovem”, pois o horário de trabalho da líder do grupo costumava conflitar com os horários das reuniões.
Nesse período, por volta dos meus 14 ou 15 anos, o pastor me deu uma carta de recomendação para participar das aulas de IBURD (Instituto Bíblico Universal do Reino de Deus) na Catedral de Del Castilho. O significado dessa sigla, inclusive, só descobri após o desligamento com a Universal, ao ler “O reino: A história de Edir Macedo e uma radiografia da Igreja Universal”, de autoria do jornalista Gilberto Nascimento. Trata-se de uma tentativa frustrada do teólogo metodista J. Cabral, ghostwriter de muitos livros do bispo Macedo, de implementar uma formação teológica para candidatos a pastor da instituição, criando a FATURD (Faculdade Teológica Universal do Reino de Deus), nos idos dos anos 80. Isso, por óbvio, prejudicava os interesses expansionistas do líder da Universal, o que fez com que ele acabasse com esse projeto, restando substitutivamente o IBURD, o qual de bíblico não tem nada. Fiquei praticamente um ano “fazendo” IBURD, na época dos bispos João Leite e Marcelo Moraes, ambos dissidentes, mas que continuam reproduzindo as mesmas práticas, sob novas denominações. Minha mãe, membro da IURD, e meu pai, incrédulo, deixaram bem claro que só permitiriam que eu fosse pastor se eu concluísse, ao menos, o ensino médio, mas que preferiam que, na verdade, eu me formasse em alguma faculdade antes. Os pastores e alguns obreiros me pressionavam a convencê-los a mudar de ideia e me liberarem para o “Altar” o quanto antes. Em acordo com meus pais, comecei a ir para as “aulas” de IBURD, ciente de que mofaria lá por anos até concluir o ensino médio. Meu desejo de me tornar pastor era enorme, mas ali começou de verdade o meu desencantamento com essa ideia. Quando eu via a maioria dos meus pares, dos auxiliares que já estavam no “quartel” e dos pastores que lidavam conosco, eu desanimava. Eu queria tudo, menos ser como eles. Se ser pastor era ser como eles, então eu achava não queria mais ser pastor. Isso gerou um enorme conflito interno que durou bastante tempo.
Eu sempre fui bastante estudioso. Meus pais não tinham condições de pagar uma escola particular. Eu tive a oportunidade de cursar o ensino fundamental em boas escolas municipais, mas eu sabia que a rede estadual era terrível. Portanto, fiz um cursinho para conseguir cursar o ensino médio em um Pedro II, Cefet ou Faetec da vida. Acabei passando para a escola dos sonhos: uma escola de ponta, em regime de residência, na época, com bolsa integral para todos os alunos. Eu fui bastante desencorajado por muitas pessoas da igreja a ir, mas graças a Deus também tive o apoio de familiares, amigos e professores, que valorizavam o estudo, e decidi adormecer esse sonho desencantado de ser pastor da Universal e me matricular nessa escola. Estudando lá, eu estive pela primeira vez realmente fora da bolha Universal. Eu saía apenas a cada dois ou três finais de semana, frequentando presencialmente a igreja apenas nessas raras ocasiões. Apesar de assistir a algumas reuniões pela plataforma Univer, quando o horário permitia, a escola era repleta de atividades extracurriculares, além do currículo comum, e eu me envolvi em muitas delas. Também pude conviver com muitos alunos de todas as unidades federativas do Brasil, das mais variadas realidades socioeconômicas, o que me fez criar um senso crítico bastante apurado, inclusive relacionado a coisas que aconteciam dentro da própria escola.
Nesse período, tivemos agitações políticas importantíssimas no país, como a explosão midiática da Operação Lava-Jato, o impeachment de Dilma Roussef, ascensão do fenômeno do “bolsonarismo” e a prisão de Lula, por exemplo. A Universal rompeu com o PT, apostando na oposição, e posteriormente em Bolsonaro. No Rio de Janeiro, lutou pela eleição do bispo Crivella à prefeitura. Talvez pela pouca idade, eu nunca tenha observado a sujeira política na qual a IURD se afunda para garantir seus interesses político-econômicos e executar seu plano de poder. Na minha ingênua concepção, os “homens de Deus” estavam na política para lutar pela causa do evangelho, contra os opositores da fé cristã, que queriam censurar a Bíblia, fechar as igrejas e perseguir os evangélicos. Nesse momento de observação à distância e exercício do pensamento crítico, eu comecei a perceber como a denominação da qual eu fazia parte jogava sujo na política. Fiz algo ainda mais inaceitável: comecei a fazer posts criticando atitudes hipócritas de políticos da Universal e seus coligados. Adivinhem a consequência: perseguição interna, maledicências e muita confusão.
Sem dúvidas, esse foi o meu maior problema com a Universal até a minha saída. De teologia eu entendia muito pouco, quase nada, na verdade. Mas eu acompanhava diariamente a movimentação política do país à época e tinha razões concretas para repudiar a postura da instituição. Quanto a isso, há algumas ocorrências interessantes de se relatar.
Crivella se elegeu em 2016 tendo como principal argumento o suposto rombo de 4 bilhões que Paes estava deixando de brinde para a prefeitura no fim do seu segundo mandato. O bispo se comprometeu a administrar bem as finanças do município e fechar o referido rombo. Elegeu-se. Diante de uma crise tamanha, qualquer prefeito com o mínimo de juízo se preocuparia em investir no que é essencial (saúde, educação, transporte etc.) e enxugar ao máximo os gastos supérfluos. Qual foi a preocupação de Crivella? Gastar rios de dinheiro para alterar a identidade visual da prefeitura, que antes era azul, bastante associado ao partido dos seus antecessores, tornando-a verde. Sim, o prefeito preocupado com o tal rombo de 4 bilhões se preocupou com a cor das campanhas publicitárias da prefeitura.
Critiquei-o duramente nas redes sociais, especialmente por isso, mas também por outras coisas que eu, na qualidade de cidadão do município, não acreditava serem condizentes com as necessidades urgentes da cidade e com uma administração honesta e responsável. Na época, o regional da sede da qual eu fazia parte era o filho do bispo Clodomir Santos, o qual fazia parte da alta cúpula da instituição. O pastor “segundo”, que gostava bastante de mim, me chamou à parte e mandou eu parar de publicar essas declarações. Ele disse que eu tinha perdido a noção, pois o regional era filho do bispo Clodomir e poderia me “tirar da obra” a qualquer momento se soubesse disso. Perguntou-me, ainda, se eu entendia “alguma coisa de política”, ao que respondi: “um pouco”. Disse-me, então, que já havia trabalhado com um vereador da igreja e que “política é toma-lá-dá-cá” (sim, um pastor dizendo isso ao seu obreiro sem qualquer constrangimento).
Outra situação inusitada foi quando, durante as investigações da Operação Lava-Jato, vazou um áudio do bispo Marcos Pereira, presidente nacional do Republicanos (sim, a Universal tem um partido político para chamar de seu) à época, negociando propina com o Joesley Batista. Para acompanhar o compartilhamento dessa notícia, elaborei um dos maiores textos que já escrevi em redes sociais, criticando de forma contundente aquele crime. Óbvio que nada aconteceu com o denunciado. Aconteceu apenas comigo. Vim a saber posteriormente (nenhuma surpresa, afinal) que vários obreiros printavam meus posts para denunciar ao pastor regional (que já era outro). No primeiro domingo que fiz a saída de fim de semana após essa publicação, ele mandou o responsável dos obreiros me convocar com urgência para uma conversa com ele. Subi ao auditório, onde me aguardavam ele e a esposa do responsável dos obreiros. A portas fechadas, ele me repreendia com ira tamanha, me acusando de estar mal espiritualmente. Abrindo um parêntese: essa já tinha sido a fala dele desde a primeira vez que me viu, quando chegou naquela igreja, pois eu morava na escola, ia pouco à igreja e, para piorar, estava usando um colar feito por indígenas de uma tribo que visitei (sem nenhuma conotação religiosa, apenas um mero artesanato para gerarem renda com as visitas dos turistas à aldeia). Fechando o parêntese. A obreira ao lado, com o print em mãos, dizia que o aquilo que havia feito era grotesco e me questionava como eu conseguia acreditar em uma matéria da revista Veja (será que o áudio também foi narrado pela Veja e as todas as outras fontes também conspiravam com a revista ao reproduzirem exatamente o mesmo áudio?).
O ápice desse evento foi o momento em que o pastor, com a cara de bravo que ele tinha, me encarou com seu olhar de fúria e me fez a seguinte pergunta: “Então quer dizer que a igreja toda está errada e só você está certo?”. Nesse momento, eu gelei. Eu estava diante de duas lideranças, as quais eu considerava como autoridades espirituais, sendo fortemente desmoralizado por compartilhar um áudio de um bispo-político negociando propina. Será que eu não havia entendido direito a reportagem e o áudio? Será que a Veja não tinha inventado tudo isso? Será que eu não estava com meus olhos contaminados, vendo malícia na obra de Deus? Não fui corajoso o suficiente para manter firme a minha posição. Duvidei dos fatos e da minha própria condição espiritual. Cedi. Apenas abaixei a cabeça. Diante da minha ausência de resposta, o pastor informou que enviaria meu caso para o bispo responsável dos obreiros do estado. Na manhã seguinte, enviei uma mensagem para a obreira responsável me desculpando, retirando tudo o que eu disse, concordando com a fala dela de que minha publicação foi grotesca e me comprometendo a não me pronunciar mais a respeito dos políticos da igreja. Creio que ela tenha repassado a mensagem para ele, pois na vez seguinte em que estive na igreja o pastor me chamou e avisou que não tinha mandado meu caso para o bispo e que eu poderia voltar a “colocar o uniforme”.
Houve um breve período de “paz”. No entanto, com a polarização política, a igreja começou a endeusar os seus coligados (candidatos que não eram do partido da igreja apoiados para os cargos que ela não estava disputando) e covardemente demonizar os adversários. Meu compromisso era não criticar os políticos da igreja. Quanto aos demais... Tudo começou outra vez. Até que, em um domingo pela manhã, na reunião de obreiros, esse pastor narrou praticamente todas as situações relacionadas à política da igreja que me envolviam (só não citou meu nome, o que teria sido menos óbvio do que tudo o que ele falou). Ao fim, convocou os obreiros a se levantarem para repreender esse espírito de Judas que havia no nosso meio. Adivinha quem era o Judas? Sim, eu mesmo, que amava a obra da Igreja Universal de todo o coração e me dedicava ao máximo como obreiro naquilo que minha consciência não me acusasse tanto. Mas, por não querer votar nos candidatos da coligação partidária do Republicanos devido às minhas convicções políticas (as quais eu ainda ignorava para votar nos candidatos da igreja propriamente por temor), eu fui taxado como traidor diante de todos os obreiros da sede. De todos os absurdos que já vivenciei na Universal, esse foi o golpe que mais doeu em meu coração, não porque tenha sido grave, mas pelo que significou para mim ser considerado Judas pela liderança da igreja que eu tanto amava e em cuja obra eu tanto me dedicava.
Algum tempo depois, já na faculdade, começou a surgir um desejo de entender a fundo a Palavra de Deus. Mas como fazer isso se eu tinha tanta dificuldade para entender os detalhes das histórias e lições bíblicas, especialmente o Antigo Testamente e as cartas paulinas? Eu era leitor voraz dos livros da Universal, mas estes não saciavam a sede de entendimento que brotava em meu interior. Era sempre mais do mesmo, ensinamentos rasos; eu estava me sentindo estagnado. Em um domingo pela manhã, fui presenteado com a Bíblia Sagrada com as anotações de fé do Bispo Edir Macedo por uma senhora de boas condições financeiras que gostava de mim, especialmente pelo tratamento que eu dava ao filho dela, também jovem. Foi uma alegria imensa! Finalmente eu poderia me aprofundar no conhecimento das Escrituras Sagradas. Ledo engano. Também não foi suficiente para mim. Eu ainda estava tremendamente incomodado com o meu entendimento bíblico.
Certo dia, o YouTube me recomendou o vídeo de um arqueólogo que prestava consultoria à Record, cujo tema era a novela que estava prestes a estrear. Nos comentários, descobri que, além de arqueólogo, ele também era teólogo e filósofo. Rodrigo Silva, apesar das ressalvas que hoje tenho em relação à Igreja Adventista do Sétimo Dia, foi o primeiro pastor de fora da Universal cujo conteúdo passei a consumir. Em 19 anos de vida, eu nunca tinha me permitido ouvir alguém de outra denominação, pois aprendi que eu não poderia “misturar os vinhos”, para não acabar encarando a obra de Deus com maus olhos. Além disso, para que eu deveria me preocupar com conhecimento teológico se “a letra mata, mas o Espírito vivifica”?
Acontece que, conforme relatado, Rodrigo Silva me fisgou com seus conhecimentos de arqueologia bíblica. Alguns vídeos eram mais teológicos e fui aprendendo a como ler a Bíblia e interpretá-la corretamente. Apesar de sempre ter sido um excelente aluno na disciplina de Língua Portuguesa, minha mente estava tão bem programada pela Universal que eu não me dava conta que eu precisava entender o contexto em que o(s) versículo(s) estava(m) inserido(s) para poder interpretá-lo(s) corretamente e, assim, aplicá-lo(s) da forma certa. Comecei a ler os livros na ordem do texto e não mais abrindo a Bíblia de forma aleatória, apontando o dedo magicamente para o trecho através do qual Deus falaria comigo.
Um tempo depois, o YouTube me recomendou um vídeo do reverendo Augustus Nicodemus, expondo as razões pelas quais a Igreja Presbiteriana do Brasil considerava a Igreja Universal do Reino Deus como uma seita evangélica. Eu senti muita raiva daquele senhor. Como ele ousava dizer que a IURD era uma seita? Quase uma blasfêmia! Enquanto assistia ao vídeo, rebatia comigo mesmo todos os argumentos dele, não de forma objetiva, mas sempre de maneira subjetiva, por exemplo: “Não é bem assim; se ele conhecesse, de fato, a Universal, entenderia o objetivo de ganhar almas por detrás dessas situações”.
O problema é que, à medida que eu engatinhava sempre um pouquinho mais a fundo no entendimento da Bíblia Sagrada, especialmente nas minhas leituras individuais, sem ser induzido por nenhum teólogo, mas já com as ferramentas mínimas de interpretação bíblica, eu estava começando a chegar às mesmas conclusões daquele pastor presbiteriano que tanto me irritou com seu vídeo. Lembro-me até hoje de quando li a primeira carta de Paulo à Timóteo, quando o apóstolo trata sobre a perversão da doutrina apostólica e o modo como o cristão genuíno deve encarar as riquezas. Por mais que os comentários do bispo Macedo sobre esse texto tentassem suavizar ao máximo a lição de Paulo, a Escritura era tão clara e enfática que não dava brechas para as distorções do líder da Universal.
A partir daí, comecei a consumir conteúdo de teólogos de várias tradições diferentes (inclusive do Nicodemus), comparando as interpretações, os recursos hermenêuticos, o modo como pregavam, os conhecimentos históricos, culturais e geográficos que enriqueciam a compreensão dos textos bíblicos, entre outros.
Nesse período, comecei a namorar com uma jovem obreira com quem criei uma amizade intensa e que, além de ser também bastante dedicada à “obra” e temente a Deus, tinha a cabeça aberta (o que era bastante incomum, especialmente entre os obreiros jovens) e até tecia críticas à Universal. Com o tempo, descobri que, da mesma forma como o Espírito Santo estava despertando em mim essa sede de conhecimento bíblico, também estava fazendo com ela. Assim, começamos a compartilhar um com o outro o entendimento que estávamos alcançando lentamente e tínhamos liberdade para expor tudo o que percebíamos que não tinha respaldo bíblico na Universal.
Um tempo depois do início do nosso namoro, a pandemia limitou bastante o nosso serviço na igreja, especialmente nos primeiros meses, em que as saídas de casa eram raríssimas, apenas permitidas nas situações estritamente necessárias. Nesse lapso, tivemos mais tempo livre à nossa disposição e fomos aprofundando o nosso conhecimento bíblico de modo mais intenso. Em nosso gradual retorno às atividades presenciais na Universal, já não éramos os mesmos de antes. Contudo, em razão das muitas responsabilidades que tínhamos como obreiros e da visibilidade que tínhamos diante do povo, nosso desenvolvimento bíblico ficava um pouco sufocado na prática, pois evitávamos gerar confusão e ainda tínhamos a ideia de que a obra da Igreja Universal, apesar de tudo, estava à serviço do reino de Deus.
Após muita luta e turbulência, em todos os sentidos, casamo-nos, pela graça de Deus, e imediatamente nos mudamos para outro bairro, sendo transferidos para sermos obreiros da sede desse lugar. Diante de toda a mudança que estava ocorrendo em nosso entendimento, decidimos não nos envolvermos muito com as atividades da nova igreja, até porque também éramos recém-casados e não tínhamos muito tempo livre devido ao trabalho e estudo. O pastor regional que estava nessa sede nos recebeu muito bem e, dentro do universo pastoral da IURD, era uma tremenda exceção. Ele estimulava fortemente o povo a ler a Bíblia, pregava bastante nas reuniões que conduzia, não era autoritário, tinha um cuidado muito grande com os obreiros e sempre se dedicava a tomar à frente dos líderes nas reuniões com seus respectivos grupos para pregar.
Houve um dia em que esse pastor convocou a mim e a minha esposa para um “atendimento”, que equivaleria a uma conversa no gabinete pastoral, como é conhecido na maioria das denominações. Ele foi o único pastor com quem eu e minha esposa nos abrimos totalmente sobre nossas questões em relação à Universal, ao conhecimento bíblico e à política, pois, devido à seriedade que ele demonstrava ter em relação à Palavra e à “obra”, ele certamente nos ouviria sem reagir com ignorância. De fato, ele foi muito respeitoso, dizendo que também não concordava com tudo, mas que “naquilo que não é pecado”, segundo suas palavras, ele preferia se submeter. Contou, ainda, que já tinha visto atrocidades inimagináveis na “obra”, mas que olhava somente para Jesus. Ao nos questionar se tínhamos o desejo de servir a Deus no “Altar” e conhecer essa longa história, ele nos orientou a não limitarmos o propósito de Deus para nossas vidas. Ao fim, ele previu que, se permanecêssemos daquela maneira, acabaríamos nos afastando da igreja.
Conseguimos, nessa fase final na IURD, organizar nossa rotina para auxiliar no FTU (Força Teen Universal), grupo de adolescentes da instituição. Devido ao horário de trabalho da líder do grupo, ela não conseguia mais reuni-lo às sextas-feiras e assumimos a condução desse encontro semanal com os adolescentes. Como não era a reunião principal deles, pouquíssimos iam, às vezes apenas um. Mas nossa mentalidade já era de pregação do evangelho genuíno, sem absolutamente nenhuma preocupação em impressionar a liderança com quantidade de integrantes na reunião do grupo. A direção vinha do pastor Walber Barboza (aquele que foi gravado humilhando os pastores do Equador), líder nacional, e, como sempre, era algo raso e superficial, por muitas vezes um versículo apenas, com uns slides sem pé nem cabeça. Minha esposa e eu, então, identificávamos o tema daquele trecho bíblico e começávamos uma pesquisa temática na Bíblia, apresentando com clareza o que a Palavra fala a respeito do assunto, listando vários textos bíblicos para os adolescentes estudarem ao longo da semana, trazendo exemplos tanto positivos quanto negativos de personagens das Escrituras em relação àquele determinado assunto e sempre concluindo com o apontamento de tudo aquilo para a obra de Cristo. Isso, claro, incomodou a líder do grupo, que nos proibiu de continuar fazendo isso.
É importante destacar que nossa saída da Universal não foi alegre e não foi precipitada. Gradualmente as heresias foram perdendo sentido para nós à medida em que nos aprofundávamos mais no exame das Escrituras Sagradas, que passaram a ser a nossa única regra de fé e prática. Aos poucos fomos deixando de cobiçar a prosperidade financeira, fazer “votos”, participar das sessões de “libertação”, utilizar os “pontos de contato” etc. O conteúdo das reuniões já não tinha nenhuma relevância para nós, pois a única coisa que ainda tinha de “bom” era a pregação, mas era sempre distorcida e sem profundidade. Só restava o momento da oração mesmo.
De alguma forma, nós ainda achávamos que a Igreja Universal estava a serviço do reino de Deus e que nós poderíamos contribuir para encerrar as doutrinas e práticas contrárias à Palavra de Deus. Contudo, essa situação do FTU, somada a substituição daquele pastor por um outro completamente desqualificado e autoritário, tornou insustentável a nossa permanência na instituição. Minha esposa se definiu primeiro, mas respeitou meu momento e continuou lá comigo por algumas semanas. Começamos a ver as possibilidades de igreja na nossa vizinhança e encontramos uma que aparentava ser extremamente centrada nas Escrituras e que exercia de fato o amor de Cristo. Num belo domingo, depois de mais um estresse em relação ao impedimento de pregar o evangelho genuíno em uma reunião do FTU, coloquei todos os meus medos e dúvidas diante de Deus no momento de oração e Ele me deu certeza do que deveria ser feito. Na semana seguinte, fomos à essa igreja com que nos identificamos, praticamente interrogamos o pastor a respeito de tudo, minuciosamente, e, confirmando-se que nossas pesquisas correspondiam de fato ao perfil daquela igreja, voltamos para casa, almoçamos, recolhemos todas as coisas (uniformes, livros, CD’s etc.) que tínhamos da Universal em duas sacolas enormes de mercado, nos apresentamos ao pastor regional para comunicarmos o nosso desligamento da instituição, expondo todas as razões pelas quais estávamos tomando essa decisão. Ele não aceitou de bom grado, disse que nossos corações eram maliciosos e que poderíamos nos arrepender seriamente. Mantivemos nossa decisão e, quando se deu por vencido, ele nos liberou.
Minha esposa reagiu muito bem a isso. Eu fiquei por três dias muito mal, sem nem comer e levantar da cama direito. Na minha mente transitava um turbilhão de pensamentos. Contudo, o fato de termos feito isso para nos adequarmos ao evangelho verdadeiro me deu forças para superar esse “luto” e seguir em frente.
Hoje, já há um bom tempo fora da bolha, conseguimos enxergar coisas que sempre estiveram escancaradas, mas não conseguíamos perceber ou, quando percebíamos, propositalmente desviávamos nossos olhos. Atualmente temos noção de como o conhecimento profundo da Palavra de Deus fortalece a nossa fé e aumenta o temor. Recordo-me das vezes em que, mesmo consciente da pecaminosidade de determinadas atitudes que tive, cedi às tentações. Sim, não queremos passar a falsa ideia de que éramos santos e irrepreensíveis. Até porque, como o seríamos sem dedicação ao estudo sério das Escrituras? Comparando isso à maturidade cristã que temos adquirido ultimamente, noto como o fato de estar crescendo na graça e no conhecimento do Senhor, com Suas palavras ressoando no mais íntimo do meu coração a todo instante, alimenta o meu espírito e me fortalece para resistir ao diabo. Tenho experimentado dia após dia, por meio do estudo da Bíblia Sagrada, o que é descansar na graça de Deus, sem me preocupar com as riquezas desse mundo e nem andar ansioso pelo dia de amanhã.
Além desses e outros benefícios individuais, hoje também pudemos conhecer e vivenciar o que é o verdadeiro amor fraternal em Cristo, o que é ser corpo, o que é unidade no Senhor. Hoje, entendemos, de fato, que o templo religioso onde prestamos culto coletivo ao Senhor não passa de um simples prédio como qualquer outro. A casa de Deus somos nós, o santuário do Espírito Santo, o edifício cuja pedra de esquina angular é Jesus Cristo. Por isso, reunimo-nos não apenas no prédio da denominação, mas também nas casas dos irmãos, compartilhando nossas vidas em amor uns para com os outros. Além disso, temos plena ciência de que somos todos sacerdotes e Cristo é o sumo sacerdote de todos nós. Por isso, não há um ditador tirano que manda na igreja a seu bel prazer, mas esta é governada por meio de deliberações da assembleia dos crentes e liderada por irmãos cujos caráter e vocação sejam plenamente reconhecidos pela coletividade.
Tudo isso só é possível porque essa comunidade da qual hoje fazemos parte é centrada na Palavra de Cristo. Ela não simplesmente menciona Cristo. Ela não simplesmente lê versículos bíblicos durante as pregações. Ela se debruça continuamente sobre o estudo das Sagradas Escrituras, por meio das quais Deus tem se revelado à humanidade e que testemunham de Gênesis a Apocalipse acerca de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Afinal, Ele é a própria Palavra que se encarnou. Não pendendo para o extremismo do mero conhecimento teórico, é uma comunidade que também se empenha continuamente, confiando na obra do Espírito Santo, em praticar os mandamentos de Cristo e viver sob a dependência da graça divina.
À vista das experiências que tive na Universal por aproximadamente 20 anos (que apenas resumi pontualmente aqui), dos pontos de partida das minhas desconfianças e de como isso se desenvolveu lentamente ao longo de vários anos, da sede de entendimento que o Espírito Santo fez nascer em meu coração e de como tudo, em conjunto, desembocou no nosso desligamento da IURD e migração para uma verdadeira igreja bíblica, saudável e cristocêntrica, surgiu em mim o desejo de contribuir de alguma forma para que outros fiéis da Igreja Universal do Reino de Deus tenham a oportunidade de conhecer o verdadeiro evangelho da cruz de Cristo, repensar, à luz da Bíblia, o que têm sido ensinados a fazer e submetidos a sofrer (embora tentem negar isso a si mesmos) dentro da instituição, e refletir acerca da sua permanência ou não na instituição.
Embora em um ou outro ponto inevitavelmente sejam mencionados alguns escândalos da instituição, pois isso infelizmente faz parte da vida diária da Universal, o objetivo desse projeto é analisar apenas as doutrinas e práticas de IURD. Já há diversos projetos em atividade denunciando e provando os crimes e as más intenções da liderança da Igreja Universal. Os próprios fiéis lidam com essas “bombas” rotineiramente e fecham os olhos para tudo, acreditando nas justificativas pífias da alta cúpula da igreja, por meio do seu aparato de comunicação em massa, ou tentando convencer a si mesmos que, apesar disso, essa “obra” é santa. Digo isso porque a mesma coisa se dava comigo. Eu não só já soube de muita coisa, como também já presenciei muita coisa. Nada disso foi suficiente para me despertar dessa submissão cega à instituição. Apenas a Palavra de Deus foi capaz de abrir meus olhos e fazer enxergar cada vez mais a podridão e perversão desse sistema religioso. Como eu cria que a Bíblia era a autoridade máxima, conforme eles mesmos dizem na Universal, contra as Escrituras não havia argumentos suficientes para me convencer de que o império de Edir Macedo estivesse agindo corretamente.
Convido, pois, os leitores a explorarem à vontade os artigos deste site, consultarem cada referência bíblica por si mesmos, pesquisarem o que os mais variados teólogos têm comentado sobre esses assuntos e compararem tudo com os pronunciamentos da própria Universal sobre os temas abordados. Aliás, foram utilizados apenas publicações e materiais da própria instituição. O objetivo não é estimular ninguém a abandonar a IURD, mas apenas apresentar o que a Bíblia Sagrada diz sobre as doutrinas e práticas da Igreja Universal do Reino de Deus e deixar ao critério do leitor a sua conclusão pessoal.
Bons estudos!